27 de Maio de 2022 | Coimbra
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ANTÓNIO CASTELO BRANCO

A bruxa na Gândara

14 de Junho 2019

Sou de uma terra onde sempre se foi à bruxa! Ir à bruxa era “sair”, procurar e saber da vida, deslindar os contratempos, inventariar os percalços, precaver os males, atalhar as desventuras, trazer os homens de volta, romper com relações pecaminosas, atentar contra os enguiços, urdir outros destinos! Por vezes confundia-se a bruxa com a benzedeira, sendo que esta tinha um papel interventivo diferente daquela, ao agir em redor de rezas e mezinhas que na maior parte das vezes lhe chegavam por hereditariedade e que ela mantinha ao assumir para si mesma uma auréola de beatice. Daí, muitas vezes, ser o filho da tia Beatriz Santa, quando esta não estava, quem da mesma forma tirava o aguado, endireitava a espinhela, rezava o responso por via da coisa perdida e as palavras para tirar o quebranto, o mal de inveja, o mau-olhado…

Esta era uma prática tão corrente por aqui como ir à missa ao domingo e as pessoas nem sequer se escusavam de dizer porque tinham recorrido a ela, e nem sequer era notória qualquer animosidade por parte do padre que ali tivesse jurisdição. A respeito da atuação das bruxas, as coisas levavam outro rumo, ou não tivessem tantas delas ido parar à fogueira no tempo da Inquisição. A Igreja sempre as perseguiu, já que a atuação de muitas colidia com procedimentos do foro religioso, quantas vezes no decurso das celebrações, como era o caso das pragas rogadas entre a elevação do cálice e da hóstia, da utilização da água-benta e do incenso, da terra que era trazida dos cemitérios aquando dos enterros…

Não diversificavam em muito o teor das questões que chegavam a estas mulheres pois a vida por aqui era em tudo muito igual e daí as probabilidades de elas irem adivinhando as razões porque eram procuradas. As deslocações destas às casas de quem a elas recorria eram seguidas de inúmeras práticas, onde, depois de visivelmente serem pintados a vermelho signos-saimão no chão de entrada e por cima das portas e janelas, se misturavam rezas com pragas acompanhadas de defumadoiros e de água-benta espargida, que havia sido surripiada de uma qualquer igreja. Ramos de alecrim, misturado com arruda eram por sua vez pendurados a par de ferraduras e de canelos dos bois, de patas de galinha e cristas de galo, de cruzes improvisadas viradas para baixo e para cima, de pedaços de terços partidos e de lamparinas de azeite, lado a lado com velas vermelhas que alumiavam indistintamente figuras de santos e de diabos que haviam sido espalhados por ali. Esta dicotomia de símbolos e objetos numa mesma prática é manifestamente expressiva de como nestas alturas o Diabo nunca era arredado de Deus e vice-versa, sendo comum ouvir-se que cada um tem o seu lugar.

Numa análise retrospetiva do que foi o percurso da Gândara e se nessa análise envolvermos o isolamento, o analfabetismo e a pobreza, não ficamos admirados do porquê deste recurso a estes oráculos. Era a necessidade que o exigia em termos de respostas para vidas cruéis e de infortúnio. Daí, fossem quais fossem as tais respostas, a realidade é que os males existiam mesmo, e daí a procura de soluções para o desconhecido a partir das crenças de cada um. E se pensarmos o que guiava por esse tempo uma mulher ou uma mãe a ir à bruxa por via do seu marido ou do seu filho andarem desarredados, e o que as levava a utilizar as práticas recomendadas para os trazer de volta – fosse por meio das purgas pardas ou de mistelas, onde chegavam a ser usados excrementos humanos e a sacrificar animais até à morte – se, na realidade, pensarmos o que levava por esse tempo aquelas mulheres sempre de preto, a procurar vida, quando não havia médicos, nem remédios, nem pão, mas tão só trabalho e muita fome, então entenderemos porque se ia à bruxa na minha terra!


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