25 de Julho de 2026 | Coimbra
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Pedro Falcão

Pensa por ti mesmo

24 de Julho 2026

“Pensa por ti mesmo” defendia o filósofo Immanuel Kant (1724-1804) incentivando a autonomia intelectual. Para Kant, o iluminismo, ou idade da razão, época do Esclarecimento, representava a saída do Homem da menoridade, usando a própria razão para pensar “sem a direção de outrem”: “sapere aude” (ousa saber/tem a coragem de te servires do teu próprio entendimento) era o lema do iluminismo popularizado por Kant. Segundo este filósofo, é cómodo ser “menor” pois não precisamos de nos esforçar, podendo ser orientados por outros. É difícil a cada homem desprender-se da menoridade pois é incapaz de se servir do próprio entendimento porque nunca tentou. A maioria das pessoas vive numa “condição de menoridade intelectual” por preguiça e covardia. Nós somos culpados por esta condição, porque não se trata de falta de inteligência ou falta de capacidade biológica, mas sim de falta de coragem, determinação e resolução para agir e pensar de forma independente. É mais confortável deixar que um livro pense por nós, que um líder espiritual dite a nossa moral ou que um algoritmo escolha o que consumimos.  Pensar por si mesmo é fazer a transição da heteronomia, em que somos guiados pelas regras de outros, exteriores à nossa razão, para a autonomia, sendo que nos guiamos pela nossa própria razão:  por isso, o filósofo é aquele que deve fazer um uso livre e pessoal da razão e não servil e imitador, defende Kant.

Também o filósofo Arthur Shopenhauer (1788-1860) faz uma crítica contundente à erudição passiva argumentando que ler em demasia, sem espírito crítico, obriga a mente a processar pensamentos alheios, atrofiando a nossa própria capacidade reflexiva: o verdadeiro pensador é o que observa o “livro do mundo” diretamente: apenas uma verdade, alcançada pela reflexão individual tem mais valor do que cem verdades absorvidas de livros sem serem devidamente meditadas. Para este filósofo, o excesso de informação e de erudição é o maior inimigo do pensamento original e pessoal. “Ler significa pensar com a cabeça de outra pessoa em vez de pensar com a própria” e “Quem passa o dia inteiro a ler perde progressivamente a capacidade de refletir por si próprio” (Schopenhauer em “Do Pensar Por Si Mesmo”): o erudito, que absorve livros sem parar, acaba por sofrer um bloqueio intelectual. Então, o verdadeiro pensador prefere desenvolver um sistema coerente de ideias nascido da sua própria observação da realidade.

Ainda, a filósofa Hannah Arendt (1906-1975) defende que o pensar por si mesmo é um dever ético e um entrave à barbárie política, porque a ausência daquela capacidade transforma indivíduos comuns em cúmplices de regimes políticos ditatoriais e destrutivos e numa ditadura quem pensa por si mesmo torna-se num elemento de resistência, recusando aceitar ordens mecanicamente sem antes as submeter ao crivo da sua própria consciência. Esta filósofa define o ato de pensar como um “diálogo silencioso entre eu e eu próprio” e afirma que “não existem pensamentos perigosos; o próprio ato de pensar é perigoso”: o pensamento próprio e livre abala certezas e convicções e recusa os preconceitos e dogmas que se instalam acriticamente nas pessoas: “um homem livre não está preso aos preconceitos do seu tempo” (Bertrand Russell).

Concluindo, pensar por si mesmo é sinónimo de liberdade, sem coações externas e sem limites, podendo um pensamento crítico desenvolver ideias originais e apresentar soluções inesperadas para os vários problemas que se nos colocam diariamente. Pensamento próprio e deliberação individual e liberta de esquemas de ideias impostos exteriormente podem conduzir a decisões pessoais originais e surpreendentes.

 


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