29 de Maio de 2026 | Coimbra
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 “Miragem” proporciona experiência virtual a utentes com deficiência

29 de Maio 2026

INCLUSÃO // O projeto “Miragem” nasceu da vontade de aproximar os utentes da Associação de Paralisia Cerebral de Coimbra (APCC) da natureza. Com recurso a óculos de realidade virtual, estes têm a oportunidade de percorrer os caminhos da Quinta da Conraria, reforçando a sua ligação com o meio ambiente e com os sentidos.

 

Levar a natureza da Quinta da Conraria a pessoas com mobilidade reduzida que, de outra forma, não teriam a possibilidade de a visitar: é esse o propósito do “Miragem – Filmes 3D com experiência multissensorial”. Promovido pela APPC, o projeto permite que os utentes ultrapassem limitações motoras, cognitivas ou sociais e explorem o meio ambiente. Com a ajuda de óculos de realidade virtual, – e combinando curtas-metragens 3D e sessões com terapeutas – os participantes conseguem sentir o vento, as folhas, o aroma intenso das plantas e até tocar nos animais.

O ponto de partida para esta iniciativa inovadora partiu do engenheiro agrónomo, Claúdio Carvalho. Ao perceber que muitos dos utentes da APCC não conseguiam participar em atividades ao ar livre por conta das suas limitações, decidiu levar a liberdade para dentro das salas. Começou por colher flores para que as pudessem cheirar e por dar-lhes a sentir as penas dos pássaros. No entanto, foi depois de começar a filmar alguns vídeos da Quinta da Conraria que a ideia final ganhou forma: criar curtas-metragens 3D. “Queria que a sensação que eles pudessem ter fosse mais realista e mais genuína, podendo melhorar o seu bem-estar e saúde em geral”, conta Claúdio Carvalho, em declarações ao “O Despertar”.

 

Benefícios a vários níveis

O processo estendeu-se por vários meses. Numa fase inicial, os vídeos eram 2D, aos quais o engenheiro agrónomo adicionava sons e músicas relaxantes. “Percebi que os utentes riam, ficavam felizes, e tinham vontade de ver outra vez. Ou seja, aquilo era uma janela para um mundo lá fora”, recorda. Mais tarde, e já com o projeto “Miragem” aprovado, o trabalho foi sendo aprofundado. Com o auxílio de vários terapeutas, a iniciativa foi desenvolvendo novas técnicas e atingindo resultados cada vez mais positivos.

“Tentamos aliar uma componente mais terapêutica a uma realidade mais imersiva”, explica o fisioterapeuta, Tiago Pedro. Isto é, os vídeos 3D começaram a ser visionados pelo utentes através de óculos de realidade virtual, com o intuito de fechar os estímulos exteriores e dar-lhes a sentir que fazem parte daquele momento. “Por exemplo, se estamos a ver imagens da água vamos colocar as mãos deles em água, vamos atirar-lhes água para cima para eles sentirem que estão mesmo no local. (…) Desta forma, passamos de um vídeo 3D para um vídeo 4D. Ou seja, aliamos esta realidade imersiva à questão mais sensorial”, acrescenta.

Este apoio terapêutico surge, assim, para garantir o melhor acompanhamento possível a cada um dos utentes, aliando a componente da natureza às componentes visual e sensorial. De acordo com Tiago Pedro, este tipo de estimulação traz benefícios a vários níveis. Em primeiro lugar, em termos físicos, já que “há um relaxamento fisiológico que não é só físico, mas também cognitivo, ou seja, ao estarem naquela realidade, conseguem baixar os seus níveis de stress e ansiedade”, refere.

Em segundo lugar, “o aliar sons, cheiros e toques a determinadas mensagens permite um desenvolvimento cognitivo no sentido de, sempre que acontecer esse cheiro ou toque, eles perceberem exatamente o que é que está no ambiente que os rodeia”, aponta. Por fim, há mais-valias em termos de bem-estar. “É o prazer, a componente lúdica, o gostarem. Temos aqui jovens que sempre passaram numa quinta e viram cavalos ao longe e, de repente, podem estar numa realidade em que estão ao pé do cavalo”, completa.

Nesse sentido, – e tendo em conta todas estas possibilidades oferecidas pelos óculos de realidade virtual -, o fisioterapeuta acredita que, no futuro, estes mesmos utentes poderão vir a conhecer novas realidades. “Podemos ter jovens a dizer ‘eu gostava de ir a Veneza’, por exemplo, e com esta experiência multissensorial conseguimos dar-lhes uma amostra do que é isso”, sublinha.

 

Cerca de 70 utentes já viveram a experiência

Do total de 200 utentes que integram a APCC, cerca de 70 já viveram a experiência com óculos de realidade virtual. Contudo, esta escolha não é totalmente aleatória. “Nós estamos a tentar beneficiar, dentro dos 200 utentes que temos, os que têm mobilidade reduzida”, afirma Tiago Pedro, garantindo que esta é uma forma de “diminuir a desigualdade através da tecnologia para que todos possam ter acesso às mesmas experiências”.

Na perspetiva do fisioterapeuta, o “Miragem” tem um papel importante no que diz respeito a aproximar os utentes da APCC à comunidade. “Nós sabemos que nunca vamos conseguir tornar o mundo 100% acessível, porque há barreiras que são intransponíveis. No entanto, esta é uma forma de poder aproximá-los de sítios que, de outra maneira, seria impossível aproximar”, reitera.

Desenvolvido pela APCC, o projeto tem como parceiros as Irmãs Hospitaleiras do Sagrado Coração de Jesus e o Agrupamento de Escolas Coimbra Centro, contando com o cofinanciamento do Instituto Nacional para a Reabilitação, ao abrigo do Programa Nacional de Financiamento a Projetos 2025.

Tiago Pedro não tem dúvidas de que a iniciativa pode ser um ponto de partida para que outras instituições, em vários pontos do país, tirem vantagem da tecnologia para apoiar mais utentes. “A ideia é que, através de experiências positivas, outros possam aprender. Nós já aprendemos com experiências positivas de outras instituições e de outras organizações, por isso, esperamos que também outros possam aprender com a nossa”, salienta.

 

A este propósito, uma das próximas etapas do “Miragem” passa por levar a projeto a outro tipo de organizações e a escolas. “Achamos que isto, com os jovens e com as crianças, pode ter algum potencial”, admite o fisioterapeuta.

Por sua vez, Cláudio Carvalho acredita que é importante que as instituições reconheçam a importância de promover o contacto dos seus utentes com a natureza. “ A ciência tem-nos mostrado, já há algum tempo, que o meio influencia muito o nosso bem-estar”, lembra, frisando que “a questão da valorização da paisagem e do património, tem uma influência muito direta na nossa saúde”.

Deste modo, o engenheiro agrónomo lamenta que se continue a desvalorizar o impacto direto que os recursos naturais têm na saúde da população. Apela, por isso, a que “as escolas, os hospitais, as instituições, e até as próprias cidades, levem, cada vez mais, a natureza para dentro delas. Isto se querem que, realmente, a sociedade tenha saúde global e bem-estar”, conclui.

 

 

Cátia Barbosa
»» [Reportagem da edição impressa no “O Despertar” de 29/05/2026]


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