5 de Agosto de 2021 | Coimbra
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VASCO FRANCISCO

“Domingo de Ramos, na Páscoa estamos”

1 de Abril 2021

Prolonga-se a abstinência da Quarta de Cinzas numa Quaresma quase muda, onde o silêncio se atenua com mais sentidos. Além de um respeito religioso e uso antigo é hoje um silêncio forçado que traduz a estagnação de um mundo que se levanta e logo cai, é uma mudez forçada que leva a refletir essa via sacra humana e natural que é o caminho da vida no calvário do mundo. Os lírios e o rosmaninho vão arroxeando os campos numa cor pascal que perdura e se dilui no florescer envergonhado das árvores, esses seres de afoitas pernadas que não se superam por vontade a qualquer ser mais herbáceo ananicante. A natureza é uma só, distingue-se para os botânicos, para os agrónomos, mas criou-se e vive em simbiose unida. Junta-se a essa união o humilde e velho lavrador que em diante vai jogando a semente aos solos lavrados, onde o cheiro à terra é mais intenso, benzendo-se a cada sementeira entregando-a por costume e por fé enquanto se refugia por ali um ano no seu horto estimado.

Com medo de provar a carne nos dias que se guardam as semanas vão passando e os Passos, essas procissões lutuosas e arroxeadas, compassadas de oração e iluminadas à luz do azeite, são agora lembradas numa quebra de costumes, que se hão de retomar, mas por enquanto vivamos os nossos passos e entendamo-nos. As alminhas continuam acesas por esses quelhos e caminhos, numa chama mais forte que ilumina aqueles azulejos benditos que há muito não escutam o cantar às almas santas, essa secular tradição que o povo sempre entoou a voz nua por estes lugarejos, ecoando aquelas vozes entre o céu e a terra num arrepio quaresmal. Nessa ausência de costumes fica-se o povo na lembrança das quadras, orando e questionando, “À porta das almas santas | bate Deus a toda a hora,| almas santas lhe perguntam | – ó meu Deus que q’reis’ agora?”

Neste ciclo que ao Domingo de Lázaros já vê mais próximo o dia da festa, ficaram as velhas em descanso, pois ninguém as serrou em algazarra profana e penosa num arreliar de morte, “Sárrate velha que amanhã é o teu dia! vais dar a alma a Deus e o corpo à terra fria!!”.

Antes de findar mais um dia de labuta quer nos campos e nas lides da casa, que se limpam e aprontam a preceito nestes dias, quer de roda do forno onde já vão cozendo os primeiros folares do povo, “os bolos dormidos”, tudo vai compondo o ramo de oliveira, alecrim e louro que se ade levar à bênção no Domingo de Ramos. Aquele aroma campestre inunda o terreiro e a igreja numa alegria onde já se parece sentir a Páscoa. Longe vão os tempos em que iam à matriz ramos que davam para limpar as teias das altas janelas, era de ver qual o loureiro mais alto, quase num despique triunfal. Se não depois oferecidos aos padrinhos, eram pendurados na “loje” ou na chaminé das cozinhas, pois ainda havia de valer nos dias de trovoada ou para curar algumas maleitas.

Entra a semana santa e o silêncio é ainda mais considerado. Há ainda quem tire os chocalhos ao gado, outros mal acendem os rádios, só se for “baixinho”. Era um corrupio aos templos nestes dias. A partir de quinta feira santa, nem pôr os pés na horta, só por motivo maior, estava Jesus em agonia no horto das oliveiras. Sexta, um dia penoso, o dia da cruz e da morte, a data que fará refletir essa Via Lucis que o mundo atravessa e protagoniza. Não se escuta o cantar de Verónica nas curvas da serra, mas o calvário entende-se ainda com mais significado.

A passarada vai libertando um chilrear mais alegre, as cores intensificam-se e os aromas propagam-se num Sábado já de festa em que as campainhas e chocalhos telintam numa noite também ela ressuscitada. Amanhecerá o Domingo de Páscoa, estendem-se tapetes de rosmaninho e de junco, os folares e as amêndoas provam-se com nostalgia, mas Cristo não veio nas mãos do Prior, nem campainhas nem caldeirinha. A sala não se enche de povo, andam as ruas desertas e muitas portas nunca mais se abrem, mas o vasto significado Pascal continua presente, que o entendam crentes e ateus, pois entre esse significado está a ESPERANÇA.


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