As obras do Sistema de Mobilidade do Mondego e as consequentes alterações de trânsito na Rua da Sofia, na Baixa de Coimbra, estão a gerar forte apreensão nos comerciantes locais. José Reis, dono do icónico restaurante “Cantinho dos Reis”, alerta para o impacto nas cargas e descargas, no emprego e na sobrevivência da Baixa de Coimbra.
A partir de 10 de setembro (a confirmar), a Baixa prepara-se para uma possível transformação estrutural. A entrada em funcionamento da nova fase do Sistema de Mobilidade do Mondego (SMM), que levará o Metrobus até à Praça da República (Via Central) e à Estação Coimbra-B, implica uma profunda reorganização do trânsito automóvel e da rede dos SMTUC. Se por um lado a promessa é de modernização, por outro, quem ali trabalha há décadas olha para o futuro com incerteza e receio.
Aos 81 anos de idade, e com 67 de trabalho dedicados à mesma artéria da cidade, José Reis é a voz viva da memória e da preocupação dos empresários locais. O proprietário do “Cantinho dos Reis” recorda com nostalgia os tempos em que a artéria fervilhava de vida.
“Comecei na Rua da Sofia com 13 anos de idade, saí de lá com 50. No meu tempo, quando eu era jovem tiveram de alargar os passeios porque as pessoas não cabiam. Havia gente, gente, gente.”
No entanto, o empresário nota que o declínio começou há anos, impulsionado pela expansão dos grandes hipermercados fora do centro histórico. Agora, receia que as novas restrições de circulação na Rua da Sofia e o fecho de acessos limitem ainda mais o fluxo de clientes e a logística diária dos negócios.
O desafio do abastecimento e do emprego
A grande preocupação de José Reis reside na operacionalidade do seu estabelecimento, especialmente na restrição dos horários e acessos para cargas e descargas.
“Imagine, você vem aqui às 15h00 e marca-me uma refeição para a noite para 50 pessoas. Eu tenho que ir buscar à Makro mercadorias para aviar um jantar. Então passo por onde? Se a placa ali diz que é das 8h00 às 10h00, cargas e descargas. Como é que eu me consigo salvaguardar? É um problema para pensar.”
Com 15 funcionários a seu cargo na Segurança Social, José Reis sublinha a responsabilidade social que carrega ao manter o negócio em funcionamento.
“Eu serei contra o fecho da Rua da Sofia porque afeta também o Terreiro da Erva. Tenho 15 famílias para sustentar. E não pago o ordenado mínimo a ninguém, os meus ordenados são superiores”.
Um apelo a alternativas
Embora reconheça a importância dos transportes públicos e não exclua totalmente os eventuais benefícios do Metrobus para a cidade, o comerciante pede pragmatismo aos decisores políticos. Para José Reis, a prioridade deve passar por assegurar que quem vive e trabalha no coração histórico continue a ter condições de acessibilidade.
“As casas que têm comércio têm de ter acesso para podermos trabalhar. Se nos derem acesso, ao menos, pode ser que com o tempo as coisas melhorem. Espero que a Câmara e quem manda arranjem alternativas para nós podermos continuar a trabalhar.”
Enquanto a cidade se prepara para a nova rede de transportes a 10 de setembro, os comerciantes da Baixa aguardam para ver se as soluções de mobilidade trarão o regresso das multidões ou se, pelo contrário, isolarão ainda mais o comércio tradicional.