25 de Junho de 2019 | Coimbra
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ANTÓNIO CASTELO BRANCO

Aprendendo a redigir

11 de Janeiro 2019

É frequente ouvirmos, à laia de indignação, que as pessoas falam, falam muito, quando confrontadas com irregularidades, que chegam a pôr em causa os seus direitos e os da sociedade, mas grande parte das vezes ficam-se por aí, nem sempre recorrendo diretamente à autoridade, pois não são fáceis os enredos a que isso conduz, e muito menos o fazem por escrito, porque não sabem como escrever e a quem dirigir as suas reclamações, exposições, denúncias.

Esta questão, das pessoas nos tempos que correm não saberem como isso se faz, dá que pensar. De facto, há hoje um número avassalador de gente que efetivamente não sabe escrever uma carta, quanto mais levar por diante o propósito de se dirigir a uma entidade para apresentar a sua questão! E se é triste isto acontecer, é lamentável que nada se faça para o ultrapassar, já que, porventura utópico, não seria assim tão trabalhoso e impossível. Era a modos que uma campanha de alfabetização, onde se ensinariam, não os grandes formalismos, mas as formas diretas e expeditas para levar ao conhecimento do senhor presidente da Junta, da Câmara, ao comandante dos bombeiros e do posto da GNR, para já não falar ao senhor deputado beltrano ou sicrano e até aos senhores ministros e outros, o que está mal lá na terra, o policiamento que se precisa, o saneamento que está obstruído, a água que está a ser contaminada, a areia que é roubada, a estação de tratamento que não funciona, o apoio domiciliário que é insuficiente, o médico que não há, a corrupção que se detetou!

A evidência de que raramente as pessoas pedem o livro de reclamações numa repartição ou num serviço onde foram mal atendidas, onde houve abuso de poder ou onde foram enganadas, tem muitas vezes como justificação o facto dos lesados não saberem o que ali escrever, quanto mais optarem por uma carta e dirigi-la a alguém. Recordo, nos primeiros anos de liceu, um sumário na disciplina de Português que dizia: “Aprendendo a redigir”, a que outros se seguiam: “Continuação da lição anterior “. E evoco tão meritórias aulas! Adiante, porque entretanto me passam pelas mãos as Crónicas Gandaresas do saudoso Idalécio Cação. E folheei-as, até chegar a esta que aqui penso ter propósito: Você sabe assinar? O relato que o autor nos faz do analfabetismo que por aqui grassava até bem pouco antes da queda do Antigo Regime era “como escalracho nas restevas, sobretudo nas zonas rurais”. E conta, da necessidade que havia das pessoas se corresponderem com os familiares que traziam emigrados, e que a tarefa de notar as cartas e de ler as respostas era entregue a quem confiavam a sua intimidade! Comum, diz ele, era pôr o dedo quando se precisava escrever o nome e não se sabia, quantas vezes perante a importância de um qualquer empregado que nem levantava os olhos. E o nosso escritor, já então professor da universidade, conta ter ido certo dia a uma delegação do Registo Civil pedir um documento referente ao óbito da mãe, tendo-o o funcionário questionado, sem sequer olhar para ele, mas tão só levado pela indicação de se tratar de um indivíduo oriundo de “uma daquelas aldeias ermas entre pinhais do fim do Mundo” que se chamava Lafrana: Você sabe assinar? – E lá disse que sim, que sabia assinar com dificuldade embora, mas que sempre dava um jeito. E lá assinou!


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