9 de Fevereiro de 2026 | Coimbra
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Percebes: entre a tradição e o perigo

5 de Setembro 2025

Cabo Mondego. A maré começa a vazar com a manhã ainda a romper. Os primeiros raios de sol iluminam as falésias escarpadas do Cabo Mondego, e os sons do oceano confundem-se com os gritos das gaivotas. Ao longe, Gonçalo Magalhães Magalhães (50 anos) caminha em direcção às rochas, com fato de neoprene colado ao corpo, botas grossas e sacos de rede às costas. Vai à apanha de percebes — um dos mariscos mais valorizados da costa portuguesa.

Os percebes não se apanham em mar calmo, nem em lugares fáceis. Crescem agarrados às rochas mais tocadas pelas ondas, onde o mar bate com fúria e constância. São um produto selvagem, que exige do apanhador coragem, conhecimento do mar e respeito pelos seus caprichos. O que para muitos é apenas um petisco de luxo, para outros é um modo de vida — arriscado, exigente e, muitas vezes, invisível.

A apanha de percebes é, há décadas, uma actividade exercida, sobretudo, por homens da costa, passada de geração em geração. A sua prática, no entanto, não é simples nem segura. Exige uma leitura minuciosa da maré, resistência física e uma espécie de sexto sentido marinho, que só se desenvolve com o tempo — e com muitos sustos. “As pedras são irregulares, têm muito limo. Felizmente nunca tive problemas, sou cuidadoso, não arrisco demasiado”, esclarece Gonçalo Magalhães Magalhães (apanhador licenciado), acrescentando: “comecei a apanhar percebes há 20 anos. Por curiosidade, fui vendo como faziam os mariscadores”.

A actividade é regulada e cada mariscador licenciado só pode apanhar 20 kg por dia, fora do período de defeso, de 15 de setembro a 15 de novembro.

No entanto, as histórias de excesso de apanha, de mariscadores ilegais e de confronto com as autoridades são frequentes. Gonçalo Magalhães refere que “há mariscadores que vêm de Espanha e colhem indiscriminadamente grandes quantidades”.

O percebe: um luxo à mesa, um risco na apanha

O percebe (Pollicipes pollicipes) é um crustáceo de aparência peculiar, formado por uma “unha” carnuda protegida por uma espécie de escudo e um pedúnculo rugoso que se agarra firmemente às rochas. Vive em zonas de forte rebentação, onde a água oxigenada e os nutrientes são abundantes — e onde o acesso humano é extremamente difícil. “É uma profissão perigosa, mas eu adoro. Só o contacto como mar… respirar e beber um pirolito é bom. A água do mar está cheia de minerais que nos fazem bem”, afirma Gonçalo Magalhães.

À mesa, o percebe é considerado uma iguaria. Pode atingir preços entre os 30 e os 100 euros por quilo. A sua valorização no mercado nacional e internacional tornou-o num recurso económico importante para comunidades piscatórias, mas também num alvo de exploração desenfreada. Gonçalo Magalhães explica que: “os mais valiosos são os grossos e negros”.

Há quem pense que é dinheiro fácil, mas quem conhece a prática sabe que é preciso arriscar a vida.

Perigos reais, estatísticas ignoradas

Apesar de ser uma actividade tradicional, a apanha de percebes não é oficialmente reconhecida como profissão independente em muitos registos oficiais. Isto significa que os apanhadores, mesmo os licenciados, muitas vezes trabalham sem protecção social adequada, seguro ou apoio em caso de acidente.

E os acidentes são uma realidade constante. É frequente o mar leva apanhadores. Escorregam, são surpreendidos por vagas, ou arrastados por correntes. Muitos corpos nunca são recuperados. No entanto, por serem trabalhadores informais ou registados como pescadores genéricos, não entram em estatísticas específicas.

Regulamentação e fiscalização: uma corrida contra o tempo

Os apanhadores licenciados têm quotas diárias e regras específicas: apenas podem apanhar entre determinadas horas, em zonas autorizadas e com tamanhos mínimos obrigatórios.

A fiscalização, porém, nem sempre consegue acompanhar a realidade no terreno. Há escassez de meios humanos e materiais para controlar eficazmente toda a extensão da costa, o que abre caminho à apanha ilegal e à venda clandestina.

Alguns apanhadores legais revoltam-se quando apanhadores ilegais apanham tudo — grande, pequeno — e vendem por metade do preço, sem controlo sanitário. “Isso põe em risco a nossa sobrevivência e o futuro do percebe”, refere Gonçalo Magalhães, preocupado.

