Em “O Sino e a Ponte”, os habitantes de Fajão decidem construir uma passagem sobre o rio Ceira, mas não sabem por onde começar. Lembram-se então de consultar o sino grande da torre da igreja. Ao dobrá-lo, ouvem: “Ao longo… Ao longo…”. E fazem a ponte ao longo do rio. Quando a obra já tem algumas braças, o Pascoal testa a passagem. Chega ao fim e percebe que continua na mesma margem. Voltam a consultar, desta vez, a sineta, que responde: “D’aquém pr’além… D’aquém pr’além”. Ao corrigirem o traçado, conseguem finalmente atravessar.
A anedota funciona como metáfora do que, em Coimbra, se celebra até 31 de julho: o desenho como projeto – da criatividade ao método, da inspiração ao resultado. É esse um dos eixos da exposição “Nunes Pereira e o traço: 1927–2001”, patente na oficina que leva o nome do padre-artista, no Seminário Maior de Coimbra, e primeiro momento de um programa comemorativo mais vasto, que decorre até 9 de dezembro.
A mostra reúne pouco mais de uma centena de obras, escolhidas após a análise de cerca de quatro mil trabalhos, dentro de um espólio estimado em cerca de 15 mil peças. O percurso organiza-se em núcleos e sublinha o desenho como gesto estruturante e transversal, reconhecível em técnicas e suportes diversos – do carvão à tinta-da-china, do lápis de cera à caneta de feltro, da aguarela à gravura.
O contexto do lugar reforça a leitura: a Oficina-Museu corresponde ao espaço de trabalho dos últimos anos do padre-artista e foi idealizada pelo próprio, abrindo ao público há 29 anos, a 10 de Janeiro de 1997. O que hoje se expõe não é apenas um conjunto de peças; é a tentativa de construir, dentro de um universo vastíssimo, um fio condutor legível.
Fixar a memória
Permanentemente, o visitante pode encontrar “Os Contos de Fajão”, uma das obras mais emblemáticas associadas a Nunes Pereira: a recolha e fixação em texto e imagem gravada de narrativas que circulavam na oralidade em sua povoação de origem, na Pampilhosa da Serra, transformadas em xilogravuras. Além de “O Sino e a Ponte”, “Do modo como os de Fajão elegiam o Juiz” e “Ovos cozidos também dão pintos?”, há outros 22 desenhos e 20 tábuas expostas. É também aí que o humor popular – mordaz, por vezes absurdo – convive com um olhar atento sobre o quotidiano, o social e o sagrado, numa pedagogia de imagens.
A curadora Cidália Santos sublinha precisamente esse movimento: contos e lendas, algumas “com fundo de verdade”, que Nunes Pereira recolhe, regista e depois “tem a genialidade de as fazer em madeira”. Para ela, essa é a maior obra do artista na xilogravura fora do âmbito religioso – e, ao mesmo tempo, um gesto de missão: devolver à comunidade, com forma e permanência, aquilo que a comunidade criou e transmitiu.
Ano de homenagens
A exposição abre, assim, um calendário distribuído pela região e por instituições parceiras. Estão previstas, entre outras iniciativas, sessões de teatro infantil “Todos ao Monte e Fé em Deus” (4, 11 e 25 de fevereiro, no Seminário Maior de Coimbra), a inauguração de um monumento em Coimbra (fevereiro, com data a confirmar), a apresentação da 3.ª edição de “Da Terra e do Céu” com recital de poesia (21 de março, em Montemor-o-Velho), a sessão “A Ceia: Hodart e Nunes Pereira” (17 de abril, no Museu Nacional de Machado de Castro, com jantar-experiência associado), a apresentação aumentada de “Os Contos de Fajão” (16 de maio, em Fajão), a missa comemorativa a 1 de junho, a missa e inauguração de mural comemorativo em Ponte de Sótão, Góis (20 de setembro), e a apresentação do livro “Nunes Pereira. Pelourinhos: símbolos de poder” (17 de outubro, em Côja, Arganil). O encerramento aponta para 9 de dezembro, com “Instantâneos de Nunes Pereira”, de regresso ao Seminário Maior.
Se o traço é a ponte que nos liga a esta obra, é também uma chave de leitura. Ao recolher contos, gravá-los em madeira, registar paisagens e memórias, e ao disseminar trabalho por igrejas, museus e espaços da vida comum, Nunes Pereira atua como artista e mediador cultural: transforma memória em forma, e forma em pertença coletiva. Um movimento semelhante ao do conto da ponte — aprender a fazer arte “d’aquém pr’além”, devolvendo à comunidade um legado que, no essencial, não é de um só, mas de todos.
Marcelo Domingues Tomaz
»» [Reportagem da edição impressa no “O Despertar” de 16/1/2026]