A Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC) vai estudar, nos próximos meses, os efeitos dos incêndios florestais de agosto na fauna em Portugal, com especial atenção às populações de cervídeos. A investigação decorre no âmbito do projeto “Mapear para Proteger!”, desenvolvido por investigadores do Centro de Ecologia Funcional (CFE) e do Departamento de Ciências da Vida (DCV) da FCTUC, e integrado na iniciativa “Memórias da Floresta”, do HTC – Pólo CFE na NOVA FCSH.
Um dos elementos centrais do projeto será o lançamento de uma plataforma digital aberta ao público, que permitirá aos cidadãos registar observações e, assim, contribuir para o estudo do impacto do fogo na floresta e na vida selvagem.
“Este ano, vamos alargar a área de monitorização, englobando tanto as áreas afectadas pelos incêndios, como as não ardidas, no sentido de perceber as consequências deste fenómeno no comportamento e movimentação dos cervídeos presentes na serra”, explicou a investigadora Joana Alves, do CFE, coordenadora do projeto.
Segundo a investigadora e responsável pelo projecto, “no caso particular da Serra da Lousã, e apesar de esta zona já ter sido afetada por incêndios anteriormente, este ano a área ardida é bastante extensa, o que implica um reforço na monitorização”.
A extensão da área ardida em 2024 torna necessário um reforço na recolha de dados. Além da colaboração da população, os investigadores vão recorrer a pontos de observação, câmaras de fotoarmadilhagem e gravadores de áudio instalados em diferentes locais da serra.
“Esta estratégia permitirá perceber se os animais estão a regressar às áreas ardidas ou se se deslocam para territórios adjacentes”, acrescentou Joana Alves.
A investigação decorre em simultâneo com a época da brama do veado, período reprodutivo caracterizado por intensos bramidos. Desde 2019, a equipa da UC regista estes sons para avaliar o comportamento da espécie, a intensidade das vocalizações e os efeitos da pressão humana.
Ruído humano afeta reprodução
De acordo com a coordenadora do BeWild Lab, estudos anteriores demonstraram que os veados vocalizam menos em zonas ruidosas e próximas de parques eólicos, sobretudo ao fim de semana, quando há maior atividade humana.
“Como os bramidos são essenciais durante a reprodução, estes resultados revelam que o ruído provocado pelo ser humano pode perturbar a comunicação da espécie e o seu sucesso reprodutivo”, sublinhou a investigadora.
Para a Universidade de Coimbra, este trabalho é fundamental para compreender de que forma os incêndios florestais afetam a fauna selvagem e até que ponto os ecossistemas conseguem manter e recuperar o equilíbrio ecológico.