Com frequência, quer no falar comum, quer na língua literária, deparamos com expressões que encontram a sua origem nas línguas, na história e cultura, nos mitos greco-romanos. A convite de “O Despertar”, acedi fazer um breve percurso pelos caminhos que seguiram algumas palavras e expressões, mais ou menos conhecidas, desde os seus começos até aos nossos dias, procurando descobrir os seus secretos sentidos e evoluções semânticas. Dos muitos termos e expressões que semeiam a língua portuguesa, recordarei apenas alguns exemplos, que semana a semana aqui vou desfiando.
E dedico as parcas linhas que aqui ficam ao meu caro Amigo e excelente jornalista Sansão Coelho que para “O Despertar” me convidou.
A cultura clássica criou valores intrínsecos de grande relevância que estão na base do viver e sentir do homem moderno, onde permanecem pujantes e vivos, como bem o explicitam, entre outras obras, As Humanidades Greco-Latinas e a Civilização do Universal (Coimbra, 1988).
O conhecimento dos factos, fenómenos e valores mais salientes da história e da cultura grega e romana fará o homem de hoje penetrar num mundo fascinante em si mesmo, mas sobretudo convida-o a conhecer-se melhor, a saber as raízes da sociedade de que faz parte, as ideias e os valores fundamentais que ainda hoje enformam a cultura ocidental. Por exemplo, muitos dos ideais da democracia grega, direitos e deveres dos cidadãos revivem nas constituições democráticas do mundo moderno. Diversas instituições europeias, ou mesmo mundiais, ao longo dos tempos, buscaram o modelo entre as instituições helénicas. A Declaração dos Direitos do Homem e a Carta das Nações Unidas, de 1948, encontram os seus princípios e a sua filosofia nos ideais da democracia grega.
Pode dizer-se que muitos dos valores que enformam a cultura ocidental e boa parte do mundo de hoje foram bebidos e inspirados na Antiguidade Clássica. Se bem que haja o contributo de outros fatores, a influência greco-romana é das mais fortes e ricas. A nossa civilização, fosse qual fosse a riqueza acumulada, as guerras que tivesse combatido, as invenções que conseguisse fazer, escreve G. Highet, «seria muito menos consistente, mais fragmentária, menos profunda, mais materialista»; «seria menos merecedora de ser chamada uma civilização, porque a sua realização espiritual não seria tão grandiosa” (The Classical Tradition, p. 1).
Provocado o declínio da da cultura greco-romana por série de invasões e guerras civis, de crises económicas, morais e religiosas provocou – a Idade Média, em que permaneceu em letargia ou confinada a determinados centros de irradiação, como mosteiros e depois universidades –, depois o pensamento europeu foi despertado e estimulado pela sua redescoberta. Verifica-se então um progresso gradual e lento que é, em grande parte, um progresso educativo, cuja caraterística principal reside no conhecimento e estudo do pensamento, da língua e dos autores gregos e latinos nas grandes universidades e abadias. A cultura na Europa começa a renascer… E nesse Renascimento, a Europa Ocidental é dominada pelas artes e ideias da Grécia e de Roma. Assimiladas com avidez, cria-se uma nova arte e um novo pensamento que erguem a moderna civilização, de que a cultura greco-latina se apresenta como uma herança comum e um traço de união.
É a receção das culturas grega e romana continuam vivas e a reproduzirem-se em novas realizações culturais. Sempre que encontram espíritos que os recebam, renascem nele e fazem-no viver mais intensamente. Preparação mínima é, porém, necessária, dada a importância que sempre teve a cultura na formação do homem. Nenhuma terra, por mais fértil que seja, consegue produzir frutos, se não for tratada, para utilizar a metáfora agrícola das Tusculanas de Cícero (2. 5. 13): «Como o campo, apesar de fértil, não produz frutos sem cultura, o mesmo acontece com o espírito sem a educação».
Aí reside o âmago da questão. Há necessidade, pois, de se cuidar do filão. É que, sem ele, não seríamos o que hoje somos, mas outros. Não sou capaz de dizer ou imaginar o que o que seríamos, mas tenho a certeza que outros éramos.