Queridos leitores, esta semana escrevo sobre uma palavra da língua castelhana – sobremesa – igual a uma palavra portuguesa, mas com um significado bastante diferente.
Sobremesa é uma palavra muito utilizada no país vizinho, e refere-se ao prolongado período passado à mesa no final de uma refeição, normalmente o almoço. É um momento de prazer, saboreado na companhia de familiares e/ou amigos, em refeições partilhadas onde não se olha para o relógio (nem para o telemóvel).
Antes de viver em Espanha eu já gostava da sobremesa. As minhas memórias de refeições em família remetem-me para os almoços de domingo, na casa dos avós do Luso. Ali reunia-se semanalmente toda a família: avós, pais, tios, primos e as meninas. Eu era (e continuo a ser) a mais nova dos 5 netos dos avós do Luso, e já naqueles tempos me encantava com a sobremesa. Aquele era o momento do chá e das bolachas Maria… aquele era o momento em que a conversa “escapava” para a política e eu lembro-me de gostar de política desde sempre (e para sempre) … aquele era o momento em que as gargalhadas das crianças eram a banda sonora do filme das nossas vidas… aquele era o momento em que a palavra felicidade se escrevia com letras maiúsculas… aquele era o tempo em que não nos faltava tempo!
Nos meus tempos de estudante, nos muitos jantares de curso com colegas, aproveitava a sobremesa para encher de letras as toalhas de papel. Hoje quando os meus colegas e eu nos reencontramos já não escrevo em toalhas de papel, mas continuo a aproveitar a sobremesa para conversar e escrever, escrever e conversar.
Quando vivia em Barcelona almoçava quase todos os dias com os meus colegas de trabalho e a sobremesa era normalmente marcada por momentos de muitas e boas gargalhadas. Todos os dias tínhamos “anedotas” para partilhar, relacionadas com as nossas interações com os clientes. Ainda hoje solto uma gargalhada quando me lembro daquela cliente que me disse: “Mitjons?” Eu achei que me estava a perguntar onde era o quarto de banho e disse-lhe que tinha de sair da loja. Olhou para mim com um ar furioso e foi falar com outra colega que lhe indicou onde estavam as meias. (Eu não sabia que meias em catalão se diz mitjons porque em castelhano diz-se calcetines). O “portunhol” em Barcelona serviu-me de pouco e rapidamente tive que aprender catalão…
Hoje, mesmo quando faço as refeições sozinha, continuo a desfrutar da sobremesa. Uma prova disso é que esta crónica foi escrita numa toalha de papel no Café Sofia, enquanto me encantava com a leitura da última edição da revista Monocle, e comia uma saborosa fatia de bolo caseiro que me fez recordar a minha muito querida Avó do Luso.
… nestes tempos de (demasiadas) corridas sem sentido e de vidas (demasiado) digitais tenho vontade de gritar: Viva a sobremesa!