Gastronomia // A XXIII edição da feira dedicada à iguaria de Ançã, em Cantanhede, reúne uma dúzia de produtores artesanais. Entre o “cafezinho de borra” e a mística da dupla cozedura, a vila de Ançã mostra por que razão o seu bolo foi semifinalista das 7 Maravilhas Doces de Portugal em 2019.
É no emblemático Terreiro do Paço, junto à igreja, na histórica vila de Ançã, no concelho de Cantanhede, que a tradição se renova anualmente. Domingo todos os caminhos vão dar até aqui para mais uma edição da Feira do Bolo de Ançã. Entre as 10h00 e as 20h00, o espaço torna-se no epicentro de uma tradição que, nas palavras de Cláudio Cardoso, presidente da Junta de Freguesia de Ançã, é a “jóia da coroa” da região.
“O Bolo de Ançã é um pilar identitário. Costumamos dizer que é o nosso património gastronómico, aquele que nos faz crescer água na boca”, explica o autarca. Para o presidente, o evento não é apenas uma feira, mas a celebração de uma matriz que define o povo local. “Não é só o património arquitetónico e nem o natural, este património gastronómico faz parte da nossa essência”, realça.
Feira com bolo confecionado ao vivo
Entre sabores únicos, aromas diferente, como o cheiro do açúcar tostado e da lenha a arder em fornos próprios, e o saber de quem sabe, a XXIII Feira do Bolo de Ançã chega para manter tradição e abrir o apetite dos apreciadores desta iguaria, assim como proporcionar um dia completo de convívio e animação para todas as idades.
A edição deste ano promete trazer um programa robusto onde ninguém vai ficar sem comer o famoso bolo de Ançã.
Cláudio Cardoso adianta ao “O Despertar” que o certame vai contar com uma dúzia de boleiras e boleiros, todos residentes na vila, garantindo a autenticidade do produto. “Este ano temos 12 produtores e é dos anos que temos mais”, revela o presidente, notando que o interesse pelo evento tem crescido, atraindo visitantes de paragens distantes.
O programa é vasto e pensado para as famílias. Enquanto os adultos exploram a feira de artesanato ou as exposições, os mais novos têm à disposição insufláveis e ateliers. A animação de rua é constante. A abertura da feira acontece às 10h00 com os sons tradicionais dos gaiteiros, logo de seguida, às 10h30, há visitas guiadas para quem quiser conhecer a vila de outra perspetiva, inclusive a cavalo a partir das 14h30, ambas são gratuitas. Durante a tarde a animação será permanente com os Gaiteiros a percorrerem as ruas de Ançã, e o Anços Brass Band, o Quarteto Tabueira e o Grupo de Pauliteiros de Vila Nova de Anços a juntarem-se à festa.
O ponto alto do certame acontece ao final da tarde. Por volta das 18h30 há a prova pública. “Oferecemos o bolo a todos os presentes, acompanhado com um cafezinho de borra ou uma jeropigazinha”, conta o presidente, realçando que o bolo de Ançã “vai bem com tudo”, desde o chouriço, a alheira, barrado com arroz doce ou até mesmo com sardinha.
Características únicas do bolo
Diferente da maioria da doçaria nacional, o Bolo de Ançã não tem raízes nos conventos. É um “bolo do povo”, nascido de mãos calejadas que aproveitavam a abundância de cereais e ovos da região. “A origem perde-se na história. É um bolo de confeção simples, mas de execução complexa”, explica Cláudio Cardoso.
O grande diferencial reside na técnica: o bolo vai duas vezes ao forno. “Não é uma única cozedura. O bolo entra, chega a um determinado ponto, e as boleiras tiram-no cá para fora”, descreve o autarca. É neste momento crucial que a mestria se revela. Com o bolo quente, fazem-se golpes precisos na massa que lhe conferem o aspeto visual único: a “crista” de um lado e o “rendilhado” do outro.
“Muitos olhos também comem. Podia levar só uma cozedura e o sabor seria o mesmo, mas o capricho das nossas gentes obriga a este trabalho extra para que o bolo fique também atrativo e único”, sublinha.
Essa dedicação levou o Bolo de Ançã a ser semifinalista das 7 Maravilhas Doces de Portugal, em 2019, batendo centenas de candidatos com maior escala industrial. Um motivo de “orgulho” para a vila de Ançã e para todos aqueles que vivem com grande paixão e dedicação na confeção do produto.
Além do famoso Bolo de Ançã, o mais conhecido e tradicional, Cláudio Cardoso revelou que existe também o Bolo Fino, mais rico em ovos e típico da Páscoa que só se faz nesta época, e o Bolo de Cornos, uma versão mais rústica, sem ovos, marcada pelo sabor a canela e limão. Porém, qualquer um destes bolos vai estar presente na XXIII edição da Feira.
O segredo está na delicadeza das mãos
Manter esta tradição viva é um ato de resistência. Todas as boleiras presentes na feira utilizam ainda o forno a lenha e processos manuais. “Isto não é pastelaria de loja”, reforça o presidente. O trabalho é duro: exige passar a noite a amassar e acordar às 4h00 da manhã para preparar o forno, cuja temperatura depende do tempo e da qualidade da lenha.
Questionado sobre se existe um segredo para o Bolo de Ançã, a resposta do presidente é peremtória. “Não existe segredo, o segredo aqui é o saber ancestral de cada boleira. É saber a temperatura certa da massa, as voltas certas que se tem de dar à massa e saber a temperatura certa do forno. Mas acima de tudo isso é o amor que elas põem em cada bolo”, destaca.
“Ser boleiro ou boleira exige muito sacrifício”, admite Cláudio Cardoso, que vê nos jovens a preocupação de terem um emprego das 8h00 às 17h00. No entanto, há sinais de esperança. Entre os vários produtores, surgem agora rostos mais jovens, na casa dos 40 anos, que decidiram abraçar esta arte como profissão. “Estamos seguros por enquanto com a continuidade da profissão”.
Com um preço médio de quatro euros por uma unidade de cerca de 600 gramas, o autarca considera um valor baixo face ao trabalho envolvido.
O Bolo de Ançã é, no fim de contas, um convite à amizade. “Não é um bolo egoísta como um pastel de pastelaria que se come sozinho. Pela sua dimensão, convida à partilha e reunião”, conclui o presidente, convidando todos a subirem ao Terreiro do Paço para provar o “amor” que as boleiras colocam em cada pedaço de massa.
Cristiana Dias
»» [Reportagem da edição impressa no “O Despertar” de 15/05/2026]