Nunca se viu um ano tão murcho e tão atípico como este que finda a segunda década do século XXI. Escusado será enumerar sinónimos que resumem estes últimos doze meses, a transação entre a normalidade calma e cotia, e a avalanche pandémica e inquieta.
O mundo tem sido protagonista de uma evolução repentina, uma ascensão acelerada entre o nada e o exagero do futuro. Em poucas décadas, várias gerações cruzam-se numa mesma revolução tecnológica, social e mesmo territorial. Numa dúzia de anos a sociedade pôs-se a contar memórias de vivências e usos em vias de extinção, outros já extintos. Evoluir é objetivo fulcral de qualquer indivíduo, de qualquer país, mas tudo acarreta consequências, como o desprezo de um passado que nos ensina e por vezes se descarta.
Das velhas espadas e espadachins saltou-se para as armas de fogo, armas tecnológicas, e mais vivas que nunca as armas biológicas. Sempre se ouviu dizer que “não é preciso armas para fazer uma guerra”, e elas por aí andam invisíveis e devastadoras, vírus, bactérias e demais microscópicos elementos que colocam mais uma vez uma pandemia na História mundial. Nenhuma peste se vai embora sem deixar fome, instabilidade sanitária, inquietação psicológica, sem que deixe graves crises económicas e sociais. De momento não é um país à beira mar plantado que roga auxílio, mas sim o mundo inteiro que entre quarentenas, restrições e demais medidas se vai transformando. Há os que tiraram como lição a necessidade de um mundo mais próximo e ciente, os que de repente começaram a dar valor às coisas mais simples, enquanto outros se tornaram mais sensíveis e afetivos, mas ao mesmo tempo mais distantes, essa distância mesmo estando perto.
Corria já em janeiro os rumores de uma epidemia que ameaçara o mundo. A superstição cultural do povo sempre temeu os anos bissextos, não sendo eles de grande sorte. Nas aldeias e campos nunca se esperam grandes colheitas e adiafas, nas urbes dizem que a indústria não será muito produtiva. Ainda num espírito de reisadas e janeiras, a esperança era de que nada chegasse e que o ano que se abria fosse uma oferenda de saúde e alegria, pelo menos tão cotia como a que se vivera até então. Depressa chegou o fevereiro, ainda frio e molhado, incessante de corrupio que se vinha a prolongar à folia de um entrudo concorrido pelos vários pontos do país. Mascarava-se uma nação que tão depressa não viria a largar a máscara. Chegou março, o “Março Marçagão, manhãs de inverno e tardes de verão”, mas o sol espreitou sempre aborrecido e esquisito, nesse mês em que o mundo parou, em que Portugal se confinou desertando as ruas numa nudez nunca observada. Tudo estagnou e fechou portas, assim como os portugueses se fecharam em casa como a única arma que viria a travar uma guerra silenciosa. Os hospitais abarrotaram de gente, os lares cessaram como cadeias onde a esperança se começou a perder, o setor primário continuou assegurando com segurança a alimentação e outras necessidades. Numa composição de alerta tudo foi continuando na medida dos possíveis. Ninguém ficara indiferente aos números que todos os dias abriam os jornais.
Chegara abril e não se cheirou o perfume da primavera como de costume, não se sentiu a liberdade de que ainda temos saudades. A Páscoa passou-se como quem prolonga a Sexta Feira Santa, triste e melancólica sem a alegria do compasso pascal, da correria dos afilhados às amêndoas e ao folar. Maio foi o mês da ausência, tantas mães que não puderam ver os filhos, pela distância que se julgara ser por segurança. A ciência sempre foi falando, a crença sempre foi aumentando, os sinos tanto dobraram de luto como em chamamento à oração. Mas até parece que os santos se zangaram com o povo, pois chegara junho dos manjericos, o julho abrasador, o agosto romeiral e nada. Oh tristeza… terreiros desertos, sem festas e romarias, onde o vira se deixou de dançar, as rusgas se deixaram de escutar, onde a procissão não passou. Pobre mundo, faminto de alegres folguedos, harmoniosos de cores e sons e de gente pândega. Assim esmorecia o povo enquanto nas cidades os concertos também não se faziam, nem o na maior sala de espetáculos, apenas alguns… Os turistas deixaram de aparecer e a crise instalou-se em força num país que em parte vive dos seus visitantes, patriotas e estrangeiros. Setembro veio ascender de novo o caos, num regresso às aulas cauteloso e outubro foi-se mantendo nos mesmos moldes. Faltaram os magustos farruscados pelas mãos da brincadeira, num novembro em que até os pobres finados ficaram sem certas visitas e em que o São Martinho passou despercebido. Eis dezembro, as melhoras são poucas e o Natal não será igual.
Num ano em que muitos objetivos de vida se quebraram, acreditemos que voltaremos ao caminho que seguíamos, mais pedregoso talvez. Num ano em que se perderam abraços, adiaram-se beijos, sumiram-se rostos que no coração ficam, a esperança é como um pavio que treme de luz. Que este Natal seja o entendimento dessa luz, que nos leva a refletir quem somos e para onde vamos.
