Segunda-feira (16) é Dia Mundial da Alimentação e o “Despertar” esteve à conversa com a nutricionista Joana Gante. É licenciada em Nutrição e Dietética e Pós-Graduada em Nutrição e Pediatria, em Nutrição Clínica e em Nutrição e Oncologia. Ao longo do seu percurso, passou por Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS), pela CUF e pelo Instituto Português de Oncologia de Coimbra. Atualmente, exerce no Pediátrico de Coimbra.
Bianca de Matos
Despertar (D): O que é uma alimentação saudável?
Joana Gante (JG): É aquela que contempla os alimentos da Roda dos Alimentos e que deverá ser completa, variada e equilibrada, proporcionando a energia adequada e o bem-estar físico ao longo do dia. Alimentos ricos em fibra, como produtos hortícolas, frutos, cereais e leguminosas, vitaminas, sais minerais e com baixo teor de gordura, devem ser os “alimentos base” do quotidiano. É claro que devemos ter em consideração as alergias e/ou intolerâncias alimentares que possam existir e, nesse caso, alguns alimentos considerados saudáveis deverão ser evitados.
D: Quais são os maiores erros na alimentação?
JG: Podemos considerar um erro alimentar quando se ingere diariamente uma quantidade superior de alimentos pobres nutricionalmente e uma menor quantidade de alimentos considerados saudáveis e ricos em nutrientes. Consumir um alimento açucarado ou rico em gordura pontualmente, num contexto de uma alimentação variada, completa e equilibrada, não pode ou deve ser considerado um erro alimentar.
D: Quais são os maus hábitos alimentares mais preocupantes?
JG: O consumo baixo de legumes, fruta e leguminosas, a baixa ingestão de água e um elevado consumo de alimentos ricos em gordura e açúcar.
D: Que “elogios” podemos dar aos hábitos alimentares da população?
JG: O hábito que ainda se vai mantendo de comer sopa.
D: Como começar a praticar uma alimentação saudável?
JG: Comece por adicionar alguns legumes no prato (caso ainda não o faça), ingira uma a duas porções de fruta ao longo do dia, inicie as refeições principais com sopa de legumes e tente beber 1,5L de água por dia.
D: Que cuidados se deve ter nas escolhas alimentares?
JG: Será importante escolher alimentos com um teor mais baixo de açúcar, sal e gordura. Existe uma tabela com estas informações, com o nome “Descodificador de rótulos”, e basta procurar no site da Direção-Geral da Saúde.
D: Existem diferenças de necessidades alimentares entre crianças e adultos?
JG: Sim. Não vou especificar as diferentes necessidades ao longo da vida de uma criança (dos 0 aos 18 anos), mas um erro comum que observo é o facto de obrigarem as crianças a terminar a comida que os adultos lhes colocam no prato. Não nos podemos esquecer que as crianças têm um estômago mais pequeno do que os adultos e têm necessidades diferentes, pelo que não faz muito sentido oferecer um prato cheio a uma criança. Ao obrigarmos as crianças a “comer tudo até ao fim” quando elas dizem estar satisfeitas, sem apetite ou “cheias”, estamos a interferir com a sua noção de saciedade, a educar e a habituar as crianças a comerem sempre a mais para as suas necessidades e a ajudar a um possível excesso de peso ou obesidade infantil e, posteriormente, do adulto. O ideal será questionar o/a nutricionista, o médico assistente ou pediatra sobre as quantidades corretas, de acordo com a idade. Também será uma boa ideia não encher o prato da criança, pois caso tenha fome, irá pedir para repetir.
D: Quais os maiores mitos sobre alimentação saudável?
JG: A nutrição é um meio muito fértil para a criação de mitos. Existe a ideia de que os adultos não precisam de beber leite ou que faz mal. A partir do momento em que não há desconforto com o leite ou que sabe bem, não há razão para não beber. Caso haja desconforto, pode haver uma intolerância à lactose e aí já existem opções sem lactose. Temos outros mitos, em que se considera que alimentos sem glúten são mais saudáveis do que os que têm, o que não é verdade. Existe ainda uma ideia de que um copo de vinho à refeição faz bem. O álcool faz sempre mal à saúde e não existe uma dose segura da sua ingestão, em que possamos beber descansados e sem que nos faça mal.
D: É o mês da prevenção do cancro da mama. Qual a alimentação recomendada para o doente oncológico?
JG: É a base da alimentação saudável. Depois existem vários sintomas que o doente poderá ter com os tratamentos e aí deve-se adaptar a alimentação de acordo com as necessidades.
D: Quando alguém passa por necessidades, a nutrição torna-se secundária?
JG: Torna-se secundária na medida em que o rendimento familiar não estica. Existem os cabazes doados às famílias, que são uma ajuda importante, mas nem sempre é suficiente. E não nos podemos esquecer da pobreza envergonhada, em que muitas famílias não têm ajudas, não estão sinalizadas e em que a melhor refeição de algumas crianças será feita na escola.
D: É preciso muito dinheiro para se comer bem?
JG: É preciso que haja dinheiro para comer. Quando há pouco dinheiro é provável que a escolha seja nos produtos mais baratos e com mais energia. A fruta e os legumes são mais caros que alguns produtos mais ricos em gordura e açúcar. No entanto, é possível comer de forma saudável seguindo alguns truques, que passam por programar as refeições durante a semana, fazer uma lista de compras e respeitar a mesma, fazer comida em maior quantidade para não ter que cozinhar todos os dias, acondicionando corretamente as sobras, apostar nos legumes congelados, que são boas opções a nível nutricional e também mais baratas, e substituir algumas refeições de carne ou peixe por leguminosas.
D: Qual a importância de um nutricionista?
JG: Os nutricionistas são os profissionais de saúde qualificados e regulamentados que devem fazer a tradução das ciências da nutrição em informações sobre alimentação, saúde e doença, em orientações práticas para permitir que as pessoas façam escolhas alimentares e de estilo de vida adequadas. Os nutricionistas orientam e efetuam a vigilância da alimentação e nutrição quanto à sua adequação, qualidade e segurança, em indivíduos ou grupos, na comunidade ou em instituições, onde se inclui a avaliação do estado nutricional, tendo por objetivo a promoção da saúde e a prevenção e tratamento da doença, sempre com base na evidência científica atual.
D: Quem mais procura pelo nutricionista?
JG: Pessoas de todas as idades.
D: Que principais motivos levam as pessoas a procurar o nutricionista?
JG: Perda ou aumento de peso, nutrição infantil, na grávida, no idoso, no doente oncológico, diabetes e doenças gastrointestinais.
D: Como a nutrição pode ajudar a construir um estilo de vida mais saudável?
JG: Um estilo de vida mais saudável implica ter uma alimentação saudável, bem como a prática diária de atividade física e isso levará a uma redução da probabilidade de desenvolver algumas doenças não transmissíveis, como as cardiovasculares, cancro ou diabetes tipo 2, por exemplo. Estas doenças estão ligadas ao estilo de vida sedentário, consumo excessivo de produtos açucarados, refrigerantes e “fast food”, bem como consumo de álcool e tabaco. Tudo aquilo que fizermos para alcançar um estilo de vida saudável contribui para a diminuição da probabilidade de vir a desenvolver essas doenças não transmissíveis.
D: O que podemos esperar da nutrição?
JG: Espero que num futuro próximo sejamos mais nutricionistas contratados em hospitais, Centros de Saúde, IPSS, clubes desportivos, etc., porque está mais do que provada a importância e o benefício de ter um/a nutricionista que possa orientar e vigiar a alimentação das pessoas, cada uma com o seu objetivo. Ainda somos muito poucos.