SOCIEDADE // Tem crescido o número de jovens que procuram o projeto “Abraço de Gerações”, em Coimbra. Só este ano, a iniciativa já recebeu, até ao momento, mais de 20 candidaturas, sendo que o período de maior afluência está agora a começar.
Promover o convívio entre diferentes gerações, construir relações significativas e melhorar a coesão social: são esses os principais objetivos do “Abraço de Gerações”. Com atuação em Coimbra, o projeto possibilita que estudantes do ensino superior co-habitem com idosos, usufruindo de alojamento gratuito na cidade enquanto ajudam a combater o isolamento de pessoas que vivem sozinhas. A iniciativa é coordenada pela ACERSI – Associação das Cozinhas Económicas Rainha Santa Isabel, em parceria com a Associação Académica de Coimbra, a Associação de Antigos Estudantes da Universidade de Coimbra e a MEO.
“A ideia passa por contribuir para a auto-estima do idoso e do estudante, e minimizar a sintomatologia depressiva. É também proporcionar alojamento gratuito e, acima de tudo, companhia aos mais velhos, mas também aos jovens que procuram um ambiente mais familiar para não se sentirem tão sós”, explica Teresa Sousa, diretora técnica da ACERSI, em declarações ao “O Despertar”.
De acordo com a responsável, ano após ano, a procura por parte dos estudantes tem vindo a aumentar. Nesse sentido, – e apesar de se mostrar “agradada com o facto de haver pessoas que querem fazer a diferença”, – Teresa Sousa confessa que “infelizmente, não temos capacidade de resposta para todos os jovens que nos procuram”. Isto porque os idosos inscritos no projeto estão em menor número.
Só este ano, e até ao momento, o “Abraço de Gerações” já recebeu mais de 20 candidaturas por parte de estudantes, sendo que só dois idosos estão disponíveis, já que “os restantes já estão integrados e vão dar continuidade à relação que iniciaram”. Apesar da dificuldade em dar resposta a todas as inscrições, os números prometem continuar a subir, sobretudo, durante este período de verão. “Tendencionalmente, o estudante inscreve-se mais nesta fase do ano (…) Recebemos muitas candidaturas a partir desta altura até inícios de setembro”, revela Teresa Sousa.
Em 2025, entre julho e agosto, a iniciativa foi procurada por dezenas de alunos (mais de 60) e, este ano, a ACERSI acredita que o fenómeno possa voltar a repetir-se. Contudo, a diretora técnica teme que “o facto de não conseguirmos dar resposta faça com que os estudantes se inibam de fazer a candidatura”.
Criação de laços é a prioridade
Apesar de os jovens que recorrem ao “Abraço de Gerações” serem oriundos de diferentes países, “a grande maioria são portugueses”, indica Teresa Sousa, esclarecendo que os estudantes de Erasmus não são integrados no projeto. “É um período muito curto (…) Não faz sentido porque não vai ao encontro do objetivo da iniciativa, que é a criação de laços. Quando se está a estabelecer essa relação de confiança, o estudante vai embora e não é justo para a pessoa idosa”, garante.
Além disso, – e também para salvaguardar o bem-estar dos seniores -, há um processo obrigatório pelo qual todos os candidatos devem passar antes de definir quem vai beneficiar do “Abraço de Gerações”. Em primeiro lugar, é feita uma avaliação psicológica e socioeconómica. De seguida, é traçado o perfil dos candidatos mais velhos e mais novos, procedendo-se, posteriormente, à integração do estudante que passará a co-habitar com a pessoa de mais idade.
Segundo a diretora técnica da ACERSI, apesar do alojamento ser gratuito, essa não é a principal razão que tem motivado cada vez mais alunos a recorrer à iniciativa. “Aqueles que têm um interesse genuíno querem mesmo viver com uma pessoa mais velha e usufruir de tudo o que advém dessa experiência”, sublinha.
Recorda, assim, o caso de uma estudante que continua a viver com a idosa mesmo após ter terminado o curso. “Já lá está há cerca de oito anos. Se é de entendimento comum e funciona bem, nós vamos tendo alguma flexibilidade e ajustamos. Para nós, o mais importante é a relação que se cria entre as partes”, acrescenta.
Como este, há outros exemplos que comprovam a importância do “Abraço de Gerações”, já que são muitos os jovens que, após terminarem o seu percurso académico, continuam a manter contacto com aqueles que os receberam de braços abertos. “Acabam por tornar-se família uns dos outros”, salienta Teresa Sousa.
Quebrar preconceitos
Apesar dos casos de sucesso, há também quem queira usufruir do projeto, mas nunca chegue a passar na seleção inicial. Teresa Sousa admite que a questão económica não é o mais importante e, por isso, “se nós temos um estudante que não tem o perfil ajustado para viver com uma pessoa mais adulta, não o vamos integrar. Integraremos outro que faça sentido, mesmo que não tenha tantas dificuldades económicas”.
Todavia, esta exigência não deixa de ter em conta o futuro dos alunos e a prova disso é que “tem sido possível proporcionar os estudos a alguns jovens que, de outra forma, não o conseguiriam fazer”, assegura.
Desde a génese do projeto, a comunidade vem estando cada vez mais desperta para a importância de combater o isolamento social e para o significado desta iniciativa. “As ações de sensibilização que temos feito no Alma Shopping também têm sido fundamentais, porque as pessoas podem esclarecer dúvidas sobre o projeto. Além disso, têm um contacto mais direto connosco, com a equipa e com os estudantes e idosos que dão o seu testemunho. É bom que a comunidade possa perceber que o ‘Abraço de Gerações’ funciona e não é só uma teoria”, salienta a diretora técnica da ACERSI.
A unir duas faixas etárias completamente díspares, o projeto permite que jovens de 18 anos e idosos de 90 se abracem “num encontro e numa relação de amizade”. É isso, na opinião de Teresa Sousa, que significa “abraçar gerações”. A essa realidade, junta-se ainda o aprender a respeitar as diferentes idades. “As duas partes são válidas e têm conhecimentos. Existem estereótipos relativamente aos mais jovens e aos mais velhos. Da nossa parte, pretendemos fazer com que esses preconceitos desvaneçam”, conclui.
Cátia Barbosa
»» [Reportagem da edição impressa no “O Despertar” de 7/08/2026]