O amor é “lindo”. É “cego”. É “avassalador”. “É fogo que arde sem se ver”, já dizia o poeta Luís Vaz de Camões. Mas também pode ser um verdadeiro “incêndio”, uma tragédia. Muitas são as mulheres e os homens que aceitam tudo por amor, até mesmo a violência doméstica, por medo. A relação em que investem tanto tempo, uma vida, pode tornar-se no “pior pesadelo de amor”. Assim, no âmbito do Dia de S. Valentim (14 de fevereiro), o dia de celebrar o amor, o “Despertar” esteve à conversa com a gestora do Gabinete de Coimbra da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV), Natália Cardoso, sobre a violência doméstica. “Há ainda muito trabalho a fazer para mudar esta realidade”, desabafou.
Todos os dias chegam casos de violência doméstica ao Gabinete da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) de Coimbra, “único na região Centro”. Esta foi e é uma problemática atual e ainda há muito trabalho a fazer para mudar esta realidade, que afeta dezenas de pessoas por dia. A violência doméstica vai muito além de uma relação agressiva entre homem e mulher. “Mas focando nos relacionamentos de intimidade”, a maior parte das pessoas que recorrem aos serviços “continuam a ser mulheres vítimas de violência conjugal por parte dos companheiros e no namoro”, disse ao “Despertar” a gestora do Gabinete da APAV de Coimbra, Natália Cardoso.
“Quando olhamos para os números ou até mesmo no nosso trabalho diário vemos poucos jovens a solicitar os nossos serviços, o que pode estar relacionado com o facto de recorrerem às próprias instituições, como as escolas”, evidenciou a coordenadora ao salientar que os jovens (em fase adulta) “é como se vivessem numa bolha e não solicitam ajuda. Existe muita violência no namoro que não é sinalizada”.
Muitos são os que associam o termo “violência doméstica” à figura feminina. Mas a verdade é que “começa a haver cada vez mais pedidos de ajuda masculina”. “Os homens também são vítimas de violência na intimidade” realçou, não deixando de mencionar que, ainda assim, o maior número continua a ser as mulheres.
Natália Cardoso abraçou a APAV há 25 anos como voluntária, altura em que ainda era estudante de direito, e confessa que não imaginava “a dimensão deste problema e o mundo que ia encontrar”. “Em relação às vítimas de violência doméstica já sabemos que os casos que são sinalizados à estrutura é uma ponta do “iceberg”, mas acho que ao longo dos últimos anos tem vindo a ser cada vez maior a capacidade de os conseguirmos destapar. Nos casos mais jovens ainda está muito encoberto”, adiantou.
É um facto que ainda há muitos casos de violência “escondida”. No entanto, revela que “apesar de ainda haver muito trabalho a fazer neste campo, quando olho para o passado (15/20 anos), as coisas estão bem melhores”. “As pessoas estão mais informadas e há mais programas de intervenção, o que pode ajudar a que o pedido de ajuda surja com mais facilidade”, acrescentou.
“O medo”
Muitas vezes questiona-se o porquê de as vítimas de violência doméstica alimentarem as agressões durante um grande período, chegando mesmo a dezenas de anos ou até uma vida. “O medo. Ainda há muito medo por parte das mulheres. Há pessoas que vivem situações graves e com ameaças muito sérias, as o medo de que algo possa acontecer a si própria, como ser morta, ou aos seus filhos e família e, isso, é muitas das vezes impeditivo de pedir ajuda”, vincou.
Medo de perder os filhos. Medo de não ter capacidade económica para sobreviver sozinha. Medo de não ter apoio da família e da sociedade. Perder o emprego. Não conseguir pagar uma casa ou até mesmo o medo de não conseguir superar e encontrar outro amor, de ficar sozinho, “principalmente as jovens adolescentes”. “São muitos os receios que levam as vítimas a não conseguirem libertar-se do relacionamento”, refletiu Natália Cardoso, explanando um problema “sério e atual”: a habitação social.
Segundo a gestora de Gabinete da APAV de Coimbra, “há cada vez mais pessoas com dificuldades em sair dos relacionamentos, porque, por exemplo, não têm como pagar uma casa. É verdade que para as vítimas de violência doméstica existem casas de abrigo. No entanto, as estruturas providenciam o abrigo em situações de perigo, não para pessoas com carência social”, esclareceu.
