SOCIEDADE // O “Corteza Patagónica” abriu, há cerca de um ano, no Caras Direitas, em Buarcos, na Figueira da Foz. Com vista a recuperar a arte de moldar o barro, o estúdio de olaria realiza vários workshops que atraem diferentes gerações do distrito de Coimbra.
Decidida a mudar de vida e a começar do zero, Martina Allende não hesitou quando o seu grupo de amigos lhe falou da qualidade de vida em Portugal. A segurança, aliada à aprendizagem de uma nova língua, convenceu, de imediato, a jovem, o marido e os filhos a escolherem o país para darem início a uma nova etapa em família.
“Primeiro, vivemos em Lisboa cerca de um mês, mas eu não gostei porque é uma cidade muito grande”, recorda Martina Allende, em declarações ao jornal “O Despertar”. Por isso, depois de ouvirem pessoas próximas tecer diversos elogios à Figueira da Foz, encontraram, definitivamente, o novo lar. “É muito mais tranquilo. Gostamos muito de estar perto do mar”, confessa.
Acostumada a criar peças de cerâmica desde o tempo em que vivia na Argentina, a jovem empreendedora começou por trabalhar numa fábrica assim que aterrou em Portugal. Mais tarde, dedicou-se à restauração, no entanto, a busca por melhores condições levou-a a aceitar o convite de uma amiga, que dá aulas de yoga no Caras Direitas, para fazer workshops de cerâmica nesse mesmo espaço.
“As pessoas gostaram muito da experiência e, por isso, comecei a dar mais workshops em sítios diferentes”, afirma. A elevada procura resultou na abertura do seu próprio atelier, em Buarcos, onde Martina ensina a arte de moldar o barro a pessoas de várias idades e nacionalidades.
Arte permite que pessoas se reconectem
Pelo “Corteza Patagónica” passam, frequentemente, diversos públicos. Entre crianças que, segundo a fundadora, “adoram vir brincar com o barro”, e adultos que “procuram uma atividade diferente”, há espaço para todos os que querem aprender. “Eu já fiz workshops privados para casais, famílias, grupos de amigos, despedidas de solteiro e até equipas de trabalho”, refere Martina Allende. Na base da procura por esta experiência está, sobretudo, a vontade de “descontrair e conectarem-se uns com os outros”.
Além destas aulas privadas, o atelier oferece ainda aulas grupais fixas às quintas, sextas e sábados, bem como workshops específicos, uma a duas vezes por mês. “Por norma, eu ensino duas técnicas básicas e eles [participantes] escolhem o que querem fazer com elas”, explica. Durante duas horas, a peça é construída, sendo que, posteriormente, é deixada no estúdio para que possa ir ao forno e secar. Assim que está pronta, as pessoas podem ir levantá-la e levar para casa uma criação própria, única e original.
“Eu ensino a técnica para que cada um a possa fazer de uma forma distinta. Portanto, as peças são sempre únicas. Além disso, também realizo workhops para as pessoas que apenas queiram pintar as peças”, adianta, mencionando o evento “pinta a tua bowl de Ramen”, realizado no passado sábado, dia 11 de abril.
Quer seja a pintar ou a criar, o certo é que são cada vez mais as pessoas que querem usufruir de um momento diferente. Grande parte dos participantes vêm do distrito de Coimbra e arredores e engane-se quem acredita que só os portugueses se envolvem nesta Arte. À sexta-feira, por exemplo, o “Corteza Patagónica” abre portas a visitantes dos Estados Unidos, Alemanha, Bélgica, Canadá e Venezuela. “É muito giro. Cada pessoa tem ideia do que faz no seu país com a cerâmica. É muito interessante e cultural”, sublinha Martina.
Mexer no barro é mexer na terra
Habituada a trabalhar a cerâmica, a jovem garante que não sentiu dificuldades em adaptar-se ao método de trabalho em Portugal. “As técnicas são quase as mesmas. Talvez as formas de pintar sejam um pouco distintas, mas Portugal tem uma história grande com a cerâmica e as técnicas são similares àquelas com as quais trabalhava na Argentina”, salienta.
No entanto, para os mais inexperientes, esta pode ser uma Arte difícil e é isso que muitos dos participantes sentem quando iniciam os workshops. “As pessoas imaginam que trabalhar com o barro é muito fácil, porque veem os vídeos no Instagram, mas quando chegam à prática percebem que não é tão fácil como parece”, expõe. Apesar dos desafios, Martina assegura que quase todos os alunos regressam e trazem consigo novos curiosos.
“Acho que as pessoas estão a gostar de desconectar-se do telemóvel e poder conectar-se com o barro e com a sua própria criatividade. O barro vem da terra e, portanto, acabam também por se conectar com a terra”, frisa a fundadora do “Corteza Patagónica”. Na sua opinião, há cada vez mais pessoas que procuram este tipo de experiências porque “gostam de ter tempo para fazer algo diferente”, mas também “porque é muito relaxante (…) é quase uma terapia”.
Além de palco de aprendizagem, o atelier é ainda o berço de inúmeras criações de Martina Allende. A jovem também faz peças por encomenda e, nesse sentido, qualquer pessoa pode contactar o estúdio, através das redes sociais, para um trabalho personalizado.
Há cerca de dois anos e meio a habitar Portugal, Martina não poderia estar mais satisfeita com a realidade que encontrou, sobretudo, no que diz respeito a uma Arte que ama e respeita. “Conheci muitas pessoas aqui que estão dedicadas à cerâmica; famílias inteiras de oleiros. A cerâmica está viva em Portugal”, remata.
Cátia Barbosa
»» [Reportagem da edição impressa no “O Despertar” de 30/04/2026]