António Ferreira é o realizador do filme “A Memória do Cheiro das Coisas” a escolha da Academia Portuguesa de Cinema para representar Portugal, na categoria de Melhor Filme Internacional, na lista dos favoritos aos Óscares. O realizador escolheu fazer cinema a partir de Coimbra, numa estrutura construída longe do centro habitual da produção cinematográfica portuguesa. Foi criando uma equipa, formando profissionais pela prática e encontrando maneiras de filmar quando o dinheiro não chegava. Em seis longas-metragens, conta, teve apoio do ICA para apenas duas. E, ainda assim, A Memória do Cheiro das Coisas, um filme feito nesse contexto e longe das grandes estruturas, acabou por ter um percurso internacional que o próprio realizador não esperava. A surpresa da nomeação pela Academia foi genuína: «Aprendi, com quase três décadas de trabalho e muitas expectativas frustradas, a não ter expectativas», diz. Não porque tenha deixado de acreditar nos filmes, mas porque percebeu que o percurso de uma obra escapa, em grande medida, a quem a faz. A Memória do Cheiro das Coisas não foi um sucesso de bilheteira fora do comum. Ficou, segundo o realizador, «na média do que um filme português está a fazer neste momento». Mas chegou aos Globos de Ouro com duas nomeações: Melhor Filme e Melhor Ator, para José Martins, e no circuito internacional teve reconhecimento imediato no Festival de Xangai.
«Não estávamos mesmo à espera. Por acaso, foi mesmo uma grande surpresa.»
Um filme realizado em Coimbra por uma equipa da cidade
António Ferreira é de Santa Clara e quis voltar para Coimbra depois de ter vivido noutros países. Conhece a cidade, os lugares e imagina neles muitas das suas histórias. Há 25 anos que filma na cidade – onde conseguiu criar uma estrutura profissional capaz de sustentar uma longa-metragem fora de Lisboa. Cerca de 80 por cento da sua equipa é de Coimbra; imagem e som continuam mais dependentes de profissionais de fora. A estrutura foi sendo construída filme a filme, formando profissionais pela experiência, além da formação em cinema e audiovisual. Para António, «Sem a prática, não se criam profissionais. E a prática faz-se filme a filme». Essa proximidade é importante porque, para o realizador, um filme é um trabalho coletivo. Nos seus filmes, todos os chefes ganham o mesmo, tal como os primeiros assistentes; os atores não são pagos em função da fama ou das visualizações nas redes sociais e os estagiários também são pagos. «Não há uma estrela a receber quatro vezes mais do que os outros». Todos participam criativamente. Recorda uma cena em que uma personagem arrastava um cobertor como se fosse um corpo. A solução não funcionava e foi o assistente de câmara quem sugeriu colocar um cadeirão. António aproveitou a ideia. Noutra situação, as manifestações do 25 de Abril e do 1 de Maio impediam uma gravação pelo ruído. A chefe de produção sugeriu filmar na rua; António alterou o guião e integrou no filme as manifestações. É esta participação que considera perder-se quando o realizador se limita a mandar: «Ficas sozinho a dar ordens. E perde-se a criatividade dos outros».
O cinema português não tem que ser de uma determinada maneira
António nunca quis seguir a «cartilha» do cinema português nem aceita uma forma única de fazer cinema. Rejeita também a oposição entre cinema de autor e cinema comercial: há filmes que as pessoas vão ver e outros que não vão, independentemente dessa classificação. Não quer alterar a sua maneira de fazer cinema para facilitar o percurso de uma obra. O cinema de António tem uma forte carga política, mas não se apresenta como realizador de cinema político no sentido tradicional. Não acredita, porém, na separação entre cinema e sociedade. Cresceu numa família ligada a valores de honestidade e respeito pelas pessoas, politicamente mais próxima do centro-direita; fez depois as suas próprias opções e prefere não pertencer a nenhum partido, mantendo distância para poder criticar inclusive aquele em que normalmente vota. A política está, ainda assim, sempre presente. Sem querer ser panfletário, prefere histórias em que as questões sociais provoquem reflexão: «Há pistas, há posições diferentes, há conflitos, mas não há necessariamente uma moral no fim». Rejeita igualmente subestimar o público: «Não vou nivelar por baixo. Não vou tratar o público como estúpido». Coloca-se no lugar do espectador e pergunta se a história lhe despertaria curiosidade, surpresa e vontade de continuar a ver. Reconhece que a relação das gerações mais novas com a atenção mudou, mas não quer adaptar a linguagem à simplificação que identifica, por exemplo, no streaming. É crítico do modelo de produção das plataformas, que, na sua leitura, aproxima filmes e séries pela cor, montagem, ritmo e mecanismos narrativos destinados a manter o espectador atento. «As pessoas querem consumir isso, não há problema nenhum», admite, mas não é o que quer fazer. Os seus filmes são pensados para a sala escura e para um espectador disposto a permanecer numa história sem receber imediatamente todas as respostas.
«Não vou nivelar por baixo. Não vou tratar o público como estúpido»
Próximo filme: imigração
O próximo filme será sobre imigração e passa-se numa aldeia do interior, envelhecida porque os mais novos emigraram. Entretanto, chegam imigrantes, sobretudo asiáticos, para trabalhar no campo, nos lares e noutras atividades. O protagonista será novamente José Martins, presidente da junta de freguesia, que percebe que a imigração pode ser decisiva para a sobrevivência da aldeia: os jovens foram embora e alguém tem de ocupar os lugares vazios. Mas a comunidade que o elegeu é hostil à chegada de imigrantes. O conflito nasce dessa contradição. A investidora chinesa, rica, que compra uma grande quinta com vinha, é bem recebida; o trabalhador que chega para trabalhar no campo ou nas obras é recebido de forma agressiva. As duas personagens têm a mesma origem asiática, mas uma chega num carro de luxo, traz investimento e compra propriedade, enquanto a outra chega para trabalhar. A distinção é de classe. O filme quer explorar essa contradição, colocando diferentes posições na mesma história. A mesma preocupação esteve presente em A Memória do Cheiro das Coisas, nomeadamente na conversa entre Hermínia e Arménio, duas personagens com experiências de vida muito diferentes. Ele fala de ter sido capturado, feito refém, torturado e humilhado; ela recorda um episódio familiar ligado à guerra colonial e uma frase racista que ouviu. Nenhum conhecia a experiência do outro. Para António, esse diálogo é fundamental: «se o filme declarar logo quem tem razão, a conversa termina antes de começar. Quero trazer todas as nuances. Quero pôr as pessoas a falar, mesmo quando aquilo que dizem é desconfortável.» É essa a linha que liga A Memória do Cheiro das Coisas ao filme que vai começar a gravar em outubro: questões sociais, personagens que podem estar simultaneamente certas e erradas, com contradições e experiências diferentes. António quer continuar a fazer filmes diferentes, porque cada história pede uma linguagem própria. Aguardamos com expectativa a corrida ao Óscar e o próximo filme.
Ana Rajado
»» [Reportagem da edição impressa no “O Despertar” de 2/10/2026]