Há aniversários que se celebram com bolo, outros com nostalgia… o El País celebra 50 anos e eu celebro, com ele, quase três décadas de leitura fiel.
O El País nasceu a 4 de maio de 1976, quando Espanha se despedia da ditadura e ensaiava, ainda com cautela, uma nova liberdade. José Ortega Spottorno, fundador e primeiro diretor, queria um “jornal para pensar”. Um jornal liberal, independente, atento à sociedade e ao futuro.
Cinquenta anos depois, o El País continua jovem. Prova disso são os números impressionantes: 430 mil subscritores online e 27 milhões de seguidores nas redes sociais. Não faço parte das estatísticas digitais, confesso. Continuo a acreditar que o prazer da leitura passa pelo papel, pela caneta e pela tesoura.
Comecei a ler o El País (quase) diariamente em 1998. O vício nasceu em Barcelona e ganhou maturidade em Madrid. Comprava com especial alegria a edição de domingo, disponível de madrugada nos quiosques da Puerta del Sol. Eu gostava de “salir de fiesta” — ou, em bom português, de “moinar” — e a última coisa que fazia antes de voltar para casa era comprar o jornal. Que saudades desses quiosques abertos de madrugada no centro de Madrid.
Quando regressei a Portugal e fui viver para Lisboa, fiquei feliz por descobrir que podia continuar a comprar o El País. A edição de domingo, com o El País Semanal, era um ritual. Sempre que os meus amigos de Coimbra reclamavam por eu não voltar, respondia com um sorriso: “Quero viver numa cidade onde posso comprar o El País do dia.” Houve tempos estranhos — e maravilhosos — em que um jornal influenciava as minhas decisões de vida.
Em 2020, tudo mudou. O El País desapareceu das bancas portuguesas. E sim, já ouvi a pergunta: “Porque é que não lê online?”. Não é a mesma coisa! O prazer de sublinhar, recortar e guardar palavras não vive bem num ecrã.
Hoje, sempre que vou a Espanha, compro o jornal e os amigos mais atentos trazem‑me o El País, mesmo sem eu pedir.
Ao longo de quase 30 anos, o El País foi essencial na minha formação como pessoa e como profissional. Deu‑me autores que moram nas prateleiras do meu coração: Maruja Torres, Juan José Millás, Almudena Grandes, Javier Marías.
Há jornais que nos acompanham pela vida fora…