13 de Maio de 2021 | Coimbra
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JOÃO PINHO

O servilismo político

16 de Abril 2021

Tenho da política uma visão de defesa dos interesses públicos, mas não de servilismo. Os políticos existem, é certo, para servir os povos, mas não para se servirem dos povos ou serem criados dos povos. Na qualidade de seus legítimos representantes, os políticos devem, por isso, instar pelas justas aspirações das suas comunidades, priorizando opções coletivas em detrimento das individuais.

Não compreendo como ainda subsistem, em pleno século XXI, políticos e clientelas associadas, que se regozijam com umas betoneiras de cimento aplicadas aqui e acolá, beneficiando uns em nítido prejuízo de outros, desprezando saneamento básico, segurança rodoviária, proteção civil, formação ou empregabilidade. Talvez algum povo tenha aquilo que merece ou tenha aquilo que não reconhece: se todos os dias o habituaram a comer lentilhas, festejando cada refeição com foguetório e contradanças, em agradecimento ao seu senhor, como podem sentir o sabor da liberdade de escolha, seja ele um bom prato de bacalhau, um leitão assado ou uma lasanha vegetariana?

Recomendo que leiam as conclusões obtidas pela equipa cirúrgica que no verão de 2015 operou, de forma inédita, um doente cego no Centro Cirúrgico de Coimbra, colocando-o a ver de um dos olhos pelo reaproveitamento das suas partes funcionais:

«Esta é uma cirurgia que prova que nunca devemos desistir de fazer o melhor por cada doente e, neste caso específico, tínhamos de tentar proporcionar melhor qualidade de vida, porque este era um caso em que a alternativa era deixar manter o doente na cegueira. O doente tem neste momento uma acuidade visual de 1/10, portanto já não se considera que seja cego, e a equipa espera que a capacidade do olho distinguir dois pontos distintos, melhore ao longo do processo de recuperação que se segue» – pode ler-se num dos jornais de referência nacional que noticiou o assunto.

O que é que a cegueira, neste ou noutro caso, tem a ver com o servilismo ou com a política? Tudo, em especial quando é o cego que não quer ver – nem os malefícios do regime servil, nem os benefícios de uma política sensata.


  • Diretora: Zilda Monteiro

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