Começou por chamar-se “Alta de Coimbra”, mas a sua expansão a outras cidades originou a mudança na sua denominação. Criado em 2009, o projeto “Velhos Amigos” é, atualmente, o mais antigo da associação ATLAS – People Like Us. E se, numa fase inicial, se limitava a levar refeições quentes, afetos e companhia a idosos em situação de carência e isolamento em Coimbra, hoje, também está presente nas cidades de Alcobaça, Batalha, Pombal, Leiria e Marinha Grande.
“Percebemos que, em Coimbra, as pessoas eram apoiadas ao domicílio, durante a semana, pelas Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS). No entanto, ao sábado e domingo ficavam sós. Quisemos, por isso, dar resposta a essa carência”, recorda Raquel Pina, vice-presidente da ATLAS, em declarações ao “O Despertar”. No início, a iniciativa apenas levava refeições quentes a casa das pessoas, todavia, com o passar do tempo apercebeu-se da necessidade de alargar os seus serviços.
“Começámos a ver que o isolamento e a solidão eram a coisa pior que existia e, portanto, estendemos um bocadinho o projeto”, conta a responsável. Assim, os voluntários da associação transformaram-se numa espécie de amigos dos mais velhos. Para além de uma companhia sempre pronta a ouvi-los, deixaram de haver limites no que diz respeito ao auxílio prestado. Atualmente, a ajuda vai desde o controlo na toma dos medicamentos, a tarefas básicas do dia-a-dia.
Iniciativa é “mãe” de outros projetos
O alargamento do “Velhos Amigos” a outras cidades, bem como a extensão dos serviços prestados levou a que a ATLAS tivesse vontade de criar novos projetos. Desta forma, o identificar constante de novas necessidades por parte dos idosos fez com que várias outras iniciativas fossem surgindo ao longo dos últimos anos.
“Por exemplo, vimos que muitas das pessoas precisavam de obras na sua habitação, então criámos o projeto ‘Amigos em Casa’. Depois, em termos de combate à solidão, também temos o ‘Velhos são os Trapos’, que os obriga a sair de casa e a participar num atelier de peças originais; e o ‘LucidIDADES’, que realiza ateliers de Laboratório de Jogos e de escrita”, explica Raquel Pina.
O ponto de partida é sempre o “Velhos Amigos”. No fundo, é como se este fosse o projeto-mãe dos demais. “Foi a partir desse primeiro contacto com os idosos que, posteriormente, chegamos a outras coisas. Hoje em dia, já temos idosos que não recebem a refeição, porque são mais autónomos, mas que participam nas outras vertentes: os jogos e os trabalhos manuais”, expõe a responsável.
Só na cidade de Coimbra, a ATLAS tem a seu cargo 19 idosos. Estes chegam à associação por sinalização da Junta de Freguesia ou, em alguns casos, por vontade própria. Nesse sentido, a avaliação de cada caso é variável. “Se o idoso já é sinalizado pela Junta de Freguesia ou por uma IPSS, nós aceitamos quase sempre porque sabemos que, de algum modo, precisa de apoio. Quando os idosos vêm de livre vontade, somos um bocadinho mais rigorosos na avaliação”, confessa a vice-presidente.
A maior parte das pessoas que usufruem do projeto “Velhos Amigos” já o integram desde a sua génese, o que significa que “falamos de idosos já com muita idade, na casa dos 90 anos”, avança Raquel Pina. A mesma garante que, por essa razão, “já são um bocadinho mais dependentes e, sobretudo, precisam de companhia”.
Sair da rotina
Lanches, passeios, idas à praia e até ao Santuário de Fátima: a ATLAS aposta cada vez mais em tirar os idosos de casa e levá-los a passear. Raquel Pina relembra que, na cidade de Coimbra, chegaram a implementar um projeto chamado “Chá das Cinco”, em que, no primeiro sábado de cada mês, era feita uma atividade num café, museu ou igreja para que os mais velhos pudessem conviver e distrair a cabeça. “Era bastante agradável”, recorda com saudade.
Atualmente, os passeios continuam, sempre com a ajuda dos voluntários que compõem a associação. Só em Coimbra são cerca de 80 a trabalhar em 12 equipas. “Já há alguns anos que estamos com 19 idosos e, portanto, a equipa estabilizou. O número de voluntários é suficiente para cobrir as necessidades existentes”, garante.
O balanço por parte dos idosos parece comprovar a afirmação de Raquel Pina, já que o feedback recebido “é tremendamente positivo, porque quebra a rotina deles. Obriga-mo-los, muitas vezes, a sair de casa. De outra forma, não saem”, sublinha.
Projeto ainda é “necessário”
Há 16 anos a acompanhar dezenas de idosos, o projeto “Velhos Amigos” continua a ser “necessário e útil” nos dias de hoje. De acordo com a vice-presidente da ATLAS, a associação nunca falhou com as pessoas que apoia e, por isso, o seu trabalho tem vindo a ser reconhecido e valorizado pela população.
“Acho que temos essa verdade e honestidade que nos reconhecem. Eu costumo dizer que, mesmo nos dias de temporal, quase que voámos com o cesto na mão para entregar a comida a tempo e horas, mas ninguém falhou”, salienta.
A longevidade desta iniciativa permite ainda à responsável afirmar que o isolamento dos mais velhos é uma realidade preocupante na região centro do país, mas não só. “É transversal a todo o território e, por vezes, acontece mais em zonas urbanas do que rurais”, alerta, ressalvando que “no rural, há sempre o apoio de um vizinho. Nas cidades, é mais cada um por si”.
Nesse sentido, a ATLAS acredita que as razões que levaram à criação do “Velhos Amigos”, em 2009, ainda se mantêm atuais nos dias que correm. “Nós não gostaríamos que ninguém vivesse só ou se sentisse isolado e sozinho, principalmente, os idosos. No entanto, ainda acontece e, por isso, ainda se mantém a necessidade de iniciativas como esta”, conclui Raquel Pina.