Sou um «viajeiro», ando de casa em casa.
Nesta casa, os enfermeiros não têm bata amarela; agora vestem bata branca, para espraiar a alma.
Viajo num corredor igual a outros por onde já viajei. Estas casas têm sempre um corredor que ainda nos faz apegar à vida.
Hoje o silêncio impregnado por dentro, por fora, é como se houvesse nevoeiro para esconder a mágoa da vida.
Penso num Deus (?) que dorme, e, de vez em quando, emite raios de luz ou de morte.
Os antibióticos estão sempre presentes, litros de cloreto de sódio também, ainda transfusões de sangue, todos caem por gravidade para torniquetes que depois os acarretam para dentro do corpo, já pouco animado para os receber.
Invade-me uma perversa penumbra; o quarto está a liquefazer-se com lágrimas, o tecto abre-se para mostrar que a vida existe no ocaso nocturno.
Aguenta António; neste momento a tua resiliência tem de estar presente. E estará sempre, se não já tinha visitado sítios indistintos e imprevisíveis.
Espera, espera António,
Que te tragam a boa nova,
De poder voar p´ra fora,
Fora, longe daqui,
P´ra uma estrela cintilante,
Brilhante,
Que me transmita a áurea p´ra não voltar aqui.