17 de Julho de 2026 | Coimbra
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Pedro Falcão

Medo(s)

17 de Julho 2026

O medo é um sentimento natural ao Homem e inerente à nossa mente. Não é uma realidade material ou concreta palpável. Tem a ver com estímulos que para nós são ameaçadores e, por isso, o medo transcende o nosso controlo e torna-se real, manifestando-se através de expressões físicas e alterações psicológicas. Os medos têm consequências muitas vezes graves que se manifestam a nível fisiológico, cognitivo, motivacional, afetivo, emocional e comportamental, sendo todo o nosso organismo afetado. Para eliminar muitos dos nossos medos, bastava que tomássemos consciência das causas que os provocam porque o medo nasce, sobretudo, como produto das nossas reações às coisas que nos cercam. Muitas vezes, o que nos provoca medo não existe realmente, sendo apenas um produto da nossa imaginação – o que alguns designam de medo irracional – e ter consciência disso, enfrentando o próprio medo, é a única forma de não nos sentirmos paralisados e limitados na nossa vida. É muito difícil, no entanto, cada um de nós libertar-se dos seus medos, que podem ter várias origens em diferentes circunstâncias, algumas delas passadas na infância e que vão determinar o comportamento adulto e condicionar as nossas reações perante as realidades e fragilidades do “nosso” mundo. Mas há também medos de coisas reais que nos podem colocar em perigo – medos racionais – e nesse sentido, enquanto algumas pessoas não sabem como enfrentar o seu medo outras aprendem a conviver com ele e encaram-no, não como uma coisa negativa, mas com um sentimento de autopreservação. O medo esteve sempre presente no processo evolutivo do Homem e contribuiu, em grande parte, para a sobrevivência da espécie desempenhando uma função adaptativa ao permitir evitar situações potencialmente perigosas e que põem em causa a integridade física ou o bem-estar. Por isso, o medo pode até ser vantajoso fazendo com que possamos estar mais atentos ao perigo e a ameaças: com medo, a nossa sensibilidade aumenta a um sinal de perigo. O maior problema é quando o medo degenera em doença – fobia – comprometendo as nossas relações sociais e causando transtornos psíquicos. O medo provoca ansiedade – tensão emocional – em que cada um teme antecipadamente o encontro com a situação ou o objeto que lhe causa medo; pode também conduzir a comportamentos de pânico, com consequentes alterações fisiológicas e psicológicas, que necessitam de tratamento, assim como a um elevado grau de stress perturbador ou mesmo depressão que merecem já uma atenção médica especializada. O medo desgasta, numa pessoa, a sua energia vital e diminui a atenção em muitas tarefas normais dia a dia.

Todos temos medos, mesmo os mais corajosos – a coragem não é a ausência de medo, mas a resistência e o seu controlo (Mark Twain) – e o importante é aprender a combatê-los e a usá-los a nosso favor. Podemos usar o medo a nosso proveito, prevenindo a exposição a situações reais de perigo e que nos podem afetar. Por isso, devemos evitar situações extremas, enfrentando o medo e interiorizando o modo de o ultrapassar, avaliando racionalmente a situação ou experiência vividas. O medo, com origem muitas vezes em experiências traumáticas passadas, está associado a uma história de vida, personalidade e vivências pessoais. Torna-se necessário ultrapassar a negatividade do medo, que nos impede de realizar coisas novas na nossa vida e de aceitar as oportunidades que vão surgindo e que permitiriam, quase sempre, a concretização dos nossos objetivos e sonhos. É por ter medo de encarar de frente as situações e medo de não sermos capazes de responder eficazmente às exigências que a realidade muitas vezes nos impõe, que perdemos essas oportunidades. Só combatendo consciente e firmemente e com vontade os nossos medos é que podemos assumir verdadeiramente o controlo e a responsabilidade da nossa vida e como referiu Charles Chaplin, “a vida é maravilhosa se não se tem medo dela”.


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