28 de Agosto de 2026 | Coimbra
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Uma Baixa entre a memória e a transformação

28 de Agosto 2026

Entre o Mondego e a Alta, a Baixa de Coimbra concentra parte da memória comercial, académica e social da cidade, das ruas Ferreira Borges e Visconde da Luz à Praça do Comércio e à Rua da Sofia. O comércio tradicional, os cafés históricos e o património convivem hoje com novos negócios, visitantes e projetos de regeneração urbana, num território que procura reencontrar uma função central na vida da cidade.

A revitalização assenta numa estratégia de longo prazo, com horizonte em 2029, destinada a responder a problemas acumulados ao longo de décadas, como a perda de população, a degradação do edificado, o enfraquecimento do comércio e o excesso de tráfego automóvel. O chamado Plano Marshall para a Baixa de Coimbra reúne 137 medidas nas áreas da habitação, mobilidade, espaço público, património, cultura, ensino e atividade económica.

Mais do que uma operação de requalificação física, a estratégia pretende recuperar a vida urbana através da atração de moradores e estudantes, da melhoria da mobilidade, da dinamização do comércio e do reforço da oferta cultural. A questão é saber se esta transformação conseguirá devolver à Baixa uma comunidade permanente e voltar a aproximá-la dos próprios conimbricenses.

 

Moradores e estudantes para devolver vida à Baixa

A recuperação da função residencial constitui um dos pilares da estratégia municipal, através da reabilitação de edifícios para diferentes modalidades de habitação e da criação de residências universitárias. O objetivo passa por fazer com que a Baixa deixe de ser sobretudo um espaço de passagem, comércio ou visita e volte a ter uma utilização quotidiana.

Para José Cruz, sócio do Café Santa Cruz, essa é uma condição essencial para inverter o declínio do centro histórico. “Moradores, sem sombra de dúvida. Lojas-âncora, sem sombra de dúvida. E uma política cultural mais constante”, aponta. O responsável recorda que, quando começou a trabalhar no café, há mais de três décadas, existia uma presença estudantil muito superior. “Quando eu vim trabalhar para o Santa Cruz há 32 anos moravam aqui na zona 1 500 estudantes ou mais. Era uma comunidade que fazia do Santa Cruz sala de estudos. Hoje isso não existe”, afirma.

Luís Oliveira, responsável pelo Café Nicola, também considera indispensável recuperar a função residencial, mas alerta para a necessidade de criar condições para viver no centro histórico. “Uma pessoa que queira viver na Baixa, onde é que vai estacionar o carro? De que forma é que se vai deslocar?”, questiona, apontando ainda a falta de comércio e serviços de proximidade.

 

É neste contexto que se enquadra a expansão do Instituto Superior Miguel Torga (ISMT), que vai instalar parte da sua atividade em dois edifícios municipais na Rua Ferreira Borges, mantendo o polo de Celas em funcionamento. A mudança, prevista para 14 de setembro, resulta, segundo Manuel Castelo Branco, de uma vontade concertada entre o ISMT, a Comunidade Intermunicipal da Região de Coimbra e o Município. Para o presidente da instituição, a instalação na Baixa aproxima uma escola com 90 anos de presença em Coimbra do espaço onde se encontra uma parte fundamental da origem académica da cidade O responsável considera que a presença do instituto poderá contribuir para devolver uma comunidade permanente ao centro histórico, distinguindo-a da circulação temporária associada ao turismo. “O movimento trazido a uma Baixa, ao coração de uma cidade, pelo turismo, embora muito relevante, embora economicamente muito importante, não substitui a presença, a residência física”, afirma. Estudantes, professores, funcionários e formandos, além de participantes em pós-graduações, colóquios, conferências e outras iniciativas, passarão a frequentar aquele espaço. “Uma escola instalar se em pleno coração da Baixa é levar residentes e não turistas de passagem para o coração da cidade”, acrescenta. Para Manuel Castelo Branco, a mudança recupera também uma dimensão histórica da relação entre Coimbra e a Academia. Até às décadas de 1970 e 1980, recorda, “os cafés da Baixa eram cafés de estudantes, as tertúlias eram tertúlias de estudantes e dos seus professores também”. “O campus é a cidade”, resume, considerando simbólica a instalação no eixo do Mosteiro de Santa Cruz e Rua da Sofia, onde encontra as origens da Universidade. O ISMT prevê levar para a Baixa atividades para além das aulas, incluindo colóquios, conferências, cursos breves e pós-graduações, enquanto as festas académicas deverão igualmente passar pela Praça do Comércio ou Rua Ferreira Borges. Manuel Castelo Branco antecipa efeitos no comércio, na habitação e na relação entre a comunidade académica e o centro, embora admita que “o impacto máximo não é imediato”.

