16 de Setembro de 2021 | Coimbra
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ANTÓNIO INÁCIO NOGUEIRA

Testemunhos: Lendas, “os livros na memória dos mais sábios”

10 de Setembro 2021

Sempre gostei de ler e ouvir narrar as inúmeras lendas que por aí proliferam. Em pequeno era quase uma paixão, hoje uma constatação quase histórica. Jamais poderei esquecer as lendas ligadas a Nossa Senhora do Açor da aldeia beirã dos Açores, a da origem do nome da Serra da Estrela, todas as que estão apegadas à defesa dos Castelos de Portugal, como sejam os de Celorico da Beira tendo Fernão Rodrigues Pacheco como herói, de Monção, com a personagem lendária Deu-la-Deu Martins no capitaneio, da Sertã, com Celinda, a sua desembaraçada defensora. Ligadas ainda a Castelos, posso acrescentar a ancestral lenda do castelo da Lousã, construído para proteção da princesa Peralta. Deixo para o fim a padroeira de Coimbra, a nossa Rainha Santa Isabel e as lendas – milagres a ela ligados, tantas são elas, como a do pão transformado em rosas, representativo e símbolo da sua bondade e proteção aos pobres. Estas são a ínfima parte de um conjunto de lendas que sustentam o valor de ser e de existir das terras de quase todo o mundo. Isto para não falar da mitologia clássica, com enredos extraordinários e de imaginação prodigiosa em redor dos seus Deuses.

Um dia breve, poderei retornar a este assunto e reverter as mais encantatórias para as páginas de um livro. Quem sabe…

Mas afinal o que é, sob o ponto de vista teórico, uma lenda?

Lenda é uma narrativa fantástica transmitida pela tradição oral através dos tempos. De carácter fantástico e/ou fictício, as lendas combinam factos reais e históricos com factos irreais que são meramente produto da imaginação humana, pródiga em aventuras. Uma lenda pode ser também verdadeira, o que é muito importante.

Com exemplos bem definidos em todos os países do mundo, as lendas geralmente fornecem explicações plausíveis, e até certo ponto aceitáveis, para coisas que não têm explicações científicas comprovadas, como acontecimentos misteriosos ou sobrenaturais. Podemos entender que lenda é uma degeneração do Mito. Como diz o dito popular “Quem conta um conto aumenta um ponto”. As lendas, pelo fato de serem repassadas oralmente de geração a geração, sofrem alterações à medida que são contadas.

Devemos levar em consideração que uma lenda não significa uma mentira, nem tão pouco uma verdade absoluta; o que devemos pensar é que uma história para ser criada, defendida, e o mais importante, ter sobrevivido na memória das pessoas, deve ter no mínimo uma parcela de factos verídicos.

Muitos pesquisadores, historiadores ou folcloristas, afirmam que as lendas são apenas fruto da imaginação popular, porém, como sabemos, as lendas em muitos lugares são “os livros na memória dos mais sábios”.

[com a devida vénia à Wikipédia, a Enciclopédia Livre]

E para terminar o artigo não posso deixar de assinalar a lenda do Lethes, cujo monumento representativo recente fui encontrar junto à maravilhosa ponte de Ponte de Lima (um misto romano, medieval e contemporâneo) que dá à terra uma beleza ímpar. O monumento que reproduz a figura de um comandante romano está instalado na margem direita do rio Lima, e o dos soldados no areal da margem esquerda. Ambos são em ferro e granito, e maiores do que o tamanho real. Bonito e evocativo da lenda do rio Lethes, o rio do Esquecimento.

As estátuas, com assinatura dos artistas plásticos Salvador Vieira e Mário Rocha, pretendem perpetuar a passagem do general romano Decius Junius Brutus, e das suas tropas, por Ponte de Lima, no ano 135 a.C. O episódio chegou aos nossos dias pelas palavras, por exemplo, de Almada Negreiros: “Comandadas por Decius Junius Brutus, as hostes romanas atingiram a margem esquerda do Lima no ano 135 a.C. A beleza do lugar as fez julgarem-se perante o lendário rio Lethes, que apagava todas as lembranças da memória de quem o atravessasse. Os soldados negaram-se a atravessá-lo. Então, o comandante passou e, da outra margem, chamou a cada soldado pelo seu nome. Assim lhes provou não ser esse o rio do Esquecimento.” (Com a devida vénia à Câmara Municipal de Ponte de Lima).

Lenda que muito nos ensina, a todos, mas principalmente à classe militar e aos seus chefes.


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