Tive o privilégio de contactar, durante alguns dias, com o jornal O Despertar antigo, na Biblioteca Municipal de Coimbra, a quando das minhas intensas pesquisas, para levar a bom porto a feitura do livro, Santa Cruz Um Café Com História.
Folheei o Jornal, com algumas páginas já amareladas pelo tempo. Tive oportunidade de «tatuar» com o tipo de papel utilizado, as suas características de organização, os modos de escrever, as noticias, e o relevo dado às mais importantes, as suas fotografias, os seus colaboradores primeiros.
O certo é que, nessas páginas centenárias, adquiri muitos dos dados de que necessitava, como por exemplo, os que diziam respeito à fundação do Café, à degradação da igreja de `S. João Baptista, transformada durante largo tempo em lugares de venda diversos, descaracterizadores do monumento. A polémica sobre a construção do Café que fez correr tinta na Cidade, teve sempre a participação activa de O Despertar.
Constatei que foi nas primeiras décadas do século XX que nasceu o nosso jornal aniversariante, bem como outros títulos foram dados a estampa.
Marca o seu berço editorial, o ano de 1917, mais precisamente o dia 2 de Março, de acordo com os dados compulsados. Conclui que tinha uma periodicidade bissemanal.
Assumia-se como um jornal «modesto». Tinha como colaboradores várias individualidades da Cidade e das mais diversas áreas do saber. O director era o Dr. José Pires de Matos Miguens. Quem o baptizou foi Esequiel Correia. Deu à estampa para lutar contra a miséria moral e material que grassava pela Cidade. Tinha como norma primordial a verdade e a correcção. Dizia-se independente, alheio às forças partidárias.
Era um jornal, notava-se pelas notícias, que li com atento, defensor dos interesses citadinos, defendidos com convicção e apego.
Em 3 de Novembro de 1934 a empresa passou para as mãos de João Rodrigues. O jornal, por motivos vários, estava quase em colapso fatal. Foi, posteriormente, António de Sousa que o impeliu a sobreviver. Foram anos de sacrifício inaudito e devoção extrema. Mesmo assim, manteve a dignidade anterior.
O Despertar teve sempre uma forte ligação aos futricas [Borges de Figueiredo define futrica como «designação escolar de quem não é estudante», ou seja, é como os estudantes da Universidade designam os que não o são. José Veloso lança a possibilidade de originar de «fitrica, filho de tricana», sem confirmação]. Defendia os Salatinas, os Pés-descalços, os Vacões, os Chibatas, os Ranho ao Nariz, com o mesmo enlevo e convicção. Sempre pelos deserdados.
O Despertar sempre foi um jornal de bem-querer, ternuras, carinho, por parte de muitas pessoas. Foram estes os lenitivos da sua subsistência centenária.
Lembro Manuel Bontempo que escreveu no jornal durante dezenas de anos. Até final, já bastante doente, nunca falhava com a sua escrita escorreita e limpa, em prosa ou verso. Era uma afeição e um amor inexplicável que só calha aos homens bons.
Lino Vinhal, foi também um dos grandes salvadores deste jornal, providencial, com afeição, dignidade, dedicação, competência. O estarmos aqui hoje a falar do Jornal, muito se deve a este homem.
Não posso esquecer a Zilda Monteiro, minha amiga do coração, que manteve o Jornal em funcionamento, quase solitária, como jornalista e directora. Era uma dilecta apaixonada pelo O Despertar e pelo trabalho que desenvolvia.
Certo dia, cruzei-me com a Zilda Monteiro e o Manuel Bontempo no Café Santa Cruz (o meu café de todos os dias, até ao dia em que me foi impossível deslocar até lá, por motivo de doença), e alguém teve a amabilidade de nos apresentar, penso que o Victor, gerente dessa instituição.
Pela conversa tida criou-se entre nós uma forte empatia. A Zilda perguntou-me se eu, quando pudesse, esporadicamente, podia escrever no O Despertar. Aceitei de bom grado a oferta. Comecei então fazer alguns artigos, sempre que podia. No entanto, em 28 de Outubro de 2016, comecei a colaborar semanalmente. Até hoje.
A Zilda saiu e veio a Lina Vinhal, como directora. A minha continuidade manteve-se. Sustento com ela a mesma amizade que tive com a Zilda, – uma amizade enorme e infinda. Por ser vontade mútua, porfiei a escrever no meu querido Jornal. Continuei a rabiscar com amor misterioso e estima.
Fui operado ao coração e, ainda em convalescença, os meus artigos continuavam a chegar à caixa do correio da Lina Vinhal (com a referencia ao c/ de Lina Vinhal), – é uma devoção sem explicação, quase uma necessidade de encontro.
Uma palavra sentida à Directora, a todos os funcionários e colaboradores do O Despertar
Parabéns meu companheiro de velhice. Muitos anos de vida