Cerca de 115 idosos de Penacova, no distrito de Coimbra, estão a ser acompanhados pelo projeto “Estou CãoTigo”. A iniciativa, – que chegou ao município em setembro do ano passado -, visa combater a solidão e o isolamento social através de intervenções assistidas por cães.
Estimular o sistema cognitivo, emocional e motor de idosos que estão institucionalizados ou em situação de isolamento social: é esse o objetivo do “Estou CãoTigo”. Desenvolvido pela Associação Beira Aguieira de Apoio ao Deficiente Visual (ABAADV), o projeto realiza intervenções assistidas por cães direcionadas ao público sénior. A iniciativa teve início em Mortágua (Viseu), em 2022, tendo, posteriormente, alargado a sua atividade ao concelho da Mealhada e, mais recentemente, a Penacova, no distrito de Coimbra.
“Em termos demográficos, sabemos que territórios como os nossos têm um aumento considerável do número de pessoas idosas. Além disso, a tendência para a situação de isolamento e de solidão é grande”, explica Mafalda Vicente, presidente da ABAADV, em declarações ao “O Despertar”. Segundo a responsável, esta realidade, associada à desertificação das aldeias desses concelhos, “faz com que os mais velhos percam os seus laços relacionais”.
Assim, – e com o intuito de enfrentar esta problemática -, o “Estou CãoTigo” realiza visitas quinzenais a idosos institucionalizados e/ou sinalizados em situação de isolamento nos próprios domicílios. Tendo como promotor a Escola de Cães-Guia para Cegos, o projeto recorre aos animais que foram treinados para terem a função de cão-guia mas que, por várias razões, reveleram não ter as competências necessárias para o efeito.
“Não têm o que é preciso para ser um cão-guia. No entanto, reúnem muitas competências para poderem ser cães de intervenção. Isto porque já beneficiaram de um processo de trabalho, treino e educação significativo. Portanto, a iniciativa é importante também para dar um fim social a estes nossos cães”, revela Mafalda Vicente.
Mais-valias a vários níveis
Todas as intervenções do “Estou CãoTigo” são feitas por uma equipa técnica especializada, que inclui treinadores de cães-guia e um especialista em Gerontologia Social. A estes, juntam-se os cães da raça Labrador Retriever, que são presença contínua e que promovem as atividades desenvolvidas com cada um dos beneficiários do projeto. Estas são realizadas individualmente ou em pequenos grupos, de forma a que os resultados sejam o mais positivos possível.
“É sempre feito um diagnóstico individual onde é identificado aquilo que cada pessoa precisa, nomeadamente, em termos emocionais, cognitivos e motores. Depois, é traçado um plano de intervenção individualizada para se perceber em que áreas se vai atuar e, posteriormente, a nossa equipa técnica desenvolve um conjunto de atividades com o apoio do cão”, descreve a presidente da ABAADV.
Todos os idosos que chegam à iniciativa são, previamente, sinalizados pelas instituições do concelho, ou identificados pelos serviços de ação social do município. Atualmente, em Penacova, são cerca de 115 os séniores que estão a beneficiar destas intervenções que lhes trazem diversas mais-valias.
“Para além da dimensão emocional, há um apelo à memória, já que a maior parte destes idosos já teve animais na sua vida e, ao entrarem na instituição, ficou mais difícil de manterem essa relação”, sublinha a responsável. Não obstante, com a presença do cão, é também trabalhada a dimensão cognitiva. “Realizamos atividades, por exemplo, que estimulam a escrita (…) O animal vai transmitir tranquilidade, bem-estar e calma”, acrescenta.
Por fim, os benefícios também são visíveis do ponto de vista motor. “Com o mote de irmos passear o cão de trela, fazem-se caminhadas e promove-se a interação com outras pessoas da comunidade. Temos pessoas que já não saíam de casa há anos e, com esta dinâmica de levar o cão a passear, passam a sair de forma mais regular e a reintegrar-se na comunidade”, salienta ainda.
Para avaliar o real impacto da iniciativa, a ABAADV efetua um registo de todas as sessões. É dessa forma que a equipa tem percebido que os resultados têm correspondido às expectativas. “O mais interessante é que, até nas fotografias que colocamos nas redes sociais, há familiares e amigos daquelas pessoas que dizem que já não os viam sorrir assim há muito tempo. Isso é um indicador muito importante”, confessa Mafalda Vicente.
Cães “são muito ligados às pessoas”
As vantagens do projeto estendem-se aos animais que participam nas intervenções. Por serem “afáveis” e “sociáveis”, estes Labradores “gostam de estar em atividades e de trabalhar”, conta a responsável. Frisa, assim, que “eles [cães] sentem-se bem nesta dinâmica das intervenções, visto que são muito ligados às pessoas”.
Para além disso, o seu bem-estar é sempre garantido, já que é esse o principal pilar de trabalho da Escola de Cães-Guia. “Os nossos cães são cuidados, tratados e educados tendo em consideração não só as regras de bem-estar, mas também aqueles que são os nossos pressupostos éticos e de trabalho a esse nível”, reitera a profissional.
A atuar em Mortágua, Mealhada e Penacova, o “Estou CãoTigo” tem tido um papel ativo no combate à solidão em centenas de idosos, em parte graças ao apoio dos vários municípios que decidem dar uma oportunidade à iniciativa. De acordo com Mafalda Vicente, as autarquias estão cada vez mais preocupadas em garantir o envelhecimento ativo e saudável dos mais velhos. “Esse é o desígnio dos municípios com os quais temos vindo a trabalhar. Procuram respostas inovadoras, que promovam o bem-estar e a qualidade de vida dos seus idosos”, realça.
Nesse sentido, e face ao crescimento que se tem vindo a verificar ao longo dos anos, o projeto pretende continuar a expandir-se e chegar a mais localidades. “Esta é uma área de trabalho que a ABAADV iniciou e que quer manter. Queremos continuar a trabalhar na área das intervenções assistidas por cães, colocando ao serviço da comunidade todos os recursos existentes na nossa instituição para esta resposta”, conclui.
Cátia Barbosa
»» [Reportagem da edição impressa no “O Despertar” de 4/09/2026]