SOCIEDADE / Criado pela conimbricense Ana Carvalhal, o podcast “Drop-Off” distingue-se pelo seu caráter intimista e de storytelling. Em cada episódio, a jovem partilha desabafos sobre o seu dia-a-dia enquanto mãe de duas crianças.
Começou de forma descontraída, em 2023, quando a autora gravava episódios no banco do carro depois de deixar o filho na escola. Na altura, ainda em licença de maternidade, Ana Carvalhal procurava reencontrar-se, de alguma forma, com a sua formação base: comunicação e marketing. Consumidora assídua de podcasts, decidiu unir o útil ao agradável e, numa das muitas viagens de regresso a casa, arriscou carregar no “Rec” e gravar um dos seus muitos desabafos sobre a nova fase que estava a viver. De seguida, criou o “Drop-Off” e não tardou muito até conquistar os primeiros ouvintes.
“Tive uma adesão muito grande. Inicialmente dos meus amigos mais chegados e, mais tarde, através do passa-a-palavra, também de outras mulheres que tinham acabado de ser mães”, recorda Ana Carvalhal, em declarações ao “O Despertar”. Natural de Coimbra, a jovem trabalha, atualmente, como analista de dados a full-time [tempo inteiro], no entanto, vê no seu podcast uma espécie de escape onde aborda os mais diversos temas relacionados com a maternidade, entre eles, a introdução alimentar e o cansaço relacionado com as noites sem dormir.
“Acho que as coisas más da maternidade, à partida, não são assim tão faladas”, expõe a autora do “Drop-Off”. Nesse sentido, a partilha da sua realidade diária tem contribuído para que muitas mulheres se sintam menos sozinhas. “Mesmo quando eu digo que não durmo a noite toda, de alguma forma, vou criar empatia em todas as mães que também não dormem toda a noite”, afirma.
Do carro para os estúdios
Fazer o “Drop-Off” do filho na escola e, em seguida, começar o dia: foi desta dinâmica que nasceu aquele que viria a ser o nome do podcast. E se numa fase inicial este era gravado no carro, um ano depois, Ana Carvalhal criou um estúdio na sua garagem onde, além das habituais conversas consigo mesma, passou também a receber convidados. “Quis agregar valor ao projeto e, por isso, convidava mulheres que me inspiravam no meu dia-a-dia para dar o seu testemunho”, lembra.
Desde a mãe à professora de yoga, o podcast da jovem priorizou sempre acolher histórias de pessoas que “de alguma forma, iam completar a minha audiência”, acrescenta. No entanto, “tudo o que tem a ver com microfones, som e programas de gravação dá muito trabalho e, portanto, percebi que o caminho não era por aí”, confessa.
De regresso aos desabafos a caminho de casa, acabou por ser surpreendida pela “Ponto Coletivo”, uma agência criativa sediada em Coimbra que a desafiou a continuar a aventura num estúdio profissional. Nessa fase, não faltaram convidados. Entre eles: o chef Marco Almeida, do restaurante “O Palco”, em Coimbra, distinguido no Guia MICHELIN; ou a atriz conimbricense Ângela Costa, que, na altura, também já vivia os desafios da maternidade.
“Escolhia pessoas que, de alguma forma, eu conhecia e que sabia que tinham algo de diferente para dar aos outros”, refere Ana Carvalhal. Isto porque, de acordo com a jovem, os ouvintes do “Drop-Off” procuram no podcast algo com que se identifiquem. “Tenho uma amiga que me enviou uma mensagem a dizer ‘tu fazes-me crer que eu não sou um ET’”, adianta, entre risos, salientando que “na verdade, tudo o que se passa com uns, passa-se com os outros. Não somos diferentes de ninguém por pensar de determinada forma e, portanto, o podcast normaliza muito este lado da maternidade”, assegura.
“O produto que eu entrego é muito crú”
Apesar de gostar de falar com diferentes pessoas e conhecer as suas histórias, Ana Carvalhal não esconde que o seu formato favorito para gravar o podcast é no carro. “Por ser mais informal e mais rápido”, garante. Além disso, por conta dessa informalidade e rapidez, torna-se difícil fugir à realidade que a jovem procura manter no “Drop-Off”.
Sem usar qualquer tipo de produção, apenas coloca o jingle no início de cada episódio e, no final, despede-se de quem a está a ouvir. “Nunca faço cortes. Aliás, muitas vezes, nota-se que estou completamente perdida no meu raciocínio porque, lá está, são as noites sem dormir, os estímulos do trânsito,… Ou seja, o produto que eu entrego é muito crú”, frisa.
É essa vulnerabilidade que a autora transmite que tem conquistado cada vez mais público feminino, entre os 25 e os 35 anos. “Há também a situação de muitas mães que estão em pós-parto, então, acho que este projeto também lhes traz algum alento (…) Pelo facto de eu ter feito alguma coisa diferente nessa altura [pós-parto], aproxima as pessoas e faz com que sintam vontade de ouvir o próximo episódio”, revela. Além disso, a autora faz questão de manter o contacto com quem a ouve. “Trocamos mensagens onde debatemos ideias e trocamos pareceres”, conta.
Em termos pessoais, o “Drop-Off” representa um regresso à criatividade, mas não só. É também um refúgio para Ana Carvalhal, já que lhe permite “fugir um bocadinho à rotina do trabalho”. Criado sem um objetivo específico, a jovem não tem dúvidas de que o projeto “durará até eu achar que faça sentido”. Afinal, saber parar também faz parte da verdade que pretende transmitir.
“Se eu não faço uma gravação de uma forma completamente orgânica e genuína, não vai estar certo. Nesses casos, prefiro nem sequer gravar e, quando chegar a altura, digo ‘vamos fazer mais uma temporada de Drop-Off’ e avanço”, admite a autora. Por esse motivo, desde o passado mês de abril, o podcast tem estado parado. Contudo, tudo aponta para que seja retomado em breve. “Em agosto, nas férias de verão, volto. (…) É uma fase muito gira, já que, como os meninos estão em casa o mês todo, é caótico. Há sempre histórias para contar”, adianta.
Três anos depois desde a génese do “Drop-Off”, e mãe de dois filhos, Ana Carvalhal tem sido uma inspiração para muitas mulheres, “no sentido em que mostro que se queremos fazer não há qualquer entrave para não o fazermos”. Por isso, denota: “há vezes em que nos sentimos totalmente perdidas, mas, no meu caso, nasce um filho e nasce também uma força inacreditável. É nesse momento que somos capazes de tudo”, remata.
Cátia Barbosa
»» [Reportagem da edição impressa no “O Despertar” de 17/07/2026]