O Grupo Folclórico de Coimbra (GFC) comemora quatro décadas de dedicação à cultura popular com um espetáculo que promete marcar a agenda cultural da cidade. O 40.º aniversário da associação será celebrado hoje (9), às 21h30, no Convento São Francisco, num evento que presta homenagem a 40 anos de trabalho contínuo em prol da preservação e divulgação das tradições da região de Coimbra.
Mais do que um simples espetáculo, a iniciativa propõe uma viagem no tempo. Ao longo da noite, o público será convidado a mergulhar nos ambientes urbanos e rurais dos finais do século XIX e do início do século XX, período que constitui o eixo central da investigação e recriação histórica desenvolvida pelo Grupo Folclórico de Coimbra. Através da música, da dança, do trajar e de práticas associadas à vida quotidiana, o espetáculo evoca as formas como as populações expressavam emoções, crenças e vivências num contexto social profundamente marcado pela ruralidade e pela convivência comunitária.
A componente sensorial do espetáculo estende-se também à gastronomia tradicional, com uma breve mostra de doçaria típica, preservada pelo grupo a partir de receitas recolhidas ao longo do seu percurso associativo. Esta vertente sublinha a importância da culinária enquanto património cultural imaterial e elemento identitário das comunidades locais.
Uma viagem às tradições populares de Coimbra
Fundado em janeiro de 1986, o Grupo Folclórico de Coimbra é hoje uma referência incontornável na vida cultural da cidade. Enquanto associação cultural sem fins lucrativos, tem como missão salvaguardar os valores da cultura popular que contribuem para a identidade coimbrã, promovendo a recolha e divulgação de tradições da cidade e periferia. O seu trabalho incide sobretudo entre os finais do século XVIII e o início do século XX, com especial atenção para a segunda metade do século XIX, abrangendo áreas como o canto, a dança, o traje e a doçaria.
Ao longo de 40 anos, o grupo tem desempenhado um papel ativo na dinamização cultural de Coimbra, recuperando e promovendo iniciativas que fazem parte da memória coletiva da cidade. Entre elas destacam-se as Feiras de Doçaria, os cantares do ciclo natalício, os serões de folclore, as serenatas populares e as tradicionais Fogueiras de São João e São Pedro, realizadas na Alta de Coimbra, que continuam a mobilizar a comunidade e a atrair públicos de diferentes gerações.
Quatro décadas de reconhecimento e projeção cultural
O espetáculo comemorativo contará ainda com a participação de grupos e músicos convidados, representantes de diferentes expressões da cultura popular, reforçando o carácter festivo e colaborativo da celebração. Esta partilha em palco simboliza o diálogo entre tradições e a importância do associativismo cultural na preservação do património imaterial.
O percurso do Grupo Folclórico de Coimbra tem sido amplamente reconhecido por diversas entidades. A associação é membro efetivo da Federação do Folclore Português e detentora da Medalha de Mérito Cultural da Câmara Municipal de Coimbra, distinção que reconhece o seu contributo para a valorização da cultura local.
Com participações regulares em iniciativas culturais nacionais e internacionais, o Grupo Folclórico de Coimbra tem levado além-fronteiras a identidade cultural da região, afirmando-se como embaixador das tradições coimbrãs. O espetáculo de hoje surge, assim, como um momento de celebração, mas também de afirmação de um legado construído com rigor, investigação e profundo respeito pela memória coletiva.
Os bilhetes para o espetáculo encontram-se disponíveis através da Ticketline e do Convento São Francisco, numa noite que promete celebrar a cultura, a história e a comunidade, aberta a todos os que reconhecem no folclore uma expressão viva da identidade de Coimbra.
A vivência de duas mulheres de gerações diferentes no GFC
Isabel Lourenço – 66 anos
«A minha experiência no GFC é recente, são pouco mais de 18 meses, entrei em 2024, apesar de conhecer o grupo e as suas atividades desde longa data, mas só após me aposentar decidi ingressar no GFC, e tem sido uma experiência fantástica, e uma aprendizagem, pois de música e canto só era mesmo apreciadora. Além de aprofundar o meu conhecimento sobre algumas das tradições coimbrãs. O extraordinário trabalho de equipa para concretizar as diversas atividades organizadas pelo grupo, aquele trabalho de “bastidor” em que todos participam, como se se tratasse de organizar uma festa de família. O folclore não é só dança e “foleirice” como o cidadão comum no geral identifica, é a riqueza dum povo que se mantém vivo preservando as suas raízes em várias vertentes. Eu, não sendo natural de Coimbra, mas tendo vivido na Alta Coimbrã, a tradição preservada pelo GFC que mais me marca, é sem dúvida a realização das Fogueiras de São João e de São Pedro, nas quais sempre que podia estava presente, muito antes de algum dia pensar que viria a integrar esta maravilhosa “família” do Grupo Folclórico de Coimbra.»
Emilia Peres – 80 anos
«Integrar este grupo, para mim tem sido uma experiência extraordinária, entrei em 1991, e a minha estreia foi uma viagem à Hungria. O grupo nasceu na minha casa, a fazer uns “lanchinhos” e a impulsionar a continuidade, com o Drº Nelson Borges que fez a recolha e recuperação de muitas tradições. E, já tenho a filha e a neta no grupo, ou seja, já vai na 3ª geração e espero que continue. Gosto de reviver as tradições e fazer renascer aquelas que estavam esquecidas, como a doçaria, muitas receitas foram recuperadas e mantidas pelo GFC – as arrufadas de Coimbra, o manjar branco, as grades do convento, os pastéis de Santa Clara. Eu, não sou natural de Coimbra, mas resido cá, já lá vão 58 anos, e sinto estas tradições com muito empenho. Os Grupos folclóricos têm reavivado a cultura popular, pois um povo sem tradição e sem história não é Vida.»
Ana Rajado
»» [Reportagem da edição impressa no “O Despertar” de 9/1/2026]