(prosa-verso)
O meu avô era ferreiro,
Batia o ferro de manhã até à noite,
No Verão suava, suava em bica,
E eu criança, olhava-o sem dizer uma palavra.
Tinha pena do meu avô,
P´ra ganhar a vida,
Tinha de suar, sempre a suar.
Eu olhava-o triste e pesaroso,
Cada pancada no ferro era uma nota musical,
Todas as vezes que criava uma peça era poesia.
Quase todas as vidas têm poemas,
Depende da cor dos poemas que a vida escreve.
A vida do meu avô não era poema, era um novelo.
E eu redijo sobre as vidas feitas de novelos,
Hoje chegou a vez de escrever sobre os novelos do meu avô.
Cheira-me à minha infância,
Como se os aromas das batidas no ferro se escrevessem.
O meu avô calado, permanece a malhar o ferro,
Pelas suas rugas cavadas continua a correr suor.
Eu nunca soube desenhar,
Senão esboçava as rugas do meu avô.
Passados tantos anos, só hoje escrevi sobre o meu avô,
É que eu avô, não garatujo quando quero,
Hás vezes fico anos á espera que abeirem as palavras,
P´ra contar as tuas batidas no ferro quente.
Por isso avô, perdão, por só agora escrever sobre ti.