14 de Março de 2026 | Coimbra
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Kito Pereira

COIMBRA MENINA E MOÇA …

23 de Junho 2023

Coimbra menina e moça, rouxinol de Bernardim. Se calhar já não é.

 

Ontem, entrei numa unidade de uma marca de automóveis lá para os lados do Loreto e, como sempre, fui atendido de forma educada e profissional. O rapaz, novo e bem parecido na sua sua camisa branca imaculada com o logotipo da empresa, fez – me algumas perguntas sobre a minha viatura, como o médico que inquire o paciente. Sim, o paciente, porque a conta da revisão do automóvel tenho a noção que me vai deixar combalido – como deixou. Depois, de novo de uma forma quase protocolar, perguntou se eu precisava de um carro de substituição para circular na cidade, que o meu só me seria entregue ao fim da tarde. Disse – lhe que não. Que ia utilizar o transporte público, ali mesmo junto à mega – sede da empresa.

 

Debaixo de um pequeno telheiro, esperei pacientemente o autocarro. Um homem com dificuldades motoras, uma africana com uma criança ao colo e uma idosa que trazia de braçado um enorme ramo de flores, seriam os meus companheiros de viajem. O transporte chegou e vinha quase repleto de passageiros. Mas lá conseguimos entrar, sem que eu não tivesse de ajudar o homem com dificuldades motoras, amparando – o com as minhas mãos, não fosse ele desequilibrar – se ao subir o degrau e desabar de costas no asfalto.

 

A viagem até à Estação Velha foi épica, com acelerações e travagens que nos arremessava uns contra os outros, os que viajávamos de pé agarrados aos varões. Os utentes começavam a mostrar alguns sinais de desconforto e quando do seu poleiro privilegiado olhavam o estaleiro gigante em que se transformou a Estação Velha, a irritação subiu de tom. Falavam do já mal – amado Metro Mondego, da cidade ferida com as vísceras  de fora ande por onde se andar. Discutiam dos milhões de uma obra que se arrasta nos tempos. E da cidade que já não é a nossa carismática Coimbra. E eu, de máscara no nariz que o Covid não é assunto do passado, a registar todo aquele azedume. Saí junto da Rodoviária, tirei a máscara e inspirei o ar poluído da Avenida Fernão de Magalhães, na sua parafernália de autocarros, carros e motas.

 

Já não tive coragem para tomar novo autocarro rumo ao Bairro da minha vida. Fui de táxi. E ele , o homem do volante, com um pequeno crucifixo a balançar no espelho retrovisor, depois de alguns minutos de silêncio, ao chegar à Portagem irritou – se e disse –  me em voz alta … já viu no que se transformou a nossa cidade … dos milhões gastos … pois que metessem material circulante novo na linha da Lousã que ficaria a um décimo dos gastos e sem os transtornos dos utentes de Serpins, Lousã e Miranda do Corvo, quer dizer, acabaram com os elétricos para agora porem outros com rodas. Mas será que somos uma grande metrópole para este novo riquismo sem sentido, com a cidade virada do avesso ? – acrescentou.

 

Cansado de me ter levantado cedo e tomando àquela hora uma ligeira refeição, fui meditando no que ouvi no autocarro e no táxi. Era a voz do povo. Era a voz de Coimbra. De uma Coimbra martirizada a perder a sua identidade. Dos fados e das vielas. E o rouxinol de Bernardim, é agora o suposto progresso do som cavernoso da picareta da pá e do camartelo.

 

Por quem já toca a finados o sino da velha Cabra ?

 


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