 

Impacto ambiental: quando a tradição ameaça o ecossistema

A sobre-exploração do percebe é uma das principais preocupações ambientais nas zonas costeiras onde a sua apanha é prática comum. A pressão sobre os bancos naturais tem levado à rarefação do crustáceo em algumas áreas, com efeitos que vão além da sua própria espécie.

“O percebe é uma peça fundamental no equilíbrio ecológico das zonas rochosas intertidais”, explica Dra. Helena Matos, bióloga marinha do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA). “Ao removê-lo em excesso, alteramos toda a cadeia alimentar e comprometemos a biodiversidade daquela faixa costeira”, explica.

Além disso, a forma como é feita a apanha — com ferramentas que arrancam grupos inteiros do substrato — pode danificar as próprias rochas e deixar marcas profundas nos habitats. Embora os apanhadores licenciados sejam instruídos quanto às boas práticas, os ilegais muitas vezes não seguem qualquer critério sustentável. Gonçalo Magalhães, prefere não utilizar ferramentas, como a arrilhada, que danificam o próprio percebe.

Em áreas muito exploradas, pode demorar até cinco ou seis anos para que a população se restabeleça.  Gonçalo Magalhães, no entanto, espanta-se com o vê: “a natureza é incrível, também se regenera muito. Apesar do assoreamento (muita areia), mais calor – e a falta de invernos rigorosos, continuam a reproduzir-se. É incrível. Foi isso que me seduziu nesta prática. Eu ando sobre tapetes de percebes. Quando comecei, a actividade de pescador era muito mal vista, havia muito preconceito, hoje já não é tanto assim, felizmente. Não teria escolhido outra profissão”.

Mercado negro: percebes sem rosto nem origem

Apesar da regulamentação apertada, o mercado paralelo de percebes continua a prosperar. Muitos são apanhados de forma ilegal — fora das épocas permitidas, por pessoas não licenciadas, ou em áreas protegidas — e vendidos a restaurantes ou intermediários sem passar por qualquer tipo de controlo.

Nos meses de maior procura, como no Verão ou no Natal, há quem percorra centenas de quilómetros para obter percebes ilegais a preço mais baixo, alimentando uma cadeia de exploração e pondo em risco tanto os recursos naturais como a saúde pública. Sem controlo sanitário, é impossível garantir que os percebes vendidos clandestinamente não estejam contaminados por toxinas ou agentes patogénicos.

Entre o sustento e a conservação

A relação entre os apanhadores e o percebe não é apenas económica. Trata-se de uma ligação cultural e emocional. É o que fizeram os pais, os avós, o que se aprende desde criança ao ver os mais velhos a enfrentar o mar. Mas esse vínculo está agora sob pressão: entre a necessidade de ganhar a vida e a obrigação de proteger o recurso. Cada vez há menos percebes. “Muita poluição, plásticos. Só quem mergulha e faz apneia se apercebe da quantidade de plásticos de vários tamanhos que estão perto da costa. E tudo interfere com o ecossistema”, reflete Gonçalo Magalhães, acrescentando: “a Figueira é ingrata para a prática. Há nortadas, sedimentos na água.  Às vezes mergulho em apneia: ando como os surfistas; a boiar na água. Agarro-me aos percebes, que assim se deixam apanhar bem. Depois é só fazer força certa no sítio certo”.

Há quem defenda a criação de cooperativas locais, que possam gerir de forma comunitária a apanha, definir períodos de descanso ecológico, e negociar preços mínimos com compradores. Modelos semelhantes já funcionam em zonas costeiras da Galiza ou do País Basco, com relativo sucesso.

Educação, fiscalização e futuro

Nos últimos anos, têm surgido iniciativas de sensibilização ambiental junto das comunidades piscatórias, escolas e autarquias. Oficinas sobre biodiversidade marinha, formação em boas práticas e campanhas contra a apanha ilegal têm tido algum impacto, mas ainda insuficiente.

Por outro lado, a fiscalização, embora intensificada em épocas críticas, continua limitada. A costa portuguesa tem centenas de quilómetros e muitos dos pontos de apanha são de difícil acesso, exigindo recursos humanos e logísticos que nem sempre existem.

O percebe é um recurso valioso, mas frágil. Se for bem gerido, pode continuar a sustentar famílias durante muitas gerações. Mas se continuar a ser explorado de forma predatória, pode desaparecer em poucos anos.

 

Ana Rajado


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