Luís Oliveira vê a mudança como positiva, mas considera que a atual estrutura comercial ainda não está preparada para uma nova população estudantil. “A zona da Baixa de Coimbra neste momento é uma zona virada para o turismo, e os preços, o comércio, a própria restauração, não está preparada para um público-alvo que são os estudantes”, sustenta. José Cruz é mais cauteloso: “A vida estudantil não dinamiza muito o comércio tradicional, dinamiza os cafés e os restaurantes”. Ainda assim, resume a estratégia necessária em dois pilares: “Trazer pessoas para morar na Baixa e trazer lojas”.

Comércio procura novos públicos

A recuperação do comércio é outra das dimensões centrais da estratégia e uma das áreas onde mais se fazem sentir as transformações das últimas décadas.

Para Luís Oliveira, o aparecimento dos grandes centros comerciais retirou atividade à Baixa. Desde então, perderam-se serviços, lojas e diferentes tipos de comércio,

 

enquanto o turismo se tornou uma importante fonte de procura. “É insustentável ter um negócio na Baixa se o turismo reduzir, ou baixar”, sustenta, defendendo a necessidade de voltar a atrair os conimbricenses.

José Cruz identifica a ausência de grandes marcas e lojas-âncora como um dos principais problemas. “Era fundamental que se conseguisse trazer marcas para a Baixa, criar lojas-âncora, criar condições para que as grandes marcas saíssem dos centros comerciais e viessem para a Baixa”, defende. “Não havendo lojas-âncora, não temos portugueses”, acrescenta.

Apesar das dificuldades, Luís Oliveira reconhece sinais positivos decorrentes da requalificação, nomeadamente o aparecimento de novos comerciantes. A recuperação de edifícios e o crescimento do alojamento local e de novos negócios aumentaram também a presença temporária no centro, mas não resolveram a falta de comércio de proximidade e serviços dirigidos a uma população residente. A transformação económica e social coloca igualmente em discussão a identidade histórica da Baixa. Luís Oliveira admite que existe um risco de perda de identidade, embora considere inevitável alguma adaptação. Defende, contudo, que a modernização não deve significar o desaparecimento dos estabelecimentos históricos nem a descaracterização dos edifícios. “É importante que haja uma firmeza e que haja um controlo daquilo que é feito na Baixa, no sentido de não perdermos a identidade das fachadas, dos imóveis e, em alguns casos, dos comércios históricos”, sustenta.

José Cruz partilha a preocupação. “Dói ver a Baixa”, afirma, recordando a Rua Avelino Veiga, que considera ter sido “a melhor rua de comércio da cidade”.

Manuel Castelo Branco rejeita, porém, que revitalizar signifique regressar ao modelo do passado. “As micro comunidades do presente e do futuro não serão iguais nem deveriam ser. Os tempos mudaram”, afirma. Para o presidente do ISMT, “a reabilitação urbanística não basta”, sendo necessário criar comunidades residenciais, capazes de gerar cafés, restaurantes, creches, associações e outras estruturas de proximidade. “Nós temos de criar as micro comunidades do presente e do futuro. E não regressar melancolicamente ao passado”, sustenta.

 

Cultura, segurança e mobilidade

A revitalização passa também pela capacidade de criar movimento ao longo do ano. José Cruz defende uma programação cultural mais regular, capaz de criar hábitos entre residentes e visitantes, recordando iniciativas realizadas anteriormente na Praça 8 de Maio. “Se as iniciativas fossem, por exemplo, semanais, as pessoas habituam-se”, considera. As grandes manifestações populares continuam, segundo o comerciante, a demonstrar a capacidade do centro histórico para atrair milhares de pessoas. A segurança é, contudo, outra das preocupações que aponta, considerando que a

 

perceção de insegurança associada à Baixa constitui um obstáculo à recuperação e à utilização do espaço público.

