8 de Agosto de 2026 | Coimbra
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Uma Expofacic feita de pessoas

7 de Agosto 2026

Há muito que a Expofacic deixou de se resumir à sua matriz agrícola, comercial e industrial para se afirmar como um acontecimento de dimensão nacional, capaz de mobilizar anualmente centenas de milhares de visitantes. Ao longo de 11 dias, o Parque Expo-Desportivo de S. Mateus, em Cantanhede, transforma-se numa verdadeira cidade temporária, onde convivem atividade económica, gastronomia, cultura, tradição e animação. Com mais de três décadas de história, a Expofacic consolidou-se como a maior feira-festa do país.

A edição deste ano reúne mais de 600 expositores de diferentes setores, confirmando a capacidade da Expofacic para reunir, num único espaço, atividades, tradições e realidades muito distintas. Do artesanato à criação animal, passando pela gastronomia e pelo tecido empresarial, o certame é feito de projetos, saberes e percursos que ajudam a explicar porque a Expofacic continua a ser muito mais do que um evento: é um retrato das pessoas que lhe dão vida.

Uma tradição que sabe a festa

Entre os muitos aromas que percorrem o recinto da Expofacic, o das farturas acabadas de fazer continua a ser um dos mais difíceis de ignorar. A partir da Granja do Ulmeiro, no concelho de Soure, a empresa familiar Farturas Fábio percorre, ao longo do ano, feiras, romarias e festivais de norte a sul do país, levando farturas, churros e outros doces tradicionais. À frente do negócio está Fábio Dallot, que dá continuidade a um negócio cuja presença em Cantanhede se confunde com a própria história da feira.

Fábio conta que foram os pais a marcar presença nas primeiras edições do certame, no início da década de 1990. Houve um interregno de alguns anos, mas a família regressou quando ainda era criança e, desde então, mantém presença praticamente ininterrupta há mais de duas décadas.

Apesar de reconhecer que a Expofacic não é, necessariamente, o evento mais rentável do calendário, considera que poucos conseguem igualar a qualidade da organização e das infraestruturas. “Há todo um clima neste espaço com alguma magia”, resume, destacando o ambiente criado ao longo dos 11 dias como um dos fatores que continua a motivar o regresso anual.

Questionado sobre a relação quase inevitável entre uma festa popular e as farturas, Fábio acredita que a resposta está na tradição. Compara-as à bola de Berlim na praia ou ao pastel de nata para quem regressa a Portugal, defendendo que são um doce que o público associa de forma espontânea às celebrações populares. “É aquele doce que não pode falhar numa festa”, afirma, acrescentando que se trata de um hábito transmitido “de geração em geração”, mais difícil de explicar pela razão do que pelo sentimento.

A receita, garante, continua a ser surpreendentemente simples: água, farinha e sal. A diferença está na escolha das matérias-primas e no cuidado colocado. “A magia acontece no amor que colocamos no produto”, refere, convicto de que a qualidade dos ingredientes e a atenção ao processo fazem toda a diferença no resultado final.

A continuidade do negócio também nasceu de uma escolha consciente. Tanto Fábio como a mulher são licenciados em Educação Física e chegaram a exercer a profissão de professores. No entanto, explica que a exigência da carreira não era compensada pelas condições oferecidas. Perante o envelhecimento dos pais, decidiram assumir o negócio familiar, preservando um projeto que já fazia parte da história da família e que lhes permitia construir o próprio futuro.

Natural de Febres, mas há vários anos residente em Soure, olha agora para o futuro sem impor o mesmo caminho ao filho de quatro anos. A porta do negócio continuará aberta, como esteve para si, mas a prioridade será sempre que possa estudar e conhecer outras possibilidades antes de decidir o rumo que pretende seguir.

Um compromisso com o património rural

Entre os espaços dedicados à criação animal, a Quinta do Zorro apresenta um projeto que nasceu da vontade de recuperar terrenos agrícolas e acabou por transformar-se numa missão de preservação do património genético nacional. Sediada na aldeia do Zorro, em Torres do Mondego, no concelho de Coimbra, a exploração familiar dedica-se à criação das quatro raças autóctones de galinhas portuguesas (pedrês portuguesa, preta lusitânica, amarela e branca), todas elas consideradas património nacional.

À frente do projeto estão Elisabete Cortez Serra e o marido, Paulo Serra. A ideia surgiu em 2017, quando decidiram recuperar alguns terrenos da família, situados na encosta do Mondego, inicialmente com o objetivo de os manter limpos através da utilização de galinhas. A pesquisa sobre as raças autóctones despertou, porém, um interesse que rapidamente se transformou num compromisso de conservação.

