14 de Janeiro de 2026 | Coimbra
PUBLICIDADE

António Vinhal

CIDADANIA

7 de Março 2025

Quando penso em cidadania, não sei porquê, penso em homens e mulheres que se constroem a si mesmo dentro de um grupo e comunidade, como se ao nascer viessem imperfeitos e precisassem de alguma coisa parta continuarem a construir-se até que as dores os abatessem sem misericórdia em obediência a uma lógica irremediável e irrecusável. Nos casamentos católicos, os mentores dizem «até que a morte nos separe».

E é na certeza deste preceito natural, que me penso e penso os outros que me rodeiam como seres indefesos que se vão construindo com os tijolos que os demais que o rodeiam lhe vão cedendo por amor ou por desamor. Em cada um de nós subsistem pois os que amamos, os que nos amam e também aqueles que nem por isso.

Por isto que me constrói como pessoa, eu considero a cidadania, em primeiro lugar como o espaço ou a ordem em que me construo a mim mesmo com o sério contributo de todos e de cada um, dos meus sucessos e dos meus erros, das minhas virtualidades e dos meus desaires.

Assim, a cidadania é o meu espaço privilegiado da construção da meu SER. Antes de mais do meu SER: ser pessoa, Ser solidário. Ser colaborativo, Ser com SERES outros que me completam e me interrogam ao longo do caminho, como aliás eu os interrogo a eles. É um caminho de recíproca construção, e por isso, parecendo tão claro o conceito de CIDADANIA, eu o vejo como uma longa estrada que começou no fundo da história, não exactamente na Grécia ou em Roma onde os teóricos gostam de o colocar, mas bem mais lá no início onde o Homem teve necessidade de um parceiro para abater os perigosos animais ferozes que lhe dificultavam o viver. E olhando para diante, o conceito vai-se definindo e redefinindo, numa volúpcia de sedas e damascos que a minha vista já não consegue alcançar.

Por esta lógica, a cidadania é, antes de mais, o meu espaço de autoconstrução: ser pessoa. É o MEU  SER o que se me adianta, na tarefa de ser qualquer coisa.

E que coisa eu quero ser? Como me quero construir? Como quero aparecer aos que me amam e me rodeiam? Nu ou adornado das virtudes qual noiva que vai para o casamento? Não seja o caso de mandar para a boda o vestido de casamento e ficar em casa a lamentar a minha nudez.

Então fica-me claro que  a primeira coisa que tenho de fazer na minha cidadania é a construção da minha PESSOA, do meu SER.  Eu e as minhas circunstâncias, na feliz expressão do filósofo vizinho.

E como eu sou já um ser colectivo feito de muitos seres que me habitam, eu sou necessariamente com os outros. Cada um deles pulsa agora no ser que eu respiro. Eu sou, à minha maneira, um pouco do que eles são em mim. Caminhamos afinal na mesma estrada que nos há-de levar, para onde não sei, mas sei que queremos SER e ser com todos.

Uma força imensa dos que caminhamos na vereda, que nos levará onde não sei, mas juntos porque juntos somos mais fortes para fazer a tal frente aos ferozes animais que nos vão aparecer ao longo da caminhada. E agora, todos juntos, somos o poder.

Primeiro de tudo o poder de sermos quem queremos ser, depois o poder de sermos como queremos ser. Com cheiro a brilhantina, ou ao suor do trabalho; com sorriso de festa ou o choro da fome?  Porque quer eu o queira agora ou menos, já estamos todos no mesmo barco. Não há pobres ou ricos, brancos ou negros, altos ou baixos, gordos ou magros. Vamos todos na estrada da vida, e somos nós que definimos as regras, e não conseguimos renegar as nossas fontes, mesmo que o quiséssemos. Não vale a pena pichelar as estátuas de Camões ou de Alberich. O que somos vem carregado de história e é a fazer história que vamos continuar a caminhada. Chamemos a isso civilização ou outra coisa. Eu prefiro chamar-lhe cultura, É pela cultura que vamos e ousamos, que nos (nos, a nós, a todos e a cada um) fazemos em contínua reconstrução e transformação.

Ninguém fica para trás, velho ou doente, talentoso ou menos, afortunado ou pobretana de signo ou sorte, porque somos pertença de todos e todos nos pertencem. Coexistem em cada um de nós.

Falar de direitos políticos, civis ou sociais para mim não faz muito sentido; talvez para os teóricos e doutrinadores o faça. Para quem tenha de dissecar a besta, que não é o meu caso.

Para mim faz sentido falar de OUTROS EUS que, qual levada que corre para a mó do moinho, já não tem volta atrás.

 


  • Diretora: Lina Maria Vinhal

Todos os direitos reservados Grupo Media Centro

Rua Adriano Lucas, 216 - Fracção D - Eiras 3020-430 Coimbra

Powered by DIGITAL RM