30 de Agosto de 2026 | Coimbra
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Pedro Falcão

Perspetivas culturais

28 de Agosto 2026

A perspetiva tradicional das relações culturais – etnocentrismo ou monoculturalismo – já há muito tempo foi ultrapassada na civilização ocidental. Nessa conceção, existia uma tendência para colocar no centro e sobrevalorizar uma cultura, que se apresentava como dominante, considerando os seus valores e padrões culturais como superiores em relação a outras culturas e não se aceitando os que adotam modos de vida culturais diferentes. Fenómenos como os nacionalismos, o racismo, a xenofobia e o fundamentalismo, estão associados ao etnocentrismo, conduzindo a todos os tipos de discriminação e, quase sempre, de violência sem sentido. Nesta conceção reina a intolerância por tudo o que é diferente dos valores e costumes da cultura que se apresenta como dominante.

O multiculturalismo, pelo contrário e como aceitação da diferença cultural de cada um, abriu uma nova mentalidade cultural, diversa daquela, ao proclamar e promover o respeito e tolerância pela diversidade cultural dos povos, aceitando a coexistência das diferenças culturais (“O respeito pela diferença é o primeiro passo para a harmonia entre os povos”). No entanto, o multiculturalismo desenvolveu uma visão estática das culturas, não se favorecendo, de acordo com esta conceção, o diálogo intercultural. Promove, então, a separação entre as culturas considerando que o mais importante é preservar as tradições de cada cultura devendo, cada uma, defender e promover os seus próprios valores, encerrada em si mesma, apesar de algumas das práticas culturais serem intoleráveis, uma vez que, segundo esta perspetiva, não existem critérios universais de avaliação das culturas, devendo-se mesmo tolerar essas práticas e valores. Mas, assente em critérios axiológicos universais, a relação entre culturas deve pautar-se pelo diálogo intercultural e pela unidade na diversidade cultural com o intercâmbio de valores e costumes, enriquecendo-se as múltiplas culturas. O interculturalismo, recente perspetiva das relações entre culturas, promove o humanismo, defendendo a humanidade, como um todo, para além das diferenças culturais. Enquanto o multiculturalismo reconhece e aceita a existência de várias culturas num mesmo espaço, o interculturalismo propõe “a construção de pontes” entre elas, transformando a coexistência pacífica das plurais culturas em convivência ativa. Por isso mesmo, “a diversidade cultural não é um problema a resolver, mas uma riqueza a partilhar”. Como afirmou o escritor americano e ativista social, Robert Alan, “as diferenças culturais não deveriam separar-nos uns dos outros, mas sim trazer uma força coletiva capaz de beneficiar toda a humanidade”. Nas sociedades multiculturais deste mundo globalizado em que vivemos, promove-se já, hoje em dia, este diálogo entre as práticas culturais das diferentes culturas coexistentes, estabelecendo-se um intercâmbio saudável e equilibrado e com uma melhor aceitação dos imigrantes que chegam, trazendo a sua cultura: a miscigenação tornou-se um processo natural e aceite como normal nos diferentes países que acolhem imigrantes. Estes partilham traços da sua cultura com as culturas originárias dos países que os recebem e onde se integram. É necessário, nos tempos atuais, combater o preconceito e a discriminação, reafirmando a empatia, o respeito mútuo e a aprendizagem partilhada entre as diferentes culturas.

Quando aceitamos e integramos outras culturas não perdemos a nossa identidade, mas, pelo contrário, alargamos os nossos horizontes e estabelecemos encontros que nos enriquecem.


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