11 de Fevereiro de 2026 | Coimbra
PUBLICIDADE

Ana Rajado

As cidades e o arvoredo urbano

3 de Julho 2025

Há tardes de junho que podiam ser de agosto. Trinta graus e um desconforto térmico que a impermeabilização do solo e a incidência do sol no betão agravam. É difícil viver em cidades cada vez mais hostis. Sair de casa numa tarde de verão pode ser uma visão do inferno. No entanto, estas questões parecem não preocupar alguns dos nossos autarcas. Há cada vez mais estudos urbanísticos e projectos concretos que detalham como alcançar índices de bem-estar humano e ambiental, e que deviam inspirar os decisores políticos.

É indiscutível que as florestas urbanas, e o arvoredo nas ruas e estradas, são uma boa estratégia para minorar os efeitos das alterações climáticas e melhorar as condições ambientais em geral: através da poupança energética, do aumento da biodiversidade – as árvores proporcionam habitat e refúgio a plantas e animais e melhoram a qualidade do ar e da água. Algumas até nos dão fruta e frutos secos. As árvores cortam a incidência da luz em mais de 90%, diminuindo a temperatura e a luz direta. Estudos recentes apontam para que pessoas que vivem em cidades arborizadas estejam menos expostas à ansiedade e à depressão. São excelentes filtros para os poluentes urbanos e partículas finas e uma riqueza tão grande que valorizam a propriedade em cerca de 20%. Além disso, reduzem o escoamento superficial, diminuindo as inundações e permitem uma maior infiltração e aproveitamento da água no solo. As suas raízes ajudam a segurar os terrenos instáveis, decrescendo os riscos naturais associados a desabamentos. Até numa perspetiva estética são benéficas: embelezarem as cidades. Ao longo da História estiveram sempre presentes, beneficiando-nos.

Portugal é um país de verões quentes e secos. A maioria das pessoas no verão continua a frequentar transportes públicos, a trabalhar e a circular na cidade. O desconforto de percorrer uma avenida exposta ao sol directo, sem a sombra e a brisa fresca que as árvores proporcionam, é desgastante. Há quem sinta algum alívio deste incómodo – os que circulam em carros com ar condicionado e vivem em casas arrefecidas e ajardinadas, com garagens cobertas. Os que passam parte do verão na praia, ou no campo – em extensas áreas verdes e piscinas. Esses talvez não se apercebam do mal-estar que a maioria dos habitantes das cidades – que não podem evadir-se no verão, sofrem. Uma tortura diária. Mesmo assim deviam perceber a irracionalidade da falta de um planeamento urbano que não integre espaços verdes.

Sabemos a natureza do nosso clima, mas há inúmeras formas de minimizar as ilhas de calor e criar ambientes agradáveis que permitam suportar altas temperaturas, e até reduzi-las um pouco. Nisso, as árvores são a mais bela e eficaz solução.

Numa tarde quente e seca, desloquei-me menos de um quilometro – de um bairro residencial sem árvores, em que o sol incidia a pique sobre o alcatrão e queimava – tornando o ar irrespirável, para um pequeno parque de árvores imponentes. A diferença é abismal: a sensação de frescura, a brisa por baixo das folhas, o canto dos pássaros: um oásis. A sombra que as árvores proporcionam alivia a formação de ilhas de calor (massas de ar quente estagnadas na cidade).

Se estas questões deviam ter estado sempre no centro do desenvolvimento estratégico de uma sociedade, através de um planeamento com base no conhecimento científico e numa perspectiva sistémica – hoje, mais do que nunca: com as alterações climáticas; os problemas ambientais causados pela acção antrópica e até, a necessidade de desaceleramento de uma sociedade que adoece e que o contacto com a natureza regenera – é vital pensar o papel do arvoredo urbano, através da sua inclusão na gestão e planeamento municipal. Há já algumas cidades europeias a arrancar alcatrão e betão para criar espaços verdes.

A 18 de Agosto de 2021 a Assembleia da República Portuguesa estabeleceu o regime jurídico de gestão do arvoredo urbano.  Alguns dos princípios gerais da lei constantes no artigo 5 são os seguintes: “a) princípio da função social e pública do património arbóreo, que consagra os elementos ecológicos, ambientais e climáticos do arvoredo e biodiversidade associada, essenciais ao desenvolvimento social e à qualidade de vida dos cidadãos; d) princípio da precaução, que determina a adoção de medidas preventivas contra ações que ponham em risco a proteção do arvoredo urbano e biodiversidade associada; e) princípio da responsabilidade, que promove a educação ambiental e a responsabilização de quem, direta ou indiretamente, provoque danos ao arvoredo e biodiversidade associada; f) princípio do conhecimento e da ciência, que determina que as ações de planeamento e gestão do arvoredo urbano tenham por base o conhecimento técnico e científico; h) princípio da informação e da participação, que promove o envolvimento dos cidadãos no desenvolvimento de políticas ambientais e o acompanhamento da concretização dessas políticas.”

Pode não parecer, mas somos animais que – dos seus 300 mil anos de vida, vivemos até há cerca de 70 a 50 mil na savana. A natureza ainda é para nós uma necessidade, um apelo natural. Devemos incorporá-la nas nossas cidades se queremos viver melhor e garantir o futuro das gerações vindouras.


  • Diretora: Lina Maria Vinhal

Todos os direitos reservados Grupo Media Centro

Rua Adriano Lucas, 216 - Fracção D - Eiras 3020-430 Coimbra

Powered by DIGITAL RM