Vivo e não vivo, será que vivo?
Tudo se constrói e destroca nesta interrogação,
À qual tentei responder ao longo da vida,
Uma mistura explosiva semeada de amizades, malquerenças,
Forjada em causas e nas causas devoção.
De que me valeu saber que andava por cá a expiar,
Sofrimento, amor, saber ser e saber estar,
Tempos debuxados na exaltação ou no desespero,
Algures pintados a fogo num quadro vermelho.
Deambulei perdido p´las arribas junto ao encolerizado mar,
P´las matas densas de amedrontar,
Apenas penetradas p´la miragem do Sol poente,
Tropeçando aqui, escorregando mais à frente
Foram muitos anos a caminhar,
Ver as filhas crescer e logo desaparecer,
P´rá vida que tinha de conquistar,
Por entre abrolhos, ventos a assoprar,
Fragas insondáveis para escalar.
Os anos foram passando, neste mundo impenetrável,
Que dispersa ódios, guerras, montanhas de aculturados, instável,
Num movimento que não se move,
E assim se morre.
A minha vida foi o que foi entre o longe e a miragem,
No meu fim estará estampada outra paisagem,
Arquitectada na contingência de melhor vivência,
Que exija narrativa, memórias, para que não se repita a biografia.
Termino como comecei:
Vivo e não vivo, será que vivo?