Haja alguém que dê Voz à Figueira da Foz… que, afinal, é de Nós!
O verdadeiro problema da Figueira da Foz é precisamente aquilo que deveria fazer dela o motivo de pôr a nu uma virtude, em vez de ostentar um defeito: a praia, propriamente dita!
E, por “praia”, entenda-se todo aquele areal (o maior da Europa, no qual já cabe metade da cidade, segundo os últimos estudos), que se estende desde o Forte de Santa Catarina até às Muralhas de Buarcos (por outras palavras, 110 hectares de areia, o equivalente a 154 relvados de campos de futebol!).
Os mais diversos e distintos autarcas, por muito que tentem “retocar” a “fachada” da “Rainha das Praias”, assistem a tal “empreitada” condenada ao fracasso, ano após ano (desde a década de 60, aquando da construção dos molhes norte e sul) e – pasme-se – orçando a famigerada façanha em milhões e milhões de euros. Dinheiro de quem? Dos contribuintes – para variar!
Já nos anos 70, os veraneantes foram “presenteados” com um pseudo-comboio (idêntico, grosso modo, ao que, presentemente, para fins turísticos, circula nas artérias da urbe), tal era a distância entre a marginal e a beira-mar (ali mesmo em frente à piscina do Grande Hotel).
Em praticamente dez anos, a paisagem marítima mudou sobremaneira: o quebrar da onda deu lugar a uma cova abrupta, rente à beira-mar. Ou seja, antes da construção daqueles paredões, o mar da Figueira permitia ter pé a todos quantos nele entrassem até se perderem de vista, principalmente as pessoas que, em vez de quererem “surfar” as ondas, preferiam nadar (lembro-me de, com os olhos orvalhados de saudade, o meu Pai me levar “às cavalitas”, precisamente até à zona onde as ondas lhe batiam nos ombros e no pescoço, dando-me a ilusão de eu próprio me atrever a entrar “sozinho” no mar até à aludida zona de rebentação). Era assim connosco e também com as diversas famílias, as quais encontravam na praia da Figueira da Foz o bem-estar que só a canção homónima lhe fazia jus (“fazia” – pretérito imperfeito do indicativo; sim, porque já não faz).
Há quatro anos, mais concretamente a 18/7/2019, o “Observador”, alertou o grande público para o eixo dos três problemas que coocorrem na Figueira da Foz: o aumento da extensão do areal, a Norte, a erosão da costa, a Sul, e o assoreamento da barra.
Algumas soluções foram ventiladas para a resolução daqueles, desde o transporte de 3 milhões cúbicos de areia (a mesma que abunda a Norte do molhe norte, tendo este sido aumentado 400 m, em 2011, e cuja obra custou 14,6 milhões de euros, bem como orçando tal transporte de areia 19 milhões de euros), à implementação de um sofisticado sistema, denominado “Bypass” – sistema esse do inteiro agrado do “Movimento SOS Cabedelo”.
Enfim, quer queiramos, quer não, estamos perante uma hecatombe ecológica… e há mais de 60 anos que quem de direito vem “virando as costas” a tamanha aberração.
Muito embora eu me considere um mero leigo no assunto, proponho, todavia, uma terceira abordagem ao mesmo – bastante simples, diga-se em abono da verdade.
Recorrendo ao fenómeno do “mimetismo”, não zoológico, mas geológico, bastaria a construção de um único molhe (cujo comprimento dependeria da avaliação dos peritos engenheiros), a partir da primeira Muralha de Buarcos (no sentido Sul/Norte). Assim, percorridos aqueles iniciais 200 metros da Avenida Infante D. Pedro, aquando da primeira curva, à direita, far-se-ia o pretenso paredão com o mesmo ângulo, mas à esquerda, em direcção ao mar (tal como acontecera com a construção do molhe norte, em frente ao Forte de Santa Catarina).
A consequência imediata desta mui sui generis operação seria, não só o crescimento da praia de Buarcos, entre as Muralhas e o Cabo Mondego, como também das praias a Sul do molhe sul. Paralelamente, assistir-se-ia à erosão da própria praia da Figueira da Foz, tal como tem vindo a acontecer com as praias do Cabedelo, Gala, Cova, Lavos e Leirosa, depois da construção dos molhes Norte e Sul. Na década de 60, todas estas praias que hoje estão a “encolher”, tinham uma considerável extensão do areal, tal como o da praia da Figueira da Foz de então, dos ditos “anos áureos”, durante os quais as mais diferentes elites europeias (e não só) se davam ao luxo de escolher entre, quer o Sul de França e o de Espanha, quer a “Praia da Claridade”, a fim de prodigalizarem momentos estivais. Quem é que não se lembra de ouvir falar nesta última quase mais espanhol do que português, ao longo dos meses de Verão?
Quem sabe, um dia, cruzeiros de longo curso venham a atracar no porto da Figueira da Foz e, então, o Turismo dispare para valores nunca antes registados…
Quem sabe, um dia, haja surfistas em frente à Torre do Relógio a fazer as delícias de quem esteja a vislumbrar o oceano…
Quem sabe, um dia, as recém piscinas construídas nas praias da Figueira e de Buarcos não sejam mais necessárias…
Quem sabe, um dia, a Figueira da Foz seja “de finas areias / berço de sereias procurando abrigo” …
Também “isto” tem o seu “quê” de Poesia!