27 de Outubro de 2021 | Coimbra
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ANTÓNIO INÁCIO NOGUEIRA

TESTEMUNHOS – Aquilino Ribeiro: Biografia Incompleta

12 de Fevereiro 2021

Escrevi recentemente sobre o meu compositor preferido: Ludwig Van Beethoven. Hoje, redijo algo sobre a biografia do escritor Aquilino Ribeiro. É o meu preferido, que leio e (re)leio com prazer. Para além da sua prosa, para mim sem paralelo, escreveu um livro sobre a minha praia de sempre: a Praia do Pedrógão.

“Alcança quem não cansa” era o ex-libris de Aquilino Ribeiro, que nasceu a 13 de setembro de 1885 no concelho de Sernancelhe, freguesia de Carregal de Tabosa. A sua ida para o Colégio da Senhora da Lapa, em 1895, seria o início de um percurso que terminaria em 1904, com a expulsão do seminário de Beja, depois de ter contestado uma acusação do director da instituição.

Chega a Lisboa em 1906, onde se salienta pelos seus artigos de opinião em jornais republicanos. Mais tarde adere, de alma e coração, às movimentações republicanas, quer através da sua escrita demolidora, quer através da participação em atividades, que acabam por levá-lo à cadeia.

Em 1907 rebentam dois caixotes de explosivos, guardados em sua casa, e morrem dois correligionários. É preso, mas consegue evadir-se. Passa à clandestinidade, em Lisboa, até fugir para Paris.

Aí chegado inscreve-se no curso de Filosofia da Sorbonne, onde contacta com muitos intelectuais franceses e portugueses que, por motivos políticos, se viram forçados a viver fora de Portugal. Desenvolve vários projetos editoriais, envia para Portugal diversos artigos e conhece Grete Tiedemann, sua primeira mulher. Entretanto rebenta a guerra mundial de 1914 e é forçado, pelas circunstâncias, a regressar ao seu país, com a família.

Em Portugal ocupa-se, para além da escrita, com o trabalho de professor no Liceu Camões e, posteriormente, com o cargo de segundo bibliotecário na Biblioteca Nacional.

Continua muito ativo e ajuda a fundar a Seara Nova. Participa, em 1927, numa revolta frustrada contra a ditadura militar, que havia nascido do 28 de maio de 1926. Dado o malogro da intentona, vê-se obrigado a refugiar-se novamente em Paris. De regresso a Portugal, volta a participar numa ação anti-regime. É preso em Viseu mas consegue fugir. Esconde-se nas serranias beirãs e enceta uma fuga que, de novo, o levará até Paris.

A mulher morre em 1927.

O tempo de exílio termina em 1932, ano em que regressa, ainda clandestinamente, a Portugal. Entretanto casa, em segundas núpcias, com Jerónima Dantas Machado, filha do já deposto Presidente da República Bernardino Machado. Seguidamente é amnistiado, pois tinha sido julgado e condenado à revelia em 1929.

Os seus génios conspirativos acalmam, e tem a possibilidade de se dedicar plenamente à escrita embora continue a participar em ações críticas à ditadura salazarista. Apoiou a campanha presidencial de Norton de Matos, militou na candidatura de Humberto Delgado à Presidência da República, no ano de 1958, e participou na fundação da Sociedade Portuguesa de Escritores, no ano de 1956. O seu prestígio aumenta, como grande figura da escrita, dentro e fora do país, e é apresentado como candidato ao Prémio Nobel. Em 1958, depois da publicação do romance Quando os Lobos Uivam, considerado pelo regime do Estado Novo como injurioso das instituições de poder, é-lhe instaurado um processo-crime. Em sua defesa, manifestam-se 300 intelectuais, portugueses e estrangeiros, que se juntam num abaixo-assinado pedindo o arquivamento do processo. O processo-crime acaba por ser arquivado, cerca de vinte meses depois da sua instauração, na sequência de uma amnistia.

Estamos na presença de um escritor ímpar, um lutador sem fronteiras, que deixou como legado uma biblioteca ativa de 61 obras.

Por volta de 1922 começa a escrever o romance A Batalha Sem Fim, onde nos conta a lenda da Cova da Serpa e nos retrata o Pedrógão de uma forma excecional.

Na realidade, Aquilino Ribeiro andou, pelas terras do Pedrógão e do Coimbrão, em 1922. Viveu alguns meses no Casal de Baixo, numa casa de Joaquim Ferreira Rocio. Era mais uma peregrinação de exílio, situação que sempre o fazia ausentar de Lisboa.

O livro denota bem os conhecimentos obtidos por Aquilino enquanto viveu por estas terras, para onde veio por influência de José das Neves Leal, seu amigo.

O Pedrógão deve a Aquilino, e a José das Neves Leal, um livro de eleição. Em 1963, quando se preparava uma grande homenagem ao escritor, este adoece subitamente e morre a 27 de maio.


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