24 de Setembro de 2021 | Coimbra
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JOÃO PINHO

Opinar em tempo de quarentena

9 de Abril 2020

O direito à opinião confunde-se com o direito à liberdade de expressão. Um não pode conviver sem o outro: são dois direitos inalienáveis num estado democrático que se implicam mutuamente.

Em nenhuma circunstância, inclusive de emergência nacional como aquela que vivemos, estes direitos podem ser suspensos. Por isso tenho feito o bom uso dos mesmos para exercer livremente a minha opinião na rede social Facebook – de forma mais intensa do que o habitual, ocupando uma parte do meu dia com a colocação de alguns textos. Uns fumam, outros bebem, alguns dormem, há aqueles que nada fazem e eu escrevo.

Tenho sempre bem presente, que a minha liberdade de opinar termina quando começa a do outro. Por isso é muito raro pessoalizar um assunto: os temas são lançados no mundo virtual de forma generalista, para abrir espaço à reflexão e crítica construtiva.

Mas nem sempre as coisas correm bem. É que neste tempo de quarentena, talvez devido aos condicionamentos que temos tido, algumas pessoas não leem bem o que escrevo, ou leem apenas parte e, numa penada assassina, assumem que a crítica é-lhes dirigida. Aconteceu este fenómeno com dois temas que coloquei em discussão: o teletrabalho, assumindo que para muitas pessoas foi a cereja no topo do bolo, pois pouco faziam no seu local de trabalho; e a disseminação de selfies em ambiente hospitalar pelos profissionais de saúde, que considerei pouco abonatória do exercício da sua profissão em tempo de emergência social.

Para duas pessoas, ambas do sexo feminino, por quem tinha até alguma estima foi uma bomba atómica. Despejaram sobre a minha opinião as suas frustrações, elevando-se à condição de mártires e alvo narcísico da minha crítica: uma, assinalava que até trabalhava mais com o teletrabalho; a outra, que eu não sabia o que era a pressão de um ambiente hospitalar. Em ambos os casos acabaram por me ofenderem diretamente, não só na minha idoneidade como pessoa, mas também como profissional. E aqui se revelaram as suas faces ocultas, tentando condicionar e manipular a minha opinião – coisa que jamais lhes faria se emitissem a sua, incapaz que seria de criticá-las como pessoas ou profissionais.

Este é um tempo difícil em que vivemos: a quarentena está a subir à cabeça das pessoas mais frágeis e vulneráveis, fazendo-as agir por impulso emocional e não de forma pensada e coerente. As atitudes ficam, como sempre, com quem as pratica.


  • Diretora: Zilda Monteiro

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