O que acontece quando qualidades como empatia e sensibilidade, geralmente atribuídas de forma abstrata e superficial ao feminino, se somam a outras como liderança, resiliência, coragem cívica e ação política, e acabam por se traduzir num desporto de contacto sobre patins?
É possível encontrar a resposta junto das Rocket Dolls Roller Derby Coimbra, equipa local fundada em 2014 e dedicada a esta prática desportiva. O projeto começou pequeno: alguns patins, treinos improvisados e um grupo reduzido de pessoas dispostas a aprender juntas. Desenvolveu-se como um espaço de acolhimento para todos os que procuram comunhão através do desporto.
À primeira vista, o roller derby parece apenas velocidade e choque: corpos que se cruzam, quedas, bloqueios e ultrapassagens rápidas. Mas, num treino ou num jogo, o que se destaca não é só a intensidade física. É a forma como as jogadoras se organizam, comunicam e se apoiam.
Ao assistir a uma partida amigável que as reuniu com a equipa Lisboa Roller Derby Troopers e, dias depois, a um treino no Sport Clube Conimbricense, o contacto físico intenso chamava a atenção, mas o que mais sobressaía era o grupo unido que as praticantes formavam. Num espaço onde diferentes corpos, experiências e histórias se encontram, o desporto funciona também como um lugar para aprender e construir algo em conjunto.
O roller derby, afinal, não é apenas uma modalidade, mas uma prática social onde ideias que frequentemente associamos ao Dia Internacional da Mulher, celebrado a 8 de Março, ou a outras datas com origens políticas, como o Dia Internacional do Orgulho LGBTQI+, assinalado a 28 de Junho — igualdade, representação e participação — encontram espaço.
Modalidade feita de todos
O roller derby moderno organiza-se, em grande parte, através da Women’s Flat Track Derby Association (WFTDA), entidade internacional que afirma ter como missão governar, promover o roller derby e revolucionar o papel das mulheres no desporto através da voz coletiva das ligas. Coletividade, responsabilidade e organização comunitária não são apenas slogans institucionais: fazem parte do funcionamento quotidiano das equipas.
“Eu andava à procura de coisas para fazer na cidade, para perceber em que comunidade me podia inserir”, recorda Bia Carneiro, treinadora, jogadora da equipa e professora assistente convidada da Universidade de Coimbra. Quando encontrou uma notícia sobre uma nova equipa de roller derby em Coimbra, percebeu imediatamente o potencial.
“Não era uma comunidade já estabelecida. Estava a ser construída e eu podia participar nessa construção”, conta ela, que tem como derby name — a alcunha usada nos jogos — Killah B. A construção do roller derby passa também pela identidade, e cada atleta escolhe um derby name, uma tradição herdada da cultura mais punk e performativa do desporto.
Hoje, a equipa treina no Pavilhão da Palmeira, no Sport Clube Conimbricense. O espaço não reúne condições para organizar jogos oficiais, pela sua dimensão, mas voltar a trazer competições para Coimbra e, idealmente, conseguir uma pista pública permanente para modalidades de rodas são objetivos das Rocket Dolls.
Cabem diferentes corpos
Para quem vê pela primeira vez, o roller derby parece caótico: patins, contacto físico, quedas e acelerações súbitas mas, na realidade, o jogo é altamente estruturado. Uma jammer tenta ultrapassar o grupo principal — o pack — para marcar pontos. As blockers formam a parede defensiva. A pivô coordena estratégias e pode assumir a função de jammer em certos momentos.
A força aqui não é apenas física. É também leitura de jogo, comunicação, estratégia e confiança entre colegas. E há outra característica que surge repetidamente nas conversas com as jogadoras: espaço para diferentes tipos de corpo.
“Uma pessoa de qualquer altura, de qualquer peso, de qualquer género, pode praticar”, explica Betina Bernardi, a Evagore, que chegou ao desporto sem experiência prévia de patinagem. Esse foi um dos fatores que mais a surpreendeu. “Quando fui ao primeiro treino, toda a gente foi muito recetiva. Nunca tinha patinado, mas senti-me logo à vontade”.
A fortaleza da comunidade
Para Luana Rieger, a Lunar Chaos, o que a fez voltar depois do primeiro treino foi simples: “O ambiente. Foi muito divertido e muito acolhedor”. Ela admite que nunca se sentiu particularmente integrada em desportos tradicionais. “Neste senti que podia dar-me bem”.
Outras jogadoras descrevem esse mesmo entendimento. Condicionamento físico, claro — mas também algo menos quantificável: saúde mental, pertença e amizade. “Eu era uma pessoa que ficava muito em casa”, conta Evagore. “Entrar num grupo assim ajudou-me a aumentar o círculo social e a sair do sedentarismo”.
A investigação sobre roller derby confirma essa perceção. Estudos qualitativos descrevem um forte senso de comunidade entre praticantes — uma combinação de pertença, apoio mútuo e identidade coletiva que sustenta a continuidade no desporto.
Um gesto político
Há também um lado político assumido. “O roller derby é um desporto declaradamente feminista e politizado”, explica Bia Carneiro.
A capitã Marlene Silva, a Jersey Grrrl, concorda: “A nossa equipa é um espaço seguro… Uma modalidade muito inclusiva. Vários tipos de pessoas têm um papel a desempenhar. Atrai, sobretudo, quem foi marginalizado pela sociedade”.
“Sempre atraiu esse tipo de pessoa, sejam os excluídos pela classe social, pela cor de pele, pela sexualidade ou pela nacionalidade. É um movimento que, sinto, também acompanha as mudanças no país”, completa Killah B.
A ideia não surge apenas de posicionamentos institucionais, mas da própria experiência do jogo. “Criar um espaço onde mulheres e pessoas que se identificam no feminino podem competir num desporto de contacto já é um gesto político”, completa.
Sempre unidas
Acolhida é talvez seja a palavra que melhor resume o espírito das Rocket Dolls. Não é apenas sobre desporto. É sobre representação — ver mulheres fortes, competitivas, diversas. E, acima de tudo, há tempo: tempo para aprender, tempo para errar, tempo para pertencer.
Muitas mensagens são simbólicas. Mas, em Coimbra, às terças e quintas-feiras à noite, a partir das 19h30, e em muitos outros dias de treinos e jogos, elas genuinamente lutam sobre patins.
O que é o roller derby?
Marcelo Domingues
»» [Reportagem da edição impressa no “O Despertar” de 06/03/2026]