A exploração continua a ser inteiramente familiar. Enquanto o marido se dedica a tempo inteiro aos animais, Elisabete concilia a atividade com outra profissão, contando ainda com a ajuda dos quatro filhos sempre que necessário. Ambos cresceram em ambiente rural, ligados à agricultura desde crianças, uma ligação que explica a escolha por um projeto assente na biodiversidade e na valorização das espécies nacionais.

Além das galinhas, a Quinta do Zorro cria cerca de 50 cabras da raça serpentina, exemplares do porco malhado de Alcobaça e, mais recentemente, o peru preto português. Elisabete admite que trabalhar com raças autóctones exige persistência, uma vez que o seu crescimento é mais lento do que o das produções intensivas, tornando a atividade mais desafiante do ponto de vista económico. Ainda assim, garante que o objetivo passa por tornar o projeto cada vez mais sustentável, sem abdicar dos princípios que lhe deram origem.

“As nossas galinhas têm qualidades que mais nenhuma raça tem”, sublinha. Explica que são animais particularmente rústicos, bem-adaptados às condições climáticas nacionais e capazes de crescer praticamente sem cuidados intensivos. O ritmo de crescimento, porém, é muito diferente daquele a que o mercado está habituado. Enquanto um frango de produção intensiva atinge rapidamente o peso de abate, um galo autóctone pode demorar entre oito e doze meses a completar o seu desenvolvimento. Essa diferença, defende, traduz-se também na qualidade da carne. “Quem prova estas não vai querer as outras mais.”

Para Elisabete, a presença na Expofacic é, acima de tudo, uma oportunidade para divulgar o projeto e sensibilizar o público para a importância das raças autóctones, o que se reflete nos contactos que recebe ao longo do ano de pessoas interessadas em iniciar pequenas criações domésticas. Esse trabalho de valorização estende-se às escolas, através do projeto “O Pinto Vai à Escola”, desenvolvido em parceria com a Associação Nacional de Criadores das Galinhas de Raças Autóctones (ANGRA), que permite às crianças acompanhar o nascimento dos pintos e aproximarem-se da realidade do mundo rural.

Se o trabalho diário exige resiliência perante o clima, os predadores ou as dificuldades próprias da atividade, Elisabete diz que a motivação permanece intacta. “Se não fosse por isso, já teríamos desistido”, admite. A convicção de que estas raças merecem ser preservadas continua a ser, garante, a principal força para continuar.

Também a avaliação da Expofacic é claramente positiva. Depois de participar noutros certames nacionais, considera que a feira de Cantanhede se distingue pelas condições proporcionadas aos animais, desde o espaço disponível às zonas de sombra e aos sistemas de arrefecimento instalados no recinto. “O que nós queremos mostrar é que os animais estão bem, e eu acho que isso é conseguido aqui pela feira”, conclui.

Quando o artesanato é terapia

Entre as dezenas de bancas de artesanato espalhadas pelo recinto, Hermínia Cabrita e a filha, Andreia, dão forma a um projeto que nasceu muito antes de pensarem participar em feiras. Mãe e filha conciliam a atividade artesanal com o trabalho como assistentes operacionais numa escola e fazem questão de sublinhar que o artesanato continua a ser, acima de tudo, um passatempo. “Há pessoas com outros vícios, nós temos este”, explica Hermínia, entre sorrisos.

A paixão começou há mais de quatro décadas, quando fazia peças em croché e tricô para os próprios filhos. Mais tarde vieram os pedidos de familiares, amigos e colegas, depois os netos e, entretanto, o envolvimento em projetos solidários, produzindo roupa e outras peças para apoiar mães solteiras através da escola onde trabalha. O incentivo de colegas que já participavam em feiras de artesanato acabou por levá-la a expor o seu trabalho, enquanto Andreia se especializou no ponto-cruz, uma tarefa que, brinca a mãe, exige “melhor vista e mais paciência”.

Presentes na Expofacic desde 2019, reconhecem a evolução do certame, embora lamentem que o artesanato nem sempre receba a valorização que consideram merecida. As vendas são reduzidas e a presença acaba por funcionar sobretudo como montra para futuras encomendas, permitindo dar visibilidade ao trabalho desenvolvido ao longo do ano.

Mais do que um complemento financeiro, Hermínia garante que continua a fazê-lo pelo bem-estar que a atividade lhe proporciona. “Enquanto estou a contar pontinhos, não estou a pensar nos problemas da vida”, afirma. Apesar do esforço físico que o croché e o tricô exigem, sobretudo ao nível da visão e dos pulsos, diz que a satisfação de ver cada peça concluída continua a compensar. “Dá-me gosto e realização pessoal.”

