14 de Maio de 2021 | Coimbra
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ALICE LUXO

Alegria e “coisas” boas: postal gustativo

30 de Abril 2021

“(…) [quase é] tempo/de embalar a trouxa e zarpar (…)” e, em modo piquenicar, viver o nosso ABC gustativo em experiências partilhadas. Chegamos hoje à letra Q, letra desafiante que nos leva a relembrar o kiwi, em ortografia e solo lusos, mas também a uma ponte-atlântica que da cidade do Lis nos leva a saborear um quindim (em terras de vera cruz a amêndoa das brisas terá sido substituída pelo coco). E que tal um queijinho fresco? O que apetece é algo mais doce? Sirva-se então de duas Queijadas, deixe-se encantar pelo sabor e tradição a que mãos-guardiãs-de-afetos continuam a dar contemporaneidade, e aceite o convite para visitar Pereira e Tentúgal, descobrindo as 1001 histórias que o Mondego nos ajuda a contar. Do Convento de Nossa Senhora do Carmo de Tentúgal, também referido como Colégio de Nossa Senhora da Natividade, ao Colégio das Ursulinas, fica uma curiosidade andarilha: o Colégio Ursulino da Vila de Pereira manteve-se em Pereira até 1848, tendo então sido transferido para Coimbra, para o Mosteiro de Santa Ana e, em 1851, para o Colégio de S. José dos Marianos, onde a congregação se manteve até 1910, data da extinção definitiva (Arquivo da Universidade de Coimbra). Oportuno relembrar aqui as palavras sábias de José Quitério (“Livro de Bem Comer”) das quais ousadamente nos apropriamos para caracterizar o território gustativo abrangido pela classificação Coimbra Região Europeia da Gastronomia: “[temos] um riquíssimo número de pratos, iguarias, criações anónimas e carregadas de sabedoria, fixadas ao longo dos tempos e depuradas por inúmeras gerações, sínteses perfeitas de paladares ancestrais.”

Porque estamos em maré de doces, que tal uns queijinhos? Não é um doce, pensará o caríssimo leitor!, pois… olhe que sim, olhe que sim, eis então uma receita de queijinhos, tal como descrita por Branca Miraflor no número 3 da Coleção [economia] Doméstica (“120 maneiras de fazer doces, pudins e bolos sêcos”, 3.ª edição): “põe-se 500 grs. de açucar pilé em ponto de pasta, em estando pouco quente junta-se-lhe 5 grs. de canela em pó, 25 grs. de farinha fina, 12 gemas batidas e 100 grs. de amêndoa moída; liga-se tudo muito bem e volta a ferver um pouco. Em estando quási fria a massa, fazem-se os queijinhos, do tamanho dos de Tomar [micro intervalo a permitir nova ponte gustativa, desta vez até à cidade do Nabão para saborear um beijinho  ] e envolvem-se em açucar”.

Um dos produtos incontornáveis da Região? O Queijo. De Sicó à Estrela, entre fresco, requeijão, pasta semi-mole, amanteigada, branca, amarelada ou cremosa, com leite de vaca, cabra, ovelha ou misto, há 1001 motivos para sair à descoberta dos territórios que alimentam alguns dos produtos com denominação de origem protegida (DOP) no cardápio de Coimbra Região Europeia da Gastronomia. Deixamos a rodilha e saboreamos uma regueifa, uma rabanada (serão as rabanadas, também chamadas fatias douradas, “descendentes” das torrijas – “fatias de pão embebidas em leite ou vinho e passadas por ovos batidos, açúcar e canela” – registadas por Domingos Rodrigues no que é identificado como o nosso primeiro livro de cozinha?), uma rosquilha de azeite ou … um rissol: de carne, de peixe ou vegetariano, nasce um produto gourmet que resulta – pode resultar! – do aproveitamento de sobras de uma outra refeição e se revela presença “obrigatória” no cesto de piquenique ou mesmo na mesa de entradas em festividades à portuguesa  o que nos leva a relembrar: a criatividade é um fator identitário à Mesa da Portugalidade.

Mantemos em aberto o desafio de fixarmos, em modo colaborativo e para memória futura, como que uma espécie de “ficha técnica” dos pitéus saboreados, confiantes de que é à mesa que nos sentimos verdadeiramente parte da comunidade que visitamos, ao mesmo tempo que vamos descobrindo uma possível identidade gastronómica de Coimbra e Região como resposta à pergunta gustativa de 2021: “o que se come aqui?”. Como nos diz Virgílio Nogueiro Gomes: “as receitas viajam na cabeça, ou são copiadas à mão de antigos livros, durante gerações, preservando uma memória que pertence à história do país, mas que é, ao mesmo tempo, uma memória de cada um”.

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Em modo intermezzo:

No passado dia 23 de abril, dia mundial do livro e dos direitos de autor foi apresentado o livro dedicado ao primeiro centenário de “O Despertar”, em cerimónia na qual tive o privilégio de estar presente enquanto membro desta família que todos os dias cresce. Obrigada a todos e cada um e, permitam-me a familiaridade, um beijinho especial à Zilda Monteiro e ao Lino Vinhal.

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Imagem oficial apresentada, é sempre bom (re)lembrar que todas as terças-feira, nas redes sociais há uma conversa que nos convida a fazermos parte do caminho que levará Coimbra a Capital Europeia da Cultura em 2027 e mais além.

Até já e… tertuliemos “coisas” boas!


  • Diretora: Zilda Monteiro

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