A mobilidade é outra das áreas onde a transformação poderá ter maior impacto. A entrada do Sistema de Mobilidade do Mondego (Metrobus) deverá alterar os percursos dos transportes públicos e a circulação automóvel, enquanto a futura Estação Intermodal em Coimbra-B e a reconversão da Estação Nova poderão modificar a relação entre o centro histórico, a zona ferroviária e a frente ribeirinha.

Para Luís Oliveira, melhorar a acessibilidade é indispensável. “A questão da acessibilidade é garantir que há acessibilidade e boa acessibilidade à Baixa, e não só de transportes públicos, mas também para os transportes individuais e para os turistas que venham à cidade”, afirma. O responsável considera que o Metrobus pode constituir uma oportunidade, desde que articulado com estacionamento e com a receção dos turistas.

José Cruz mostra-se mais reservado quanto à capacidade da nova rede para alterar rapidamente os hábitos de quem deixou de se deslocar ao centro. “As minhas expectativas são reservadas. As pessoas não acreditam nos transportes públicos”, afirma. “Primeiro que as pessoas se habituem que a um Metro que funciona a tempos e horas e é regular… não vai ser fácil”. O comerciante questiona igualmente a oferta de estacionamento e critica a perda da ligação ferroviária direta à Estação Nova, que considera prejudicial para o centro histórico. “Eu acho que a Baixa perdeu, e vai-se notar cada vez mais”, afirma.

 

Entre turismo e população local

O turismo tornou-se uma das principais fontes de movimento económico da Baixa, mas os comerciantes consideram que não pode constituir a única resposta para o futuro.

Luís Oliveira reconhece a importância dos visitantes, mas defende um equilíbrio. “É preciso conseguirmos moldar e ajustar a Baixa entre aquilo que é o turismo e entre aquilo que são os conimbricenses”, afirma. Para o responsável do Café Nicola, é necessário atrair empresas, marcas e equipamentos capazes de voltar a levar famílias, jovens e consumidores locais ao centro.

José Cruz aponta igualmente para a conjugação entre residentes, comércio e cultura. “Se conseguisse conjugar essas iniciativas, penso que se daria a volta ao texto e se daria volta à Baixa”, afirma.

Manuel Castelo Branco coloca a necessidade de criar comunidades no centro da própria mudança do ISMT. Para o presidente do instituto, a expansão da sociedade de consumo e dos centros comerciais contribuiu para enfraquecer o comércio tradicional e a vida comunitária dos centros históricos, mas as prioridades das gerações mais jovens estão a mudar. “A necessidade e a urgência de comunidade, ou de comunidades,

 

é cada vez maior”, sustenta, defendendo que a revitalização passará pela criação dessas pequenas comunidades urbanas.

O conjunto de intervenções em curso procura responder a problemas identificados há vários anos e agravados pela perda de população, degradação do edificado e deslocação da atividade comercial para novas centralidades. A requalificação física começa a alterar o espaço urbano e permitiu o aparecimento de novos comerciantes e alojamentos. A expansão do ISMT e o aumento do alojamento estudantil poderão acrescentar uma nova comunidade, enquanto o Metrobus e a reorganização dos transportes poderão mudar a forma como se chega ao centro.

Para os comerciantes, porém, a transformação ainda não se traduziu numa recuperação suficientemente clara da vida quotidiana. Questionado sobre os resultados do chamado Plano Marshall, José Cruz é direto: “Não se sentem”. Luís Oliveira apresenta uma leitura mais favorável, reconhecendo a recuperação de edifícios, novos negócios e uma maior presença temporária, mas considera o processo incompleto. “Continuamos desfalcados”, resume.

Para Manuel Castelo Branco, é precisamente aí que reside a diferença entre reabilitar fisicamente a Baixa e revitalizá-la enquanto espaço urbano. O ISMT será apenas uma das peças desse processo. “Nós somos uma escola de dimensão comunitária, uma escola familiar. Até nesse aspeto, nós já somos uma micro comunidade que irá para a Baixa. E é com micro comunidades que a Baixa se revitalizará”, afirma. A Baixa dificilmente regressará ao modelo que conheceu há várias décadas. A questão é saber se conseguirá transformar a sua memória numa nova centralidade, capaz de conciliar património e inovação, residentes e visitantes, comércio tradicional e novas atividades. Como resume Manuel Castelo Branco: “Não é regressar ao passado. Nada regressa ao passado. É regressar ao futuro”.


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