30 de Abril de 2026 | Coimbra
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Martinho

A CONTROVÉRSIA TEOLÓGICA ENTRE ERASMO E LUTERO

30 de Abril 2026

              As lutas doutrinárias e ideológicas entre Erasmo de Roterdão e Martinho Lutero, de Wittenberg, numa linguagem solta, deviam considerar-se homogéneas, por que ambos tiveram uma formação monástica e idênticos resultados académicos que os deveriam ter influenciado, mas divergiram na substância da doutrina teológica e, desde logo, por que “ Erasmo tinha uma vontade renovadora e não revolucionária e, horrorizado com o fanatismo, não conseguiu vislumbrar nas teses de Lutero o eco do seu pensamento, condenando-as publicamente numa época que galopava em direção à paixão. O seu esforço de equidistância serviu apenas para antagonizá-los com todos os bandos. ´

Embora os partidários de Erasmo tendessem a avaliar Lutero como um espírito semelhante ao daquele, o que valorizavam como normal, os dois enfrentavam a teologia escolástica (que requeria acima de tudo seguir o exemplo de Cristo), exigiam a renovação da Igreja e protestavam contra os seus abusos, ao mesmo tempo que rejeitavam a espiritualidade dos conventos.

Tal como o próprio nome indicia, Lutero expôs na sua cidade natal a tese principal do luteranismo e as suas obras: “A Nobreza Cristã da Nação Alemã sobre a Reforma da Condição Cristã”; “O Cativeiro Babilónico da Igreja” e a “Liberdade do Cristão” que pareciam destinadas a transformar radicalmente a Igreja, instaurando uma religião muito diferente — o protestantismo. Em consequência, Lutero foi excomungado, não só pelas suas ideias reformistas, mas ainda por ter queimado a bula papal (Exsurge Domine), da sua condenação pelo papa Leão X, na intitulada Dieta de Worms, em que rejeitava a autoridade papal.

Como se infere destas refregas religiosas entre os antagonistas, somos tentados a afirmar que as suas visões filosóficas centradas na demonstração da cultura clássica (boas letras), de cada um deles – por que tendo recebido a tal educação escolástica severa e professado a via eclesiástica, a par do que até lecionaram em diversas universidades – isso não foi bastante para atenuar e até anular as diferenças de pensamento?

Esta dissidência de confissões religiosas dentro do cristianismo (católica e protestante), ofuscaram desde logo a componente literária não confessional, com temáticas do conhecimento de literatura geral. Erasmo destacou-se como um dos maiores humanistas e filósofo de grande influência social, e representante do primeiro humanismo cristão.

Escreveu a obra mais lembrada, e ainda hoje lida, “O Elogio da Loucura”, com um discurso aparentemente contraditório mas de grande eficácia, onde denunciava os excessos, os enganos, as armadilhas da linguagem (sofisma), ou a conduta oposta que correspondia ao que se dizia ou deveria ser; “Hyperaspistes” (o escudo protetor); “Sobre a Restauração da Concórdia da Igreja” (na qual tenta pôr fim à controvérsia com o luteranismo, que envia ao papa Paulo III”); e “O Livre Arbítrio”, cuja tese confrontava com o determinismo (predestinação) de Lutero  – pela graça ou pela fé em alcançar a salvação divina.

Na última vez que Erasmo e Lutero se corresponderam, com grande azedume, a carta deste último não sobreviveu. Este nunca respondeu a “A Hyperaspistes”, para mostrar o seu desprezo por Erasmo. Após a troca de mimos entre ambos: do lado de Lutero apodando-o de “víbora” e do de Erasmo, “a carta do bêbado Lutero”, além de outras atitudes assimétricas, no campo do ecletismo, o confronto não foi resolvido com a vitória absoluta de qualquer um deles e as insatisfações que provocou foram demasiadas.

“Nessa tão acesa polémica, a qual encenava uma aproximação confabulatória, sublinha-se que Erasmo nunca abandonou a esperança de superar as diferenças entre os cristãos. Defendia uma condescendência, uma espécie de renúncia mútua à imposição do próprio e à anulação do alheio, aceitando os diferentes ritos”. Talvez a sensação do fracasso o tenha acompanhado nos seus últimos anos. Grande parte da Europa Central rendera-se ao protestantismo e as diferenças entre os reformistas multiplicavam-se. Por exemplo, a Itália continuava a ser considerada mais próxima do luteranismo do que do catolicismo, o que configurava a derrota de Erasmo e a vitória de Lutero

Este cisma parece adequar-se às “Guerras de Alecrim e Manjerona”.

(cfr. literatura vária e cadernos de Filosofia).


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