A Causa Positiva está a celebrar 19 anos de atividade em Coimbra. Nascida como uma das empresas pioneiras no apoio domiciliário particular em Portugal, a entidade consolidou-se no mercado ao especializar-se num modelo de acompanhamento contínuo, 24 horas por dia, sete dias por semana para idosos ou pessoas em situação de dependência.
Numa altura de balanço e perspetiva de futuro, Clara Duarte, fundadora da Causa Positiva, alerta para os perigos do mercado informal e das plataformas digitais não licenciadas, ao mesmo tempo que reivindica reformas estruturais nas políticas públicas de apoio à terceira idade.
Há quase duas décadas, a resposta social existente na região de Coimbra limitava-se, essencialmente, às Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS). Contudo, segundo Clara Duarte, as respostas tradicionais cobriam apenas necessidades pontuais de alimentação ou higiene, deixando os utentes desamparados no resto do tempo. Foi para colmatar essa lacuna que a Causa Positiva surgiu.
Hoje, a empresa diferencia-se no setor ao focar-se na prestação de cuidados ininterruptos. “Neste momento, a Causa Positiva especializou-se no apoio 24 sobre 24 horas. Acompanhamos constantemente os nossos utentes para nos distanciarmos de outras ofertas. […] São cerca de 70 pessoas a prestar este serviço, num rácio mínimo de dois cuidadores para um utente” explica Clara Duarte.
Atualmente, a empresa apoia entre 30 a 40 utentes de forma contínua, detendo licença para acompanhar até 80 pessoas. O perfil de quem procura o serviço inclui sobretudo idosos com quadros demenciais ou dependência física grave, mas também casos de pessoas em recuperação pós-operatória ou vítimas de acidentes.
“Não prestar auxílio a uma pessoa de idade é crime”
A responsável sublinha a importância de vigiar os idosos, mesmo quando estes aparentam manter alguma autonomia. A ausência de apoio adequado pode culminar em episódios drásticos de descompensação de saúde ou acidentes domésticos graves.
“Uma pessoa com 90 anos, ou até de 80 com alguma demência, não pode viver sozinha. A qualquer momento deixa o gás ligado, a porta aberta ou cai no chão e não tem discernimento para pedir ajuda. Cada vez mais as famílias são responsabilizadas, porque o não prestar auxílio a uma pessoa de idade é crime” adverte Clara Duarte, notando que ainda persiste muita negligência até que ocorra um evento drástico.
O modelo de 24 horas pretende, assim, aliviar a sobrecarga emocional e logística dos familiares. “Os cuidadores estão lá, sai um e entra outro. A família acaba por ter tempo de qualidade com a pessoa, sem a preocupação de ir a correr comprar fraldas, medicamentos ou ir à consulta”, sublinhou a fundadora.
A importância de reconhecer o serviço
Um dos maiores desafios enfrentados atualmente pela Causa Positiva é a proliferação de plataformas digitais e serviços de cuidadores não regulamentados nas redes sociais, que funcionam sem licenciamento formal ou proximidade geográfica.
Clara Duarte enfatiza que a Causa Positiva opera sob uma licença de funcionamento de apoio social concedida pelas entidades competentes do distrito e adverte os consumidores para a necessidade de verificação rigorosa antes da contratação.
“É importante que quem precise destes serviços tente fazer uma avaliação para quando forem contratar percebam quem são as pessoas que estão a prestar o serviço. Se é uma plataforma, se é uma empresa que tem escritórios e licença para funcionar no seu distrito. A nossa licença de funcionamento é dada pela Segurança Social de Coimbra e por isso não podemos prestar um serviço em Lisboa, mas há muitas empresas que o fazem e é importante que as pessoas tenham essa noção”, reforçou, esclarecendo que a Causa Positiva funciona “como um serviço de proximidade”, que a torna diferente de outros serviços e plataformas.
Reivindicações ao Estado
Olhando para o panorama nacional do setor social e da saúde, Clara Duarte aponta duas falhas críticas na intervenção do Estado, que considera afetar diretamente a qualidade de vida dos cidadãos seniores.
À semelhança do cheque-dentista, defende a atribuição de uma prestação financeira ajustada aos rendimentos e encargos de cada idoso, permitindo-lhes escolher o tipo de apoio que preferem, seja em lar ou no próprio domicílio através do setor privado.
Também perante o bloqueio das altas hospitalares sociais e a lotação das IPSS, a responsável defende que as empresas privadas de apoio domiciliário, por estarem sujeitas às mesmas exigências legais de funcionamento, deviam trabalhar em conjunto com as Unidades Locais de Saúde (ULS) de forma a serem integradas no plano de escoamento e acompanhamento dos doentes que saem dos hospitais.
“As IPSS já estão cheias. O apoio domiciliário privado pode e deve ajudar nas altas hospitalares, porque somos da área social e regidos pelos mesmos decretos-lei. Por que não estarmos integrados nesse apoio? O Estado deverá dar um apoio equalitário e transversal a todos” conclui.