13 de Maio de 2021 | Coimbra
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ANTÓNIO INÁCIO NOGUEIRA

Testemunhos: Nome de rua

19 de Março 2021

Muitas pessoas que conheço ignoram a história, a razão e a identidade que se esconde por detrás do nome que figura nas placas das ruas ou rua onde vivem.

A minha curiosidade e a necessidade de saber, leva-me a proceder de forma diferente. Por esse facto, sei com algum pormenor, a história das figuras que dão nome às ruas onde habito, permanentemente ou onde passo algum tempo da minha vida.

Um dos personagens que tive desmedida vontade de conhecer foi João de Barros. Dá nome à rua onde vivo na Praia do Pedrógão. Ao fazer uma pequena pesquisa, foi-me possibilitado saber algo da história de vida da pessoa e, também, a razão ou razões que o ligam à terra, já que tal homem nunca fez vida por aqui.

João de Barros terá nascido em Viseu (1496?) e falecido em Pombal (1570?). Ficou órfão, ainda criança, e foi acolhido nos Paços da Ribeira, onde exerceu as funções de moço de guarda-roupa do futuro rei D. João III.

Em 1525 é nomeado tesoureiro da casa da Índia, Mina e Ceuta, dando-lhe este cargo a experiência e o conhecimento que o levaram a escrever as Décadas da Ásia, em três volumes, sendo o primeiro publicado em 1552. Para além desta obra fundamental, João de Barros publicou outras, sendo de destacar a Crónica do Imperador Clarimundo (1520) e a Gramática de Língua Portuguesa (1540).

É através das suas Décadas que João de Barros ficará ligado à história do Pedrógão. O autor explicita, aí, que os marinheiros referenciavam as Pedras com respeito, local onde na altura poderá ter desaguado o rio Lis. A certa altura escreve-se: “(…) donde os navegantes, quando vêm ao longo desta costa conhecem já as madres de tais rios.”

É provável que as Pedras fossem, nesse tempo, um local lendário, onde as suas covas, lapas e grutas, davam abrigo a seres sobrenaturais que coabitassem bem com o elemento líquido.

Os velhos pescadores contavam que existia uma «grande Buraca» aberta para as águas, onde os barcos e os marinheiros aportavam para se abastecerem de água doce, dada a sua abundância no local. Aí, certo dia, ter-se-ão encontrado com uma moura, numa dessas covas. O local ficou a ser conhecido por Cova da Moura. Alguns desses navegadores terão surpreendido esse ser encantado, por volta da meia-noite, “a lavar a roupa para o marinheiro seu enamorado, que habitava no fundo das ondas enredado de roxas algas”.

João de Barros fica, pois, ligado aos pescadores e marinheiros e, também, às Pedras, lugar emblemático do Pedrógão carregado de mitos e histórias fantasiosas.


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