SOCIEDADE // O programa Proinfância está, atualmente, a acompanhar 36 famílias em situação de vulnerabilidade, em Coimbra. Desde a sua implementação, em 2024, o projeto tem apoiado cada vez mais crianças e jovens, combatendo o isolamento social e melhorando a sua integração na sociedade.
Garantir que a falta de recursos não limita as oportunidades de futuro: é esse o principal objetivo do Proinfância, um programa da Fundação La Caixa que tem vindo a ser implementado em vários municípios portugueses. Em Coimbra, o projeto iniciou-se em 2024, após a União das Freguesias de Coimbra ter sido identificada como a freguesia onde este poderia ser implementado. Atualmente, são acompanhadas 36 famílias em situação de vulnerabilidade, que usufruem de apoio educativo, atividades de lazer e tempos livres e acompanhamento psicossocial.
“A ideia é quebrar um bocadinho o ciclo da vulnerabilidade, trabalhar com famílias e crianças que estão nessa situação e proporcionar-lhes bem-estar, ajudando-as a ultrapassar as dificuldades que têm na sua vida diária e na sua interação familiar”, explica Paula Duarte, coordenadora do Instituto de Apoio à Criança (IAC) – Pólo de Coimbra, em declarações ao “O Despertar”.
O trabalho é feito em rede, unindo várias instituições que estão sediadas na freguesia. “Cada instituição tem a sua especificidade e a sua valência, assim como as próprias famílias e crianças têm diferentes especificidades e problemas que têm de ser respondidos. E, portanto, o objetivo é juntar instituições que possam dar resposta a estas problemáticas que nos chegam”, acrescenta a responsável.
Nesse sentido, esta rede é constituída pelo IAC, – a entidade coordenadora do programa -, que recebe os casos, avalia as necessidades sentidas pelas famílias e, posteriormente, faz o encaminhamento devido para as diferentes instituições. São elas: a Assistência Médica Internacional (AMI), a Cáritas Diocesana de Coimbra, a Associação Integrar, a ADAV – Associação de Defesa e Apoio da Vida e o Centro de Estudos Sociais.
Apoio a vários níveis
Além de coordenar o projeto, o IAC também assume um papel importante no que diz respeito ao apoio escolar prestado a estas crianças e jovens. “Temos, maioritariamente, famílias imigrantes que têm alguma dificuldade com a língua e precisam de algum apoio escolar”, adianta Paula Duarte. Não obstante, o instituto presta também, à semelhança das outras instituições, “apoio psicológico tanto a famílias como às crianças”.
É este trabalho de acompanhamento sistemático levado a cabo pelas entidades que integram o Proinfância que a responsável considera uma mais-valia para os beneficiários do programa. “Este projeto envolve as instituições que trabalham no terreno, e as instituições particulares de solidariedade social, mas não só”, atenta Paula Duarte. “As instituições públicas que trabalham com crianças e jovens também nos ajudam bastante a identificar as situações, a trabalhar e a criar canais facilitadores para a resolução dos problemas”, ressalva ainda.
Segundo a coordenadora do IAC no pólo de Coimbra, o Proinfância tem ajudado a mudar a vida de dezenas de pessoas, sobretudo, de famílias, maioritariamente, angolanas e brasileiras que estão a viver em Portugal. “São famílias que, muitas delas, estão a trabalhar no nosso país e são, sobretudo, famílias monoparentais. Portanto, não têm raíz aqui”, expõe. Desta forma, o projeto representa, para muitas delas, a única rede de suporte com a qual podem contar.
O programa presta apoio aos mais diversos níveis, nomeadamente, no combate ao isolamento social. “Dinamizamos algumas atividades, essencialmente com crianças e jovens, em termos de planificação das férias e de acampamentos. Isto acaba por desenvolver o sentimento de pertença nas crianças que estão envolvidas neste projeto”, revela Paula Duarte.
Para além disso, o facto de os beneficiários do programa terem contacto uns com os outros possibilita que estes deixem de se sentir sozinhos, bem como consigam uma melhor integração social e rendimento escolar. “Quando nos chegam, notamos que estas famílias têm a autoestima muito em baixo e, aos poucos e poucos, temos vindo a perceber que elas têm sido empoderadas e a autoestima começa a melhorar”, sublinha.
Situações de vulnerabilidade têm aumentado
Ver os direitos das crianças serem respeitados e sensibilizar a comunidade para essa questão sempre foram as principais preocupações do IAC. Agora, na coordenação do programa Proinfância, o instituto continua o trabalho que tem realizado desde a sua génese com uma nova certeza: a comunidade está cada vez mais consciente de que há milhares de famílias, no país, em situação de vulnerabilidade. “A pandemia veio alertar-nos muito para estas questões (…) da pobreza e da exclusão social das nossas crianças e dos nossos jovens”, admite Paula Duarte.
A responsável salienta que os casos de vulnerabilidade têm estado a aumentar e, por isso, é responsabilidade de todos os cidadãos estarem “cada vez mais atentos, de forma a que consigamos colmatar estas questões e que as situações não comecem a escalar”. O Proinfância tem trabalhado para chegar ao maior número possível de crianças e jovens, mostrando-lhes que a condição social em que se encontram não tem de ser um fator determinante no seu futuro.
“Todos os dias fazemos esta consciencialização de que eles são muito mais do que estarem nesta situação e, portanto, vamos dando ferramentas para que, no futuro, eles possam ser adultos conscientes, empoderados e integrados na sociedade”, conclui Paula Duarte.
O programa Proinfância encontra-se implementado em 13 municípios portugueses: Almada, Amadora, Braga, Coimbra, Leiria, Lisboa, Loulé, Loures, Porto, Seixal, Vila Nova de Gaia, Funchal e Ponta Delgada. No total, o projeto acompanha 1.451 crianças e jovens, apoiando, assim, 977 famílias em situação de vulnerabilidade.
Cátia Barbosa
»» [Reportagem da edição impressa no “O Despertar” de 06/03/2026]