1 de Maio de 2026 | Coimbra
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PAJE já apoiou mais de 450 jovens de todo o país

10 de Janeiro 2025

O “pajé” é uma pessoa de destaque em certos povos indígenas da América do Sul. A denominação é, sobretudo, associada a alguém que é mais velho; que orienta, indica caminhos e aconselha. É com base nesse significado que nasce a PAJE – Plataforma de Apoio a Jovens (Ex) Acolhidos. Apesar de estar sediada em Coimbra, a iniciativa presta um apoio único em Portugal, tendo já ajudado mais de 450 pessoas em todo o país.

“Um dos nossos símbolos é um índio, precisamente, porque entendemos que muitos destes jovens precisam de pajés; pessoas em quem eles confiam e que os possam encaminhar”, explica o presidente da PAJE, João Pedro Gaspar, em declarações ao “O Despertar”. Nesse sentido, a plataforma prima por defender a discriminação positiva para quem foi vítima precoce. “Alguém que foi privado de um direito fundamental, – que é o direito de crescer em família -, merece justiça social”, acrescenta.

O início de um projeto diferenciador

João Pedro Gaspar apercebeu-se da necessidade de um projeto como este há, sensivelmente, dez anos. Depois de quase duas décadas a trabalhar em casas de acolhimento, o responsável identificou que as dificuldades que os jovens sentiam eram ainda maiores no pós-acolhimento. A escassez de preparação, aliada à falta de um apoio de retaguarda, levava a que estes vivessem em sofrimento. Foi por essa altura que o atual presidente da PAJE decidiu fazer alguma coisa. “Percebi que tinha de fazer uma intervenção ainda durante o acolhimento”, recorda.

Assim, avançou para um Doutoramento, na Universidade de Coimbra, o primeiro, no país, sobre transição para o pós-acolhimento e autonomização. É no âmbito desse projeto de investigação que acaba por nascer a PAJE. Esta acabaria, mais tarde, por ser estatutariamente constituída sendo que, atualmente, a plataforma já conta com instalações que permitem um acolhimento temporário em caso de emergência.

Além disso, o projeto presta outros tipos de apoio, nomeadamente, visitar os jovens na prisão, em entidades de saúde psiquiátrica ou retirá-los da condição de sem-abrigo. O auxílio estende-se ainda a questões mais burocráticas, como a inserção profissional. “Treinamos as competências para entrevistas, elaboração do currículo, respeito pelas hierarquias, cumprimento de horários e responsabilização”, esclarece João Pedro Gaspar. Ações que têm obtido bons resultados, já que conseguiram empregar dezenas de jovens.

O presidente da iniciativa revela ainda que esta se esforça por melhorar o perfil de saída destas pessoas. “Tentamos que quem está numa casa de acolhimento saia mais capacitado. Para isso, temos projetos que passam pela formação dos cuidadores, mas também pela intervenção junto dos jovens, sobretudo, no que diz respeito à orientação vocacional e ao auto-conhecimento”, sublinha.

Não obstante, existe também a preocupação de “tirar o véu” da invisibilidade a esta franja da população em Portugal. “Fazemos com que a sociedade civil perceba que falamos de uma população particularmente vulnerável e que precisa de discriminação positiva (…) Realizamos palestras em todo o país e até no estrangeiro”, adianta o responsável.

As alterações legislativas

Para além da comunidade, em geral, o trabalho da PAJE tem-se feito sentir também junto da academia (onde acompanha estudos sobre o tema), e dos decisores políticos. “Já conseguimos diversas participações em alterações legislativas. Uma delas partiu inteiramente de nós: o direito ao arrependimento”, lembra João Pedro Gaspar. Esta alteração, de 2023, permite que quem deixa a casa de acolhimento aos 18 anos tenha a possibilidade de regressar, algo que, até então, não era possível.

“Sinto que, atualmente, nos corredores ministeriais, a expressão ‘ex acolhidos’ já é falada e legislada. Já não é tão estranho nem tão insólito como antigamente”, admite o presidente da PAJE. De acordo com o responsável, mais do que transformar a vida destes jovens, estas mudanças contribuem para melhorar o seu emocional. É a partir desse alicerce que tudo o resto acontece.

“Queremos muito que se valorizem e desenvolvam a imagem que têm deles próprios”, salienta. Há nove anos a lutar para que essa seja uma realidade, a PAJE não podia estar mais satisfeita com o feedback “muito positivo” que tem obtido. “Posso dizer que é bom ser acordado a meio da noite para partilharem comigo a alegria de terem sido pais; também é muito bom quando aparecem de carro, porque conseguiram tirar a carta de condução; ou que dentro da empresa onde os colocámos a trabalhar já são eles próprios que ajudam outros a entrar para lá”, orgulha-se o responsável.

Prémio Direitos Humanos

As respostas que a PAJE tem vindo a dar ao longo dos últimos anos conferiram-lhe o Prémio Direitos Humanos. O galardão foi atribuído, no ano passado, pela Assembleia da República, à plataforma. Já este ano, em meados de novembro, o projeto recebeu ainda um dos prémios da Fundação Manuel António da Mota.

A este propósito, João Pedro Gaspar frisa que “mais do que prémios, o que nos importa é o reconhecimento da causa”. Causa essa que é celebrada, anualmente, no Dia do Acolhimento. A data, que costuma ser assinalada na terceira sexta-feira de fevereiro, será, em 2025, comemorada no dia 21 desse mês. Nessa altura, será realizado um seminário na Fundação Bissaya Barreto, em Coimbra, que vai reunir diversos especialistas, nacionais e internacionais, para debater o tema do acolhimento e pós-acolhimento.

 Até lá, a PAJE vai continuar a lutar por criar condições para alterar o paradigma de jovens que, todos os anos, saem do sistema de acolhimento em Portugal. “Tentamos sempre incutir a quem chega até nós a especificidade que é trabalhar com quem viu privado o direito de crescer em família (…) Por vezes, é isso que os jovens nos escrevem: ‘ainda bem que encontrei alguém que me aceita tal como sou’”, conclui João Pedro Gaspar.

 


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