2 de Dezembro de 2020 | Coimbra
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VASCO FRANCISCO

Dias que correm

13 de Novembro 2020

Aguentam-se uns dias solarengos, um verão de São Martinho que vem aliviar a nostalgia dos dias chuvosos. As sementes vão-se lançando numa cama húmida e quente que em breve germinarão num ápice de plântulas que hão de dar frutos no próximo ano. Numa espécie de confinamento gradual, o receio invadiu estes lugarejos condessados numa incerteza cada vez mais alarmante. Tal como as pragas desdenham para chegar onde nunca se viram, também as pestes chegam aos recônditos mais sãos. “A sorte é escapar!” como diz o povo, esse que sempre se viu curado por mesinhas e receitas aconchegadas de orações e promessas. Um gole de aguardente, um cálice de vinho do porto, e assim pensam prevenir o bicho que os assusta, num susto mundial. É também esse néctar que lhes “desengadanha” os membros depois de um caldo entulhado com boa carne ao almoço, um naco de queijo e uma talhada de marmelada sobre a broa à merenda, consolo ao estômago para ter força no corpo, afim de varejar a azeitona que se vai apanhando, num ano de fraca safra, mas que jamais se desperdiça. As mulheres continuam no ripanço sobre os panais que forram os olivais por esses socalcos e valeiros, escutando a voz da mestra que de xaile embrulhado pelas costas não lhe impede o frio de vir ajudar à colheita numa rapsódia de conversas e memórias que preenchem os seus dias. As mãos vão-se tingindo de negro, pelo pigmento daquelas negrinhas galegas que vierem ao mundo vestidas de luto, como negro ascende o fumo dos borralheiros que incensa agora as aldeias num costume outonal.

O vinho vai-se curando nas adegas, onde os lavradores mais velhos o vigiam atentamente como se cada pipa fosse um relicário. Prova-se a água-pé e adoçam-se as visitas com a jeropiga do ano. Os castanheiros vão-se depenando nas encruzilhadas da serra, deixando cair lentamente as suas últimas filhas, num aparto natural que os bichos festejam numa alimentação da época e os Homens em magustos que duram até ao Natal. Combinam o encontro à volta da fogueira, onde as castanhas se vão assando no fagulho rabuscado nos pinhais. Entretanto alguém se lembra, “Anda por aí a guarda, se vos veem todos juntos é logo uma cautela valente! Não paga as castanhas!” e assim se quebra o convívio continuando cada um ao borralho, assando à meia dúzia nas lareiras onde se vão enfuscando nas brasas.

Os dias correm, as rotinas mantêm-se sempre expectantes do que virá amanhã, as vilas e as cidades atracam os novos, e os velhos por aqui vão ficando na redoma das serras onde se sentem seguros, redoma esta de um vidro quebrado onde aos poucos tudo vai chegando. As notícias alertam, e a natureza e o silêncio acalmam, o melhor que lhes vai sobrando destes lugares. Nas hortas as couves vão medrando para o Natal. Alguém vai arrascanhando o canteiro para umas favas, prendendo-lhe os braços e a mente quando lhe entram pela fazenda adentro, “Olhe! Olhe, a ti Tília foi para o hospital! Vai mal…” Já nem rende o trabalho… A preocupação logo se estende pelo casario, pondo os quelhos a torcer pela força da vida. A noite cerra-se fria. No nicho de umas alminhas vai ardendo o pavio no azeite, balouçando o vento aquela luz esperançosa, intercedendo para que regresse contra o deserto geográfico e humano destes lugares.


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