19 de Janeiro de 2026 | Coimbra
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Turismo em Portugal, e em Coimbra: a quem serve?

25 de Julho 2025

O Turismo é uma atividade interessante – que acrescenta cultura, conhecimento e cria momentos de lazer e convívio. No entanto, o turismo de massas pode ter impactos significativos. Em Portugal é, frequentemente, apresentado como uma história de sucesso económico.

Em países periféricos como Portugal, o turismo surge como uma solução imposta por limitações estruturais: desindustrialização, baixos salários e dependência de investimento externo. Em vez de se promover o desenvolvimento endógeno, o turismo apropria-se dos recursos coletivos — espaço urbano, património cultural, natureza — para extrair mais-valia através do consumo efémero e desigual de visitantes estrangeiros.

Cidades como Lisboa, Porto e Coimbra transformaram-se, ao longo da última década, em verdadeiros “parques temáticos” do sul da Europa — cenários virados para o turismo, enquanto as populações locais enfrentam uma exclusão crescente. Quem lucra com o turismo não são os trabalhadores que servem cafés, limpam quartos ou operam plataformas digitais — mas sim grupos económicos, fundos imobiliários e cadeias multinacionais, muitas vezes com sedes fora do país.

Em Coimbra, a dinâmica é mais subtil do que nas grandes capitais, mas os sinais são claros. A cidade, centro universitário por excelência, viu o seu centro histórico e zonas periféricas como Santa Clara, ou Celas, atraírem um crescente número de alojamentos turísticos.

Este fenómeno, à primeira vista benigno, tem deslocado residentes, alterado os padrões de comércio e inflacionado os preços de arrendamento. Segundo dados de 2024, um T1 no centro histórico pode ultrapassar os 800 €, o que representa mais de 60 % do salário líquido médio de um trabalhador em Coimbra. Estudantes deslocados, pequenos comerciantes e idosos reformados são os principais atingidos — sem terem acesso a alternativas de habitação estável e acessível.

A lógica é simples: o valor de uso da habitação (morar, viver, trabalhar) é substituído pelo seu valor de troca — a possibilidade de gerar lucro. O património urbano de Coimbra é, assim, transformado em mercadoria, apropriado por quem o pode explorar para fins lucrativos. A população, que deveria ser beneficiária da cidade, é relegada ao papel de servidora da experiência turística.

O discurso dominante insiste em apresentar o turismo como gerador de emprego. É verdade que o setor emprega mais de 400 mil pessoas em Portugal — mas a que custo? A maioria desses postos são precários, mal remunerados, sazonais e sem proteção social. Trabalhadores de hotelaria, restauração e limpeza operam sob ritmos intensos, contratos instáveis e pressão constante para manter a “boa imagem” do destino turístico.

Em Coimbra, estudantes e jovens trabalhadores são frequentemente absorvidos por este ciclo: trabalham em cafés, lojas de recordações ou alojamentos locais, muitas vezes sem contrato formal ou com salários mínimos. Esta uberização do trabalho, centrada em plataformas, promove uma nova forma de exploração invisível, onde o lucro se concentra no topo e a insegurança se generaliza na base.

O espaço urbano é moldado não pelas necessidades dos seus residentes, mas pelas expectativas do turista consumidor: ruas limpas, fachadas restauradas, menus em inglês, lojas padronizadas.

Em Coimbra, o investimento público em eventos culturais, festivais e “requalificações” de espaços urbanos responde muitas vezes mais ao desejo de atratividade turística do que à melhoria da qualidade de vida local. A Baixa, por exemplo, que enfrenta desertificação habitacional e comercial, é muitas vezes palco de eventos sazonais que mascaram a ausência de políticas estruturais para habitação, emprego e cultura comunitária.

Este processo acentua a gentrificação: expulsão de residentes de zonas centrais e substituição por atividades económicas orientadas para o turismo e consumo. O espaço da cidade é apropriado pelo turismo — e a sua função social, esvaziada.

Por outro lado, a dinâmica turística praticada nos últimos anos é ecologicamente insustentável e estruturalmente instável. A dependência de fluxos externos torna a economia vulnerável a choques (como se viu na pandemia, ou na crise económica de 2008), ao mesmo tempo que incentiva práticas de consumo intensivo de recursos: transporte aéreo, consumo energético, construção em zonas costeiras ou naturais.

Em Coimbra, o aumento de pressão sobre os transportes públicos, a proliferação de alojamentos sem regulação ambiental e o aumento de resíduos urbanos são reflexo dessa lógica de crescimento sem limites.

O turismo, longe de ser apenas lazer e receitas, é hoje um espelho das contradições contemporâneas. Ele revela a desigualdade crescente entre centros e periferias, capital e trabalho, visitantes e habitantes. Portugal, e Coimbra em particular, enfrentam uma encruzilhada: manter o atual modelo extrativista e de exclusão para muitos habitantes, ou procurar uma nova relação com o território, com o tempo e com a cidade.

Não se trata de rejeitar o turismo como fenómeno humano — mas sim o modo como ele é praticado no contexto da lógica económica actual. Enquanto Coimbra continuar a ser tratada como “produto” para visitantes, e não como comunidade viva para quem a habita, o turismo será mais uma expressão de desigualdades travadas no coração das suas ruas.

 

Ana Rajado


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