“O amor é cego”
Afirmar que o “amor é cego”, expressão portuguesa bem conhecida e utilizada, nunca fez tanto sentido nesta temática da violência doméstica. Por vezes, acreditar na paixão, no amor e numa relação consegue ser superior a uma estalada. Uma flor ou uma caixa de bombons consegue ser superior a uma palavra agressiva ou uma ameaça. A esperança de um momento feliz e de que tudo pode ser diferente é superior à coragem de deixar a pessoa em quem investiram tempo e até mesmo uma vida.
“O facto de existir violência não significa que a vítima não goste do agressor, até porque não estão o ano inteiro a ser violentos, pois há muitos momentos gratificantes e que são vividos em felicidade e isso faz com que a vítima veja mais as coisas positivas do que o que correu mal”, salientou.
Vivemos numa sociedade em que os ciúmes e o controlo são encarados como “provas de amor”. “Por vezes, estes gestos são vistos como um sinal de amor e culturalmente somos ensinados a desvalorizar e a normalizar estas situações, que só quando começam a ser um incómodo é que as encaramos como um problema”, reforçou, ao vincar que “é importante que as vítimas reconheçam os sinais de violência para que tenham a coragem de sair dela antes que se torne em algo grave”.
Casos que marcam
São vários os voluntários e estagiários que integram a APAV e que apoiam este trabalho diário. “Sem essas pessoas seria mais difícil lidar com estas histórias tão marcantes que nos chegam todos os dias. Trabalhar com situações de violência e de crime não é fácil, exige que tenhamos uma higiene mental muito rigorosa e estarmos muito atentos a nós próprios, às nossas emoções e o impacto que possam estar a ter em nós”, revelou Natália Cardoso.
Uns casos mais graves que outros, mas todos acabam por marcar de alguma forma quem ajuda e abraça estes casos com a esperança de serem ultrapassados, sendo as situações que abalam mais “aquelas em que a violência é muito grave e há risco de vida para a pessoa”.
“Quando recebemos um caso com esta dimensão deixa-nos todos muito mais preocupados, pois nem sempre a vítima aceita sair da situação. Felizmente, dos casos que têm passado por nós não me recordo de nenhum que tenha levado à morte”, partilhou.
Natália Cardoso recorda um momento, “antes de a violência doméstica ser um crime público”, em que a vítima recorreu “várias vezes ao nosso serviço, inclusive a pedido de organismos que estavam no terreno, mas que acabava por desistir do processo-crime e voltar para o agressor”. “Quando passou a ser um crime público, o agressor foi preso. No entanto, numa saída precária acabou por matar a ex-mulher e por se suicidar. Vi a notícia no jornal e reconheci o caso, ela tinha sido nossa utente há muitos anos”, desabafou ao sublinhar que “as vítimas acabam por viver em sobressalto e em insegurança com medo que algo possa acontecer”.
A APAV
A APAV é uma instituição, criada em 1990, em Lisboa, que tem como objetivo promover e contribuir para a informação, proteção e apoio aos cidadãos vítimas de infrações penais. É uma organização sem fins lucrativos e de voluntariado, que apoia, de forma individualizada, qualificada e humanizada, vítimas de crimes, através da prestação de serviços gratuitos e confidenciais. Para tal, a associação promove a proteção e o apoio a vítimas de infrações penais, em particular às mais carenciadas, através da informação, do atendimento personalizado e encaminhamento, do apoio moral, social, jurídico, psicológico e económico.
O retrato
Os últimos dados divulgados, em 2022, pela APAV revelam que a associação apoiou em 2021 cerca de 28 mulheres e raparigas por dia, vítimas de crimes como violência doméstica, difamação e perseguição. O último Relatório de Estatísticas sobre Violência Doméstica e Vítimas no Feminino registou 19.846 crimes de violência doméstica (2021). A APAV atendeu naquele ano 9.275 vítimas de violência doméstica (82,3% do sexo feminino e 15,5% do masculino), cerca de 45% das quais tinha entre 26 e 55 anos. Os agressores foram maioritariamente do sexo masculino (67%) e “em 55% dos casos a relação entre vítima e o agressor era de intimidade (22,1% entre cônjuges, 12,1% companheiros, 10,3% ex-companheiros, 4,3% ex-namorados, 4,4% ex-cônjuges e 2,1% entre namorados)”. As estatísticas mostraram uma prevalência da vitimação continuada (58%), sendo que em 28% dos casos a vítima recorreu ao apoio da APAV entre dois e seis anos após o início das agressões.