4 de Agosto de 2021 | Coimbra
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ANTÓNIO INÁCIO NOGUEIRA

Testemunhos: O mito, a lenda e o Complexo de Édipo

16 de Julho 2021

Édipo é uma das figuras lendárias da Antiguidade grega que mais me impressiona. É filho de Laio, rei de Tebas, e de Jocasta sua mulher.

Laio foi prevenido, por fonte segura, que Édipo o mataria. Precavendo-se, mandou – o para o Monte Citíron, onde foi descoberto por uns pastores. Estava preso a uma ramo de árvore, de cabeça para baixo e com os pés desvendados e muito inchados, condição que os levou a pôr-lhe o nome de Édipo, significado na gíria de «pés inchados». Os pastores pegaram no menino e levaram-no à presença de Políbis, rei de Corinto. Consternado, tratou a criança como se fosse um filho e deu-lhe uma educação esmerada.

Chegado à idade adulta, e dada a sua origem misteriosa, Édipo deslocou-se a Delfos para consultar o oráculo, pois desejava saber quem era o seu verdadeiro pai. O oráculo, deu-lhe por conselho nunca mais voltar à sua pátria, pois estava-lhe destinado matar o pai e desposar a mãe. Édipo, quis, a todo o custo, contrariar o horroroso vaticínio. Exilou-se, seguindo por um caminho ermo, mas quis a casualidade que se encontrasse com Laio, marchando num carro puxado por machos.

Houve uma altercação entre os servos de Laio e ele próprio, na qual o rei, seu verdadeiro pai, se intrometeu. Durante esta briga, Édipo matou-o, cumprindo-se assim a primeira parte da profecia do oráculo. Depois da morte de Laio, o trono de Tebas passou para Creonte, pai de Jocasta.

Acontece que nessa altura, campeava naquelas paragens um monstro – a Esfinge – com corpo de leão e cabeça de mulher, que aterrorizava os arredores de Tebas, pois devorava todos os viajantes que não adivinhassem os enigmas que ela lhes propunha.

Creonte, sucessor de Laio no trono de Tebas, prenunciou o trono e a mão de Jocasta, a jovem e bela viúva, sua filha, a quem livrasse o país daquele monstro medonho. Édipo compareceu pleno de coragem e ofereceu-se a arriscar adivinhar o enigma que a Esfinge lhe alvitrasse.

Esfinge segurou Édipo pelo cinturão e propôs-lhe o enigma. Disse: «Qual é o ser que no começo da vida anda com quatro pés, a meio da vida anda com dois pés e no fim da vida anda com três pés?». Se o enigma não fosse aclarado, Édipo seria devorado; se o enigma fosse decifrado, a Esfinge exterminar-se-ia.

Édipo respondeu, imediatamente, que era o homem, uma vez que nos primeiros tempos de vida gatinha sobre os dois pés e as duas mãos; durante a vida, desloca-se sobre os dois pés e, pelo fim da vida, caminha sobre os pés com a ajuda do bordão, que é o terceiro pé. Exasperada, a Esfinge lançou-se pelos rochedos da costa e caiu no mar despedaçada. Édipo foi aclamado rei e casou com Jocasta. Assim se cumpriu a segunda parte da profecia do oráculo.

Mais tarde, Édipo soube a sua verdadeira origem, e deu-se então a tragédia fatal: Jocasta, sua mãe e esposa, suicidou-se por enforcamento. Édipo, depois de ter arrancado os olhos, abandonou Tebas, levando a sua filha Antígona como guia. Internou-se no bosque das Euménides, e aí desapareceu para sempre.

A lenda de Édipo foi utilizada como tragédia de obras literárias e artísticas em várias épocas remotas, e por vários autores, sendo magistralmente tratada nalgumas delas. Mesmo em épocas recentes, a música, a literatura e o cinema não se esqueceram desta fatalidade. Falamos do grande compositor russo, Igor Stravinski, do notável escritor francês André Gide, de Paolo Pasoline, o genial poeta intelectual e cineasta bolonhês que estreou uma inovadora adaptação cinematográfica de Rei Édipo.

Também da tragédia vem o termo Complexo de Édipo, criado por Freud e inspirado na tragédia grega Édipo Rei. Designa Complexo, o célebre e controverso cientista, o conjunto de desejos amorosos e hostis que o menino, enquanto ainda criança, experimenta com a relação – mãe. Embora o assunto fosse e seja ainda muito discutido na área da psicologia e psicanálise, não é uma teoria cientificamente aceite por carecer de evidências. O suposto fenómeno psíquico também ocorre nas meninas com a relação – pai, mas a este dá-se o nome de Complexo de Electra.

Freud baseou-se na tragédia de Sófocles (496 – 406 a.C.), Édipo Rei. Produções modernas da peça de Sófocles estavam sendo encenadas em Paris e Viena, no século dezanove e tiveram um sucesso fenomenal na década de 1880 e 1890. O neurologista austríaco Sigmund Freud no seu livro “A Interpretação dos Sonhos”, publicado pela primeira vez em 1899, propôs que um desejo edipiano é um fenómeno universal, psicológico, inato (filogenético) dos seres humanos e a causa da culpabilidade inconsciente. PONTO FINAL. [As devidas vénias à Wikipédia online e à Infopédia].


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