A revitalização da Baixa de Coimbra foi uma das prioridades assumidas pelo executivo liderado por José Manuel Silva entre 2021 e 2025, período em que foi criado o Plano Marshall para a Baixa, uma estratégia com 137 medidas destinada a responder a problemas acumulados durante décadas no centro histórico.
Em entrevista ao jornal “O Despertar”, no âmbito da reportagem “Uma Baixa entre a memória e a transformação” (que saiu na última edição do nosso jornal), José Manuel Silva aborda a estratégia de revitalização e o trabalho desenvolvido enquanto presidente da Câmara de Coimbra. Médico e professor universitário, entrou na política autárquica em 2017, pelo movimento Somos Coimbra, foi vereador sem pelouro até 2021 e, nesse ano, liderou a coligação Juntos Somos Coimbra, venceu as eleições e presidiu ao município até 2025. Atualmente, é vereador da coligação Somos Coimbra.
“Quatro anos eram insuficientes para resolver os problemas de 40 anos”
O Plano Marshall nasceu, segundo José Manuel Silva, da “consciência transversal” de que era necessário um “plano urgente, abrangente e atual de intervenção multifuncional específica na Baixa de Coimbra”. A designação, escolhida por ser “metaforicamente expressiva”, enquadrava uma estratégia já prevista no programa eleitoral e foi também uma resposta às críticas de que o executivo não atuava no centro histórico.
O antigo presidente considera que o abandono da Baixa acompanhou transformações verificadas noutras cidades, mas entende que Coimbra não teve durante décadas políticas suficientes para mitigar esse processo. A estratégia reuniu seis áreas: habitação, edificado, património, espaço público e ambiente urbano, comércio, serviços e equipamentos, e infraestruturas e mobilidade, em linha com a Área de Reabilitação Urbana da Baixa.
“Quatro anos eram insuficientes para resolver os problemas de 40 anos”, afirma, defendendo que a recuperação de um centro histórico exige políticas de médio e longo prazo.
“O nível de realização é absolutamente excecional”
Questionado sobre os cerca de 63% das medidas apontadas como concluídas ou em execução, José Manuel Silva classifica o resultado como “absolutamente excecional”, tendo em conta o estado financeiro e a falta de projetos que, segundo afirma, encontrou no município em 2021.
Recorda que o orçamento camarário passou de 167 para 260 milhões de euros e que a receita anual de impostos diretos cresceu cerca de 20 milhões, sem aumento das taxas, evolução que atribui às novas dinâmicas criadas durante o mandato.
Para a Baixa, considera prioritário “completar o Plano Marshall”. Destaca o Metrobus, a residência de estudantes, as reabilitações da Rua Direita, Terreiro da Erva, prédio da Praça 8 de Maio, Casas Medievais e Salão Brazil e a videovigilância. “Quando os projetos em curso estiverem prontos (…), Coimbra e a Baixa estarão completamente diferentes”, antecipa.
Critica o fim do Coimbra Tech Challenge e do projeto Baixinova e a eliminação do espaço de coworking previsto para o Pátio da Inquisição. A instalação parcial do ISMT na Baixa é considerada “uma boa notícia”, apesar das reservas sobre o processo.
“A Baixa nunca mais voltará a ter a centralidade que teve há meio século”
José Manuel Silva rejeita que a revitalização deva repor o papel que a Baixa tinha há décadas. “Hoje, Coimbra é uma cidade multipolar, com várias centralidades, pelo que a Baixa nunca mais voltará a ter a centralidade que teve há meio século. Tudo mudou, o passado não volta mais e ainda bem”.
A estratégia, sustenta, procurou “repensar a Baixa para o futuro, não para a devolver ao passado”, valorizando o património e atribuindo ao turismo um papel relevante, desde que equilibrado e integrado numa política capaz de sustentar comércio e serviços.
Como indicadores do sucesso, aponta “o número de pessoas a circular nas ruas da Baixa e o número de prédios degradados”. Recorda que, em 2013, 36% dos edifícios da ARU estavam em estado razoável, 31% em bom estado, 24% em mau estado e 6% em ruína.
Mobilidade e nova cidade
A mobilidade integra esta transformação, mas José Manuel Silva rejeita explicações únicas para o despovoamento, associando-o à perda de população e de jovens, degradação do edificado, mudança dos hábitos de consumo e novas centralidades. “Dantes, quase todo o concelho era obrigado a vir fazer compras à Baixa, hoje não!”, observa.
A redução do trânsito particular de atravessamento da Rua da Sofia, refere, estava prevista há mais de uma década. Como exemplo, aponta Dubrovnik, onde o centro histórico não tem automóveis, mas mantém milhares de pessoas e forte atividade comercial e turística.
Defende ainda a concretização integral do plano urbanístico de Joan Busquets para a zona da futura Estação Intermodal, com uma nova gare rodoviária e uma ligação em boulevard da zona poente à área central e à Baixa. “Seria terrível para Coimbra se este plano voltasse a ser colocado na gaveta, por meros motivos políticos”, afirma.
“O turismo é fundamental para Coimbra e para a Baixa”
Para José Manuel Silva, a revitalização depende da articulação entre habitação, comércio, espaço público, património, turismo, investimento e emprego, abordagem que considera distinguir o Plano Marshall de intervenções anteriores.
Destaca o @Baixa – Bairro Comercial Digital, projeto de 1,2 milhões de euros do PRR, desenvolvido pelo Município, Agência para a Promoção da Baixa e CoimbraMaisFuturo numa área de 24,5 hectares, com 836 estabelecimentos identificados. Tinha 274 comerciantes aderentes e incluía click & collect, cacifos públicos, mupis digitais, mobiliário urbano inteligente e o Marketplace @Baixa Coimbra, com 266 lojas ativas em julho de 2025. “Precisava de ser continuado e promovido”, defende.
Na área do turismo, destaca o SHIFT Coimbra, financiado em 4,9 milhões de euros pela European Urban Initiative, destinado a cruzar sustentabilidade, património e inovação. Critica também a ausência de Coimbra da BTL em 2026, depois da presença individualizada do município no ano anterior.
“A Baixa tem de se modernizar”
José Manuel Silva considera que nunca tinha existido, desde os documentos das ARU, “uma estratégia global, multifacetada e exequível de intervenção e revitalização da Baixa”. Sustenta que o anterior executivo iniciou a inversão do abandono também através de projetos culturais, como a Feira do Livro.
Aponta responsabilidades aos proprietários, devido aos preços pedidos por imóveis e arrendamentos, e defende respostas para a concentração de problemas sociais. Considera ainda necessário adaptar os horários do comércio: “A Baixa tem de se modernizar”, afirmando que os estabelecimentos devem abrir ao sábado à tarde.
O vereador mostra-se convicto de que a reabilitação “será bem-sucedida e acompanhará a revivificação de Coimbra”, relacionando-a com a recuperação demográfica da cidade a partir de 2022 e com o crescimento do número de empresas, de 20.444 em 2021 para 23.527 em 2024.
“Efetivamente os espaços só se recuperam com pessoas e as pessoas só se fixam onde encontram oportunidades de vida com suficiente retribuição, estabilidade e qualidade”, afirma. O principal sinal de sucesso será “o regresso das pessoas a (quase) todos os recantos e encantos da Baixa”. “Este era o nosso compromisso assumido para oito anos”, conclui.
Sérgio Lemos
»» [Reportagem da edição impressa no “O Despertar” de 4/9/2026]