A memória do mar talhada em madeira

Há 23 edições consecutivas na Expofacic, Licínio Oliveira continua a transformar a madeira em pequenas histórias da identidade de Cantanhede. Natural de Arazede, mas residente na Tocha há cerca de meio século, o artesão de 65 anos dedica-se à criação de réplicas ligadas à arte xávega, à vida agrícola e aos ofícios tradicionais, procurando preservar a memória de um território através das mãos.

A ligação ao mar nasceu muito antes do artesanato. O avô, Manoel de Oliveira Paulino, era pescador da arte xávega na Praia da Tocha e foi com ele que cresceu, acompanhando de perto o quotidiano das companhas. Hoje, já reformado, Licínio vê cada peça como uma homenagem às suas raízes familiares. “Eu fui criado praticamente em casa dele e acompanhava-o sempre. Foi daí o meu gosto”, recorda.

O artesanato também atravessa gerações. O avô esculpia imagens em pedra e madeira, além de trabalhar na agricultura e na construção de poços, deixando um legado que o neto continua a preservar. Entre as peças que guarda com maior estima está uma imagem de Jesus Cristo concluída pelo avô quando Licínio tinha apenas cinco anos, uma relíquia familiar que restaurou recentemente para protegê-la da deterioração.

Embora os temas marítimos dominem a produção, o artesão recria igualmente carros de bois, palheiros, alfaias agrícolas e outras cenas inspiradas no quotidiano dos antepassados. Muitas das obras são feitas por encomenda e exigem um trabalho minucioso, desde a construção da estrutura em madeira até ao acabamento manual e à pintura. Paralelamente, continua ligado ao restauro de imóveis antigos e à criação de peças em mosaico com azulejos reaproveitados, uma arte que também herdou da família.

A maior parte das peças acaba por seguir para o estrangeiro, sobretudo através de emigrantes que procuram levar consigo um pouco das suas origens. Ainda assim, Licínio admite que a Expofacic funciona, acima de tudo, como uma montra do seu trabalho. “Quem gosta de arte, estar a vender uma peça, é um bocadinho de nós que vai com aquela peça”, confessa.

Ao longo de mais de duas décadas de participação, acompanhou a evolução do certame e considera que a Expofacic atingiu uma dimensão difícil de igualar. Recorda, porém, que os emblemáticos barcos em miniatura, hoje uma das imagens de marca da sua banca, só surgiram depois de um desafio lançado pelo antigo responsável municipal Jorge Catarino, que o incentivou a recriar uma tradição que praticamente tinha desaparecido do concelho. Desde então, a memória da arte xávega passou também a ser contada através das suas mãos.

Da cozinha para a comunidade

A gastronomia continua a ser um dos principais pontos de encontro da Expofacic e, entre as várias tasquinhas do recinto, há quem participe não apenas para servir refeições, mas também para apoiar a comunidade. É o caso da Fábrica da Igreja de S. Tomé, da Paróquia de Vilamar, que este ano voltou a assegurar a exploração de uma tasquinha no certame, uma responsabilidade que não assumia há vários anos.

Carlos Bento, membro do Conselho Económico da Fábrica da Igreja, explica que, apesar de muitos dos voluntários já conhecerem a realidade da Expofacic por terem colaborado anteriormente com outras associações, esta é a primeira participação da paróquia neste formato após um longo interregno. A iniciativa nasceu da necessidade de reforçar as receitas da instituição, destinadas sobretudo à atividade regular da paróquia e às obras de conservação da igreja. A par das coletas, do contributo paroquial e das festas religiosas, acredita que a Expofacic representará “uma grande ajuda”, podendo assumir um peso significativo nas receitas anuais.

Ao longo dos 11 dias, a tasquinha mobiliza entre 55 e 60 voluntários, que se revezam diariamente para garantir o funcionamento do espaço. Na ementa predominam os sabores tradicionais, com leitão à Bairrada, bacalhau, chanfana, grelhados, chocos, lulas e bifinhos com cogumelos, acompanhados pelos vinhos da adega da paróquia. “Evidentemente, não são pratos gourmet”, refere Carlos Bento, explicando que a aposta passa por uma cozinha simples, inspirada na tradição e pensada para receber os milhares de visitantes que passam diariamente pelo recinto.

Membros do Governo destacam dimensão nacional do certame

A Expofacic recebeu a visita dos secretários de Estado da Administração Local e Ordenamento do Território, Silvério Regalado, da Proteção Civil, Rui Rocha, e das Comunidades Portuguesas, Emídio Sousa, que destacaram a dimensão nacional do certame. “A Expofacic é muito mais do que uma feira e muito mais do que uma festa”, frisou Silvério Regalado. Para a presidente da Câmara Municipal de Cantanhede e da Comissão Organizadora da Expofacic, Helena Teodósio, estas visitas representam um “reconhecimento da importância económica e sociocultural da Expofacic como o maior evento do país a este nível